Os vários jeitos de ser mãe: especialistas afirmam que não há fórmula certa

Com a chegada dos filhos, algumas mulheres param de trabalhar. Outras, tão logo termina a licença-maternidade, retomam a rotina profissional. O importante é mostrar-se disponível à criança, garantindo cuidado e amor

por Correio Braziliense 01/04/2014 15:00

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Décadas atrás, a decisão de se tornar mãe envolvia menos questões que hoje em dia. Geralmente, passado o casamento, era hora de se preparar para o nascimento do bebê. Agora, entretanto, a mulher assumiu um papel importante no mercado de trabalho e no orçamento familiar, fazendo com que a chegada de um novo membro da família seja mais bem planejada. A preparação, contudo, não impede que o casal, principalmente a mulher, tenha de responder algumas difíceis perguntas: vale a pena continuar trabalhando? É hora de mudar o curso da carreira? Como se preparar para o retorno ao mercado após a licença-maternidade?

Segundo a psicóloga familiar Diana Soares, é justamente devido à importância da contribuição feminina para a manutenção do ambiente familiar que começam os primeiros dilemas referentes à maternidade. “O primeiro conflito que surge é ter ou não filhos e, se sim, quando tê-los. Muitas vezes, o mercado de trabalho é cruel, e parar um tempo para cuidar dos filhos pode ser determinante para que a mulher não volte ao caminho previamente escolhido”, analisa.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Fernanda parou de trabalhar durante a gestação de Gabriela e agora planeja voltar "de forma leve" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
No caso da artista plástica Fernanda Quintas Nogueira, 24 anos, a chegada de Gabriela aconteceu no início da carreira. “Eu trabalhava há um ano e meio dando aulas em um cursinho pré-vestibular e pré-PAS quando descobri que estava grávida. Avisei logo às coordenadoras da instituição, e, numa conversa, decidimos que, já que não teria direito à licença-maternidade (leia Para saber mais), por ser estagiária, continuaria trabalhando, mas sempre respeitando meu limite”, conta.

No quarto mês de gestação, contudo, impulsionada pela sensação de que aquele seria um momento único, Fernanda sentiu a necessidade de respeitar e se entregar ao processo. “Refleti que o cuidado com meu corpo e mente valeria mais do que a questão financeira, pois minha filha precisaria mesmo é de amor”, lembra.

Hoje, quando já consegue se diferenciar na fusão mãe-bebê, a artista plástica diz que sente vontade de voltar a trabalhar. Porém, ao mesmo tempo, sente-se receosa em deixar a pequena Gabriela, hoje com 10 meses, “sozinha”. “Fico pensando em como ela ficará quando eu estiver longe. Quero retomar minhas atividades de forma leve, tentando trabalhar o máximo possível em casa. A ideia é participar ativamente da vida dela pelo menos neste começo. Por isso, por enquanto, vou contando com a disponibilidade de familiares e com a flexibilidade do local ao qual vou me empregar”, planeja.

Presença
Especialistas estão certos de que a dedicação exclusiva aos filhos não é a única forma de ser boa mãe. De acordo com a psicóloga Natalia Almeida Tostes, mestre em processo de desenvolvimento humano e saúde, o mais importante é encontrar formas de estar disponível, fazendo-se presente na vida da criança. “A gente vê que muitos pais estão com as crianças, mas não estão. Isso gera uma saudade que não acaba. Às vezes você está em casa com ela, mas com a cabeça no trabalho ou em outro lugar. O bebê sente isso. Gera uma sensação de falta tanto no filho como nos pais”, diz a especialista. Segundo ela, há mesmo casos em que o vínculo entre bebê e mãe melhorou após a volta da mãe ao trabalho porque esse retorno permitiu à mulher voltar a exercitar sua individualidade.

A engenheira florestal Simone Carolina Bauch, 33 anos, tinha um relacionamento de seis anos — três de namoro e três de casamento — com Arvind Kidambi quando engravidou. O casal se conheceu durante o doutorado de Simone nos Estados Unidos e, logo depois, mudou-se para a Europa, onde concluiu os estudos. De volta ao Brasil, os dois começaram a considerar ter filhos. “Mas foi só depois de passar uma temporada com minha sobrinha na Índia que resolvemos tentar engravidar. Por sorte, foi logo que voltamos. Ou seja, foi uma gravidez muito planejada e almejada”, lembra.

A engenheira é funcionária de uma organização internacional e, apesar de o momento da gravidez ter coincidido com um período de grande estresse na empresa, a reação à notícia foi muito tranquila. “Tanto que, no oitavo mês de gestação, fui transferida de cargo, mesmo com eles cientes de que eu teria de ficar fora pelos próximos quatro meses.” A chegada de Ravi impôs uma nova rotina a Simone, muito diferente da que estava acostumada. “Eu estava em casa com um bebê que dependia completamente de mim, sem ter muito contato com outras pessoas e sem tempo para fazer mais nada”, recorda.

Quando chegou a hora de voltar a trabalhar, a principal preocupação era com quem cuidaria de Ravi. “Meu marido e eu trabalhávamos o dia todo e, apesar de eu ter um pouco de flexibilidade de horários, o meu trabalho é desses que parecem nunca acabar. Pensamos numa creche, mas logo desistimos, por inúmeras buscas na internet e recomendações de pediatras contraindicando”, conta. A segunda opção era a babá, mas, com histórias “de assustar qualquer mãe de primeira viagem”, a alternativa foi desconsiderada.

Foi então que ela e Arvind chegaram a uma solução que se mostrou perfeita: ele estava insatisfeito no trabalho que dava pouca segurança, mas muito estresse. “Assim, ele reavaliou as opções de vida e decidiu que cuidar do Ravi é mais importante”, explica. Agora, Simone trabalha e Arvind cuida do filho. “Mas, como o Ravi ainda mama a cada hora e meia, ele o traz para o meu trabalho para que eu possa amamentar. Almoçamos juntos e voltamos para casa juntos”, comemora.

Natália Tostes ressalta a importância de manter a proximidade mãe-bebê. “Essa é uma idade que a relação física é muito importante mesmo. Por isso, ter momentos de encontro durante o dia é fundamental. E não só com a mãe, com o pai também. Existem muitas mães que vão em casa na hora do almoço para amamentar, por exemplo.” A especialista acrescenta que a relação da criança com a mãe é muito importante da gestação até o terceiro ano de vida. “O bebê ainda não tem a visão de que é um só. Durante muito tempo, ele se considera uma extensão da mãe, o que faz com que exista um laço muito forte entre os dois”, explica. Já nessa fase, contudo, é importante que o bebê tenha outras pessoas disponíveis para ele, o que ajudará muito no seu desenvolvimento.

Sem receita
Não existe receita pronta para lidar com esse momento. Cabe a cada família avaliar suas prioridades e decidir o que fazer, estando atento, obviamente, à necessidade de cuidado adequado dos pequenos. A blogueira Luíza Diener, 28 anos, desejava tanto ter filhos que, antes mesmo de engravidar, criou um site sobre o assunto, o potencialgestante.com.br. “Ser mãe sempre foi um grande sonho, e, ao entrar em contato com blogs que falavam sobre gestação e maternidade, decidi criar o meu, mesmo que ainda não tivesse filhos”, conta. Nove meses depois do colocar a página no ar, ela engravidou de Benjamin, hoje com 3 anos e meio. “Conciliar o blog com o nascimento do primogênito foi relativamente tranquilo e especialmente inspirador.

A experiência de cuidar de Benjamin tornou a segunda gravidez mais tranquila, mas a chegada de Constança, 8 meses, deixou ainda menos tempo para se dedicar ao site. “A gestação passou num piscar de olhos e, após o nascimento dela, minha atenção ficou totalmente voltada para os dois. O blog com certeza passou a ocupar o segundo ou o terceiro plano”, afirma.

Quando esperava o primeiro filho, Luíza trabalhou no espaço virtual até o penúltimo dia de gestação e voltou a postar logo que o bebê nasceu. “Já nessa segunda gravidez, coloquei uma nota no blog e no e-mail avisando que estava de licença maternidade. Claro que não dava para simplesmente ignorar os contatos de propostas comerciais e também os leitores, mas posso dizer que diminuí o ritmo drasticamente”, conta.



Direito adquirido
A licença-maternidade é resultado do reconhecimento da importância do papel desempenhado pela mulher na sociedade e na família. Ela surgiu pela primeira vez no Brasil em 1943, mas, à época, garantia o afastamento da gestante do trabalho por um período menor do que o atual. Com a Constituição Federal de 1988, passou a ser um direito social a ser usufruído pela mulher durante 120 dias, período em que a mãe se mantém afastada do trabalho com direito ao recebimento do salário. A ideia é assegurar o bem-estar da criança que, após o parto, requer cuidados especiais, além de garantir as condições favoráveis para a recuperação da mãe.

De acordo com a professora assistente de direito civil e práticas jurídicas da Universidade de Brasília (UnB) Suzana Borges Viegas, os direitos da mãe estão garantidos enquanto ela estiver de licença. “A mulher que se afasta do trabalho em gozo de licença-maternidade não pode sofrer nenhum prejuízo, sendo-lhe garantido o retorno para ocupar a mesma função e com direito às mesmas condições usufruídas anteriormente”, explica.

Em 2008, foi aprovado o Programa Empresa Cidadã, que permite ampliar para até seis meses a licença-maternidade das trabalhadoras do setor privado. Antes, essa extensão só existia para servidoras públicas. A lei é facultativa. A mulher que quiser ampliar sua licença-maternidade tem até 30 dias depois do nascimento da criança para comunicar à empresa. Porém, o benefício só será concedido se a empresa estiver cadastrada no programa.

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