Não há uma resposta científica que possa explicar o que é ser benzedeiro

Para muitos, uma força superior rege as energias da pessoa para o bem

por Luciane Evans 13/04/2014 08:12

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Beto Magalhães / EM / D. A Press
Espírita, dona Nerci da Conceição é benzedeira há 30 anos e usa em suas benzeções ramos verdes, folhas de arruda e de guiné ao lado de um crucifixo (foto: Beto Magalhães / EM / D. A Press)
Uma sabedoria popular que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai. Seria um dom ou uma experiência de vida? Não há respostas exatas. O certo é que, segundo os benzedeiros, para benzer não é preciso muito: basta ter o coração aberto e fazer o bem. Muitos, hoje em dia, não são católicos. Adaptaram suas crenças à prática. Assim, quem chega à casa desses anjos, independentemente da religião, percebe que a grande maioria não está em busca de holofotes e benze por acreditar em uma força superior. Dinheiro? “Dá-se de graça o que de graça recebeu”, ensina Nerci da Conceição, de 68 anos, benzedeira na capital há 30 anos. Para a geração que chega, eles aconselham a ter boa vontade, o que pode significar largar um almoço para atender, sem pressa ou preguiça, alguém que precisa ser benzido.

Espírita, Nerci conta que seu dom veio da necessidade. Ela não encontrava benzedeiras na cidade para seus filhos e, assim, começou a benzer. No Bairro Aparecida, na Região Noroeste, ela é bem conhecida e usa a natureza em suas rezas. Há em sua casa ramos verdes, arruda e guiné – plantas que usa para benzer junto do crucifixo. “Antes do rito, gosto de ouvir as pessoas. Tenho até a oração para as doenças desconhecidas. Receito o uso de plantas também. Em casos de problemas de pele, é bom usar pomada recomendada pelo médico e um pouco de enxofre”, diz. Ela benze até mesmo os animais e acredita que há pessoas que atraem o mal, “por isso, benzer é tão importante. Afasta os maus espíritos e abre caminhos”.

Na linha da umbanda kardecista, a benzedeira Maria Aparecida da Silva, de 64, conta que benze desde os 12 anos e não sabe como aprendeu. Um dos dias mais marcantes para ela foi quando chegou em sua casa uma moça pedindo benzeção. “Não sabia o que tinha, nunca a tinha visto na vida. Veio o meu guia espiritual, que às vezes fala comigo quando preciso, e me pediu para benzê-la na luz. Acendi uma vela”, conta.

Míriam se diz médium e, durante a entrevista, surpreendeu a reportagem muitas vezes. Segundo ela, é bom benzer com água, para limpar as coisas ruins. “Cada pessoa tem um tipo de vibração”, comenta. Por acreditar nisso, ela pede cuidado com os abraços. “Um abraço mal dado é pior do que uma facada. Quando alguém lhe abraçar, feche os olhos. Aí você barra a energia do outro. Será um espelho para quem abraça você. Existe pior reflexo que o espelho?”, questiona.

Ela faz um alerta também para esse período da quaresma. “É uma época em que espíritos vagam muito facilmente. É preciso cuidado. A benzeção protege você”, comenta. Porém, mesmo defendendo essa proteção, Míriam diz que não se pode ser benzido por qualquer um. “Tenho medo de passar meu conhecimento para alguém. Pode-se benzer tanto para o bem quanto para o mal. O coração dos outros é terra que ninguém morre. Por isso, é preciso cuidado”, avisa. Quando a reportagem pediu a Míriam que fosse fotografada para a matéria, ela informou que as entidades que lhe acompanham não permitiram e pediram a ela que não falasse mais. Respeitamos.

De acordo com o filósofo Stephen Simim, as adaptações da forma de benzer são muitas, e uma delas está na assimilação de outros elementos e religiões. “Hoje, há no meio evangélico, por exemplo, aquela pessoa que ora pelas outras. É uma irmã de fé muito forte”, exemplifica, lembrando de práticas atuais esotéricas, que muito têm a ver com as benzeções. “Muitas coisas estão surgindo, mas ninguém está inventando. Por isso, não tenho medo de que a prática se perca. Pode haver uma ressignificância.”

Senso de responsabilidade

Medo, Mário Braz, de 81 anos, também não tem. Há 39 benzendo, ele diz que aprendeu a prática com a irmã benzedeira. “Lembro que zombava tanto dela, e ela um dia me pediu para benzê-la, pois estava com dor de cabeça. Ela sarou na hora e  viu que tinha o dom. Não parei mais”, recorda. Com tanto sucesso, recebendo cerca de 70 pessoas por dia, ele conta que há dias em que está almoçando e chega uma criança para benzer. “Aí tenho que largar o prato. Por isso, digo que não se pode ter preguiça nem má vontade.”


Mário benze as doenças e também os documentos. Uma das perguntas que faz para quem pede sua benzeção é se a pessoa
está desempregada e pede a carteira de motorista. Então, faz suas rezas. Até moça solteira ganha uma oração para se  casar. E não é à toa que as pessoas o procuram todos os dias na comunidade dos Arturos, em Contagem. “Minha mulher está benzendo. Faz escondido de mim, por preconceito”, diverte-se Mário, que diz ter ensinado à mulher a “costurar” coluna. “Quando se está com uma dor na coluna, é bom pegar uma agulha e costurar um novelo. Sara que é uma beleza, só não
pode esquecer a oração”, diz.

Antes de começar a benzeção do dia, das 8h às 17h30, Mário se protege. “É para deixar meu corpo fechado. Funciona. Tenho
uma saúde de ferro”, afirma. Quem o conhece diz que foram poucas as vezes em que ele deixou de benzer, como no dia da
morte da irmã, em que ficou três dias de luto. Como muitas pessoas vão à sua procura, Mário conta que até os médicos da região já o recomendam. “Por isso, digo que as pessoas estão voltando a nos procurar. Antigamente, qualquer coisa que acontecia, ia-se em busca dos doutores. Hoje, eles que estão mandando seus pacientes para as mãos e olhos dos benzedeiros”, diverte-se.

 

ORAÇÕES

Oração de Santa Catarina


“Minha Santa Catarina, digna que foste, aquela senhora que passou pela porta de Abraão. De dia e de noite, ache seus inimigos tão bravos para mim como leões. Com suas palavras abrandai o coração de meus inimigos. Se tiverem faca para mim há de enrolar como um novelo de linha, será cortada pela corrente de Santa Catarina. Se tiverem arma de fogo para mim será cortada pela corrente de Santa Catarina. Ninguém me enxergará, eu viro em pau e empedra na frente dos meus inimigos. Meus inimigos nunca vão me enxergar para fazeromauamim, está acorrentado pela corrente de Santa Catarina. Há de correr quando me virem, como o judeu correu da cruz. Assim seja. Amém, Jesus.”

Oração criada pela benzedeira Aurora Ferreira dos Santos, de 91 anos.

“Cruz de Cristo na minha testa, palavra divina na minha boca, hóstia consagrada na minha garganta, menino de Jesus no
meu peito. Aleluia, Aleluia, Aleluia. Custódia me proteja”

Oração que Mário Braz faz antes de benzer. É proteção contra os males, e Custódia, que ele cita, é uma antiga benzedeira da região.


E escute a oração da benzedeira Maria da Conceição de Souza, de 61 anos:


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