Adeptos do 'no poo' adotam fórmulas alternativas para lavar os cabelos; veja impressões de quem testou

Movimento do pouco ou nenhum xampu questiona o papel da indústria sobre a saúde dos cabelos

por Revista do CB 03/04/2014 15:00

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Há três meses, a autônoma Naiara Araujo de Melo, 27 anos, deixou o xampu comum e começou a usar o da filha de 4 anos. “Uma amiga minha disse que o cabelo dela ficou mais macio e menos ressecado quando lavou com xampu de bebê e resolvi experimentar”, justifica. Ela ainda não sabia, mas estava seguindo um dos passos dos métodos low poo e no poo (abreviação em inglês para “pouco xampu” e “sem xampu”, respectivamente). Assim como o nome das técnicas sugere, elas propõem uma nova forma de lavar os cabelos usando menos xampu ou até cortando o produto da rotina de limpeza dos fios e do couro cabeludo.

Janine Moraes/CB/D.A Press
Para Denise Caixeta, o low poo nos ensina a ler os rótulos com a devida atenção (foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Apontada como uma das primeiras a propor o abandono do xampu, a cabeleireira inglesa Lorraine Massey explica a técnica no livro Curly girl (não editado no Brasil). Mais que um manual, trata-se de um manifesto bem-humorado a favor dos cabelos cacheados, que costumam sofrer mais com problemas de frizz e ressecamento. Ela defende que uma série de componentes encontrados nos produtos tradicionais de cabelo prejudicam os fios. Como alternativa, criou a linha de xampus Deva, cuja fórmula respeita a filosofia low poo. Fato é que a prática vem ganhando adeptos no Brasil. Há, inclusive, um grupo no Facebook dedicado a iniciantes que já reúne mais de 14 mil membros.

Naiara faz parte desse movimento. Um de seus objetivos era não mais usar produtos com lauril éter sulfato de sódio. Trata-se de um detergente, muito comum em xampus e que, supostamente, retira a oleosidade do couro cabeludo. A substância, porém, é rara em linhas infantis, uma vez que pode causar irritações, como coceira, ardor nos olhos e vermelhidão. Os adeptos do low poo abominam sulfatos em geral, pelos motivos citados. Os cabelos cacheados seriam especialmente prejudicados nas lavagens, já que demandam mais oleosidade que os fios lisos para permanecerem saudáveis.

A lista de componentes “proibidos” também inclui derivados de petróleo, usados para blindar o fio e dar brilho ao cabelo; parabenos, conservantes usados para eliminar micro-organismos; além de silicones insolúveis, derivados de pedras de quartzo usados em xampus e condicionadores para dar brilho aos fios. Quem segue os métodos acredita que essas substâncias se acumulam prejudicialmente no cabelo.

Isso, inclusive, explicaria o fato que alguns xampus parecem perder o efeito com o passar do tempo. “Eu gastava mensalmente uns R$ 700 com produtos com muito silicone e não estava adiantando”, relata a servidora pública Cristiane Daniel, 35 anos. Ela abandonou o xampu há três semanas e, agora, usa apenas condicionador. A prática, chamada de co-wash, é comum entre os adeptos do no poo. Normalmente, é usado um condicionador mais barato para limpar e outro, usado em menor quantidade, para finalizar. Também é comum adicionar ao condicionador óleos naturais e até alguns de cozinha, como o de girassol — prática que Cristiane recomenda. “Limpa e fica macio. Meu cabelo está nutrido, do jeito que deveria ser.”

	Janine Moraes/CB/D.A Press
Cristiane Daniel usa somente condicionador e aprova o resultado (foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Entretanto, especialistas não acreditam na eficácia do co-wash e não recomendam que as pessoas deixem de usar xampu. “Lavar os cabelos apenas com condicionador pode promover doenças como a dermatite seborreica (caspa)”, afirma o tricologista Adriano Almeida. Ele também condena o uso de misturas caseiras não testadas para fazer a limpeza do cabelo. Apesar de estar espalhada na internet, a receita de lavagem com bicarbonato de sódio e vinagre de maçã é contraindicada pelo especialista. “O pH do bicarbonato não é igual ao do cabelo nem ao do couro cabeludo. Você deixa o cabelo mais suscetível a infecções”, alerta. Por fim, desaconselha o uso de extratos de plantas. “Alguns podem provocar queimaduras no couro cabeludo.”

Sem colocar xampu na cabeça há quase três anos, a arquiteta Regiane Leão, 42 anos, conta que usa produtos de limpeza para o cabelo sem espuma e afirma que as dificuldades são só no começo da mudança de hábito. “Foi uma transição mesmo. Não ficou bom de um dia para o outro. Tive problema com a oleosidade, mas é porque os resíduos demoram a sair do cabelo”, garante. Hoje, ela se diz muito feliz com o resultado e divide a experiência no fórum virtual Encaracoladas, administrado por ela.

A busca por alternativas veio em 2007, quando resolveu assumir os cabelos crespos e ouviu falar dos métodos na época em que morava no Canadá. “Primeiro, comprei um xampu sem sulfato; depois, fui percebendo que não precisava dele. Os produtos naturais não só faziam meu cabelo ficar mais bonito, mas não deixavam resíduos que precisassem ser retirados com xampu”, relata.

As impressões de quem testou

São quatro os tipos de substâncias abolidas pelas low poo/no poo: derivados de petróleo, parabenos, sulfatos e silicones, mas identificar os diversos nomes que eles carregam nas embalagens do produto pode ser complicado. Portanto, não se espante com termos como methylparaben, buthylparaben e propylparaben (os três são parabenos). “É comum as meninas precisarem andar com uma tabela no começo, mas, com o tempo, se acostumam”, diz Regiane Leão.

Para a arquiteta, o mercado brasileiro ainda não despertou para o potencial da filosofia, o que explica as poucas opções disponíveis. “É uma falha das empresas. Elas forçam a ignorância, a ideia de produtos milagrosos. Quanto mais o no poo se espalhar, mais as pessoas conhecerão os próprios cabelos e questionarão a indústria. Talvez assim, possam surgir mais alternativas naturais”, critica.

A estudante Denise Caixeta Borges, 21 anos, adotou o low poo há um mês e diz ter “despertado” para os rótulos. “Aprender a ler essas informações nos torna consumidores mais exigentes. Hoje, não me fascino pelos milagres prometidos pelos anúncios de marcas famosas”, ressalta. Denise conta que pesquisou a filosofia uma semana antes de ir à praia. “Já estava prevendo o caos que ficaria meu cabelo, então comprei um xampu com sulfactantes leves e um condicionador para lavar o cabelo. Peguei uma máscara de hidratação sem parafina e usei o óleo mineral que tinha em casa — foi tudo o que eu levei. Meu cabelo voltou hidratado, com brilho e macio, como se não tivesse tomado tanto vento e sal.”

Diogo Ferreira, 26 anos, diz que enxergou bons resultados desde a primeira lavagem com o xampu sem sulfato. “Minha raiz era muito oleosa e minhas pontas, secas. Já tinha feito de tudo, era minha única esperança”, brinca o estudante, low poo há um mês. “Hoje, meu cabelo é outra coisa. A oleosidade diminuiu, o cabelo está com mais brilho e as pontas estão sedosas, sem precisar hidratar”, relata.

Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos afirmou que o setor é regularizado e fiscalizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e que os fabricantes de xampu e de qualquer outro produto são obrigados a testá-los e a comprovar a segurança e a eficácia de cada um. O órgão acrescentou ainda que é uma escolha do consumidor aderir às técnicas, não sendo recomendável o uso de produtos caseiros.

Entenda a diferença
Os praticantes do no poo tiram totalmente o xampu da rotina. A limpeza dos fios e do couro cabeludo é feita com condicionador, prática chamada de co-wash. Algumas pessoas também fazem a lavagem com misturas caseiras. O tricologista Adriano Almeida é contrário a essa técnica, pois defende que o condicionador não tem a função de limpar o cabelo. Quem é adepto ao low poo continua usando xampu, mas em menor quantidade e dando preferência a produtos sem sulfatos.

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