Sensação de insegurança leva adultos, idosos e crianças a desenvolver técnicas de defesa pessoal

Conheça as principais modalidades de artes marciais e seus benefícios

por Paula Takahashi 23/03/2014 08:02

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Jair Amaral/EM/DA Press
(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Ao andar pelas ruas, a cabeça está sempre erguida. O olhar atento avalia as pessoas que circulam de um lado para o outro e não deixa passar despercebidas as cenas mais corriqueiras. A postura e a expressão confiantes se refletem na firmeza dos passos. Assim que entra em um ambiente fechado, uma sondagem rápida já identifica as saídas de emergência e o comportamento dos grupos reunidos, ponderando quais situações de risco estão presentes em cada um dos contextos.

Atitudes como essas se tornam naturais e passam a fazer parte, praticamente de forma intuitiva, da conduta de praticantes de atividades que exploram técnicas de defesa pessoal. Motivados pela crescente sensação de insegurança, mulheres, homens, idosos e crianças de todas as idades buscam nas artes marciais tradicionais como aikido, hapkido, entre tantas outras, e nas artes de defesa pessoal como krav magá e kombato, habilidades que permitam garantir, em casos extremos, a integridade física e patrimonial, mesmo que para isso seja preciso usar a própria força.

A mudança de percepção do entorno e o desenvolvimento de uma atenção mais aguçada são os primeiros impactos dos conhecimentos conquistados no tatame. Muito antes de dominar a técnica, os alunos já conseguem colocar em prática os ensinamentos dos mestres que primam pela prevenção de atitudes de risco. Os benefícios, no entanto, extrapolam as habilidades físicas conquistadas com a repetição incessante dos movimentos.

“Os reflexos podem ser sentidos no dia a dia. Dali é possível tirar modelos de como lidar com determinadas situações em outras esferas da vida. Existe uma transposição de valores para o cotidiano que se faz dentro de um contexto de valores e formação”, observa Cristiano Barreira, professor da escola de educação física e esporte da USP de Ribeirão Preto e membro da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp). Claro que é um processo que depende do empenho do aluno e do estímulo dos próprios mestres, mas não há quem ignore as transformações comportamentais sofridas.

“Tenho mais paciência, sou mais tranquilo. A convivência com o sensei nos ajuda a ser mais educados com o próximo”, reconhece o estudante Alessandro Russo, de 22 anos, há nove meses no aikido. A disciplina e o autocontrole são claros na avaliação do tecnólogo em redes de computadores Leandro Ancântara Batistoni, de 32, faixa preta no kombato. Até os mais envergonhados e tímidos sentem os efeitos positivos, como é o caso do estudante de engenharia civil Bruno Zanandreiz de Siqueira Mattos, de 24, praticante de krav magá. Sem contar a melhoria do condicionamento físico, da atividade cardiorrespiratória e da elasticidade. Atividades completas que garantem ganhos para o corpo e a mente.

Muito além da defesa pessoal
Em comum, tanto as artes marciais como as artes de defesa pessoal primam pela prevenção de situações de risco. “A conduta de autopreservação está associada à conduta preventiva. Embora a arte marcial seja ensinada prioritariamente do ponto de vista técnico, ela não se resume a isso”, afirma Cristiano Barreira, membro da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp) e autor do livro O sentido do Karate-Do – faces históricas, psicológicas e fenomenológicas.

As orientações envolvem atenção difusa às pessoas e situações ao redor até a forma como utiliza o celular em vias públicas. “A maneira como a pessoa se posiciona na rua, o fato de colocar objetos debaixo do banco do carro e várias outras atitudes que evitem situações que podem ser de ameaça fazem parte das noções de defesa pessoal”, observa Cristiano. A imagem transmitida para o agressor também é trabalhada. “Se ele é visto como frágil, dá mais segurança para que o agressor aja. Se a pessoa se sente mais segura, tem postura mais assertiva durante um ataque, isso também é um fator que pode inibir ações de risco”, avalia o especialista.

A confiança é consequência natural do aprimoramento das técnicas, mas o excesso dela pode incorrer num grande erro. “Quem se sente excessivamente confiante deixa de assumir uma posição defensiva. Os mais conscientes permanecem com sentimento de vulnerabilidade, mas sabem que numa situação complicada têm mais condições de lidar com o perigo do que aqueles que não praticam”, observa Cristiano.

O domínio das técnicas inclui até mesmo a opção de fuga, que não deixa de ser uma alternativa de defesa. “Não reagir também é uma forma de reação. É fundamental trabalhar o controle emocional até para que a pessoa possa entregar a carteira e o carro”, observa o professor de krav magá, Beny Schickler.

A forma como cada um irá reagir é sempre uma incógnita. “Naqueles segundos decisivos, a pessoa que tem uma formação tem mais habilidade para definir a atitude a ser tomada”, avalia Bia Bicalho, coordenadora das atividades coletivas da Bodytech Savassi e professora do curso de educação física da Estácio.

O desenvolvimento de uma capacidade de avaliação da situação, as possibilidades de fuga e até as vulnerabilidades do agressor se tornam quase naturais. “Há uma possibilidade maior de antecipar como as coisas vão se desdobrar. Essa capacidade de antecipação se torna intuitiva e faz com que a pessoa tenha mais controle emocional na hora H e não se deixe invadir pelo desespero”, reconhece Cristiano.

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