Instituições particulares se empenham em conduzir estudos sobre a eficiência do coaching

Especialista explica a diferença entre coaching e psicoterapia

por Carolina Samorano 02/04/2014 09:03

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Luiz Paulo Machado, 43 anos, e a mulher dele, Thaís Machado, 30, são hoje representantes de uma “corrente” do coaching que, de um lado, vem arrebanhando milhares de entusiastas e, de outro, causa estranheza nos defensores do método tradicional. Eles são diretores do núcleo Brasília da Federação Brasileira de Coaching Integral Sistêmico, uma forma, segundo Luiz Paulo, “menos racional” do coaching, que busca integrar razão e emoção, e abordar, nas sessões, todos os aspectos da vida do coachee. “O método integral sistêmico vai mais fundo na questão emocional, trabalha muito as crenças limitantes dos clientes, transformando-as em crenças fortalecedoras”, explica Luiz Paulo, que há dois anos atua como coach na capital.

Fábio Guimarães/Divulgação
Luiz Paulo e Thaís Machado reúnem até 400 pessoas num curso de inteligência emocional: método que eles seguem é criticado (foto: Fábio Guimarães/Divulgação)
As nuances que diferem o método CIS, como é chamado, do tradicional, são mesmo difíceis de entender. Enquanto o coaching usual tenta ignorar o passado do coachee e traçar uma estratégia focando apenas o futuro, o sistêmico, diz Luiz Paulo, considera que olhar para trás pode, muitas vezes, ajudar a entender as barreiras internas do cliente. “É uma visita rápida ao passado, de forma racional, para entender, por exemplo, traumas. Se um cliente chega com uma dificuldade de relacionamento, pode ser por uma experiência ruim do passado.”

Luiz Paulo e Thaís têm uma história recente com o coaching. Ainda assim, são hoje nomes em ascensão na cidade. A Febracis foi criada há 15 anos — nem sempre com esse nome — em Fortaleza, pelo coach Paulo Vieira, hoje um dos mais conhecidos do Brasil. Thaís conheceu o método há dois, por meio de um restaurante cearense que tem filial na capital e trouxe o criador da prática para um curso de inteligência emocional por um fim de semana. Foi fisgada e apresentou a história ao marido.

Os dois fizeram a formação em coach pela Febracis e passaram a atender alguns clientes. Em novembro de 2013, Luiz Paulo pediu licença do cargo de analista judiciário no Tribunal Superior do Trabalho para se dedicar integralmente aos clientes e à administração da Febracis, em que hoje mais de 20 coaches do método integral sistêmico, formados aqui ou em Fortaleza, fazem atendimentos.

Luiz Paulo calcula que existam hoje mais de 80 coaches pelo método CIS em Brasília. Embora ele ainda não ministre o curso de formação aqui na capital — existem apenas quatro pessoas credenciadas no Brasil, que de vez em quando vêm à cidade formar novos coaches —, ele já ministra o curso de inteligência emocional na unidade brasiliense. A última edição teve mais de 400 participantes, a um custo de R$ 1,2 mil, cada. O plano é que, a partir do segundo semestre, ele comece também a formar coaches no escritório da Federação. Formar-se pelo método CIS custa hoje R$ 6,9 mil, além do curso de inteligência emocional, obrigatório aos candidatos a coach pela corrente integral sistêmica.

O que alguns coaches criticam sobre o CIS, entre outras coisas, é que denominar um método como “integral sistêmico” só porque ele aborda todos os aspectos da vida do coachee — relacionamentos, profissional, familiar etc. — não faz muito sentido já que, de um jeito ou de outro, todo processo de coaching faz o mesmo. Além disso, algumas pessoas dizem que, ainda que de forma velada, o método tem ares de pregação religiosa, incentivando as pessoas a “buscarem Deus” ou a desenvolverem uma religião como forma de alcançarem suas metas mais rapidamente.

“Isso me constrange”, afirma Villela da Matta, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching. “O que as pessoas fazem é fantasiar o coaching de autoajuda e vender isso para os outros. Tem muita gente sendo enganada. É motivacional, as pessoas saem de lá felizes, claro, mas quero ver se alcançam resultados”, provoca.

Luiz Paulo nega qualquer vínculo religioso, mas confessa que, durante as sessões, a busca da religiosidade é incentivada, mas cada cliente o faz da maneira como achar melhor. De fato, a palavra “Deus” ou a ideia de “servir” pipocam no discurso. Trechos da Bíblia também são citados com frequência em apresentações da Febracis no YouTube, por exemplo.

O “servir” é um dos pilares exclusivos do método do qual Luiz Paulo e Thaís são representantes, entre outros como “matrimônio”, “intelectual”, “profissional” etc. Doar-se a uma caridade tem mais poderes do que se imagina, defende Luiz Paulo. Ele e a mulher participam semanalmente de uma sessão de coaching coletivo em uma chácara para recuperação de dependentes químicos. Alguns dos recuperados saem direto para sessões individuais com Luiz Paulo, gratuitas. Hoje, ele atende cerca de 10 coachees, porque prefere ficar com as manhãs livres.

ENTREVISTA
Damian Goldvarg

Arquivo Pessoal
Damian Goldvarg (foto: Arquivo Pessoal)
Não existe uma única entidade encarregada de regulamentar e fiscalizar a prática do coaching no mundo — e nem existirá tão cedo, os profissionais acreditam. No entanto, muitas instituições, particulares, na sua maioria, se empenham em treinar, desenvolver metodologias e padrões e conduzir estudos sobre a eficiência do método. O International Coach Federation (algo como Federação Internacional de Coach, em português), localizado nos Estados Unidos, onde tudo começou, é um deles. A instituição existe desde 1995 e se define como uma organização sem fins lucrativos dedicada a estimular o crescimento da profissão e dar suporte aos seus profissionais.

Damian Goldvarg, atualmente diretor global da instituição, é PhD e tem mais de 20 anos de experiência em assessoria executiva para empresas, desenvolvimento de lideranças e planejamento estratégico. Gigantes como Coca-Cola, McDonald’s, Walmart, Sony, L’Óreal e mesmo a Organização Mundial da Saúde já contaram com sua expertise. Entusiasta do coaching e hoje à frente do ICF, ele conversou com a Revista sobre o método.

Atualmente, no Brasil, existem vários “tipos” de coaching, como para perder peso, entrar em concursos públicos, para se alimentar corretamente… Todos eles são legítimos e reconhecidos?
Nós definimos coaching como uma parceria com os clientes em um processo criativo e de provocação do pensamento que maximiza seu potencial pessoal e profissional. O coaching foca em determinar objetivos, criando resultados e conduzindo a uma mudança pessoal. Dito isso, ele pode ser aplicado a um enorme número de situações e objetivos. Os clientes precisam ter certeza de que o coach que eles escolherem tem o treinamento apropriado e experiência para ajudá-lo a alcançar suas metas. Além disso, eles podem precisar da ajuda de outros profissionais. Por exemplo, para perder peso, ele deve procurar um médico e um nutricionista além do coach.

Qual a diferença entre coaching e psicoterapia?
Pela sua natureza e definição, coaching é diferente de outras atividades, incluindo terapia. A terapia lida com curar a dor, disfunções e conflitos em um indivíduo ou em um relacionamento. O foco geralmente é resolver dificuldades que vêm desde o passado e que atrapalham o funcionamento emocional no presente. O coaching, por outro lado, é focado no futuro e dirigido pelo cliente. Ele dá suporte ao crescimento pessoal e profissional baseado na mudança da iniciativa própria e na perseguição de resultados bem específicos.

Por que o sucesso repentino dos programas de coaching no mundo e por que ele tem sido considerado a profissão do futuro?
A popularidade do coaching vem crescendo há muitos anos. A razão para isso é simples: o coaching dá resultados! Clientes que participam de um processo de coaching relatam um aumento considerável na autoconfiança, nas relações interpessoais e na comunicação, no equilíbrio entre trabalho e vida, no planejamento do tempo e na performance profissional. Em um mundo incerto e complexo, o coaching empodera pessoas e organizações, honrando a criatividade, os recursos e o todo de cada cliente.

Como saber que o profissional é sério?
Assim como em todo mercado, a comunidade do coaching certamente não está imune a profissionais mal intencionados, que se autointitulam coaches, mas colocam seus próprios interesse financeiros e individuais acima do bem-estar de seus clientes. No entanto, existem também aqueles bem intencionados que se autointitulam coaches, mas não conseguem entregar resultados. De fato, pessoas que participaram do Global Coaching Study da Federação Nacional de Coaching em 2012 identificaram profissionais destreinados que se definem coaches como a maior ameaça à indústria do coaching atualmente.

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