Criticados pelo excesso de confiança, narcisistas têm potencial para se tornarem grandes líderes

Especialistas alertam, porém, que a segurança exagerada pode culminar em arrogância. Conheça os tipos de narcisismo

por Correio Braziliense 20/03/2014 16:00

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Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press
Isabela não tem medo de encarar novos desafios e respeita as características dos colegas: "Precisamos aceitar nossos papeis e seguir em frente" (foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
Isabela Resende, 20 anos, é produtora na agência Pupila Audiovisual. O trabalho exige posição recorrente de liderança, que ela assume com facilidade. A confiança vem de um diferencial: a falta de medo de errar. Essa característica a faz aceitar riscos e, de acordo com a jovem, quanto mais eles surgem, mais ela se destaca. “Precisamos aceitar nossos papeis e seguir em frente.” A autodeterminação inclui também entender como cada um contribui para que o trabalho flua. Há quem só funcione com tarefas e prazos pontuais. Outros precisam ser pressionados ou até elogiados. “Se sou boa em alguma coisa, me aperfeiçoo. É importante porque, caso contrário, a pessoa fica estagnada”, justifica.

Confiante das próprias qualidades e não adepta do perigoso hábito de desmerecer os outros, Isabela encaixa-se nas características dos narcisistas moderados. Eles não têm nada de egoístas e antipáticos, dizem estudiosos. Pelo contrário. Um estudo publicado no jornal Personnel Psychology demostra que, por serem extrovertidas, essas pessoas têm maior inclinação à liderança, conseguem motivar os outros com facilidade.

“Eles atingem um bom balanço entre ter níveis suficientes de autoconfiança sem manifestar os aspectos negativos do narcisismo, que fazem com que a pessoa ponha outros para baixo a fim de se sentir bem com ela mesma”, explica Peter Harmas, coautor do estudo e professor na Universidade de Nebraska. Segundo ele, no começo do estudo. Todos os narcisistas se destacavam como líderes, mas aqueles que apresentaram traços mais exacerbados acabaram demonstrando falta de empatia exagerada, de maneira a gerar mal-estar no grupo.

Líder do estudo, Emily Grijalva, professora na Universidade de Illinois, acredita que a descoberta pode ser explorada como por profissionais de recursos humanos e empresários. Segundo ela, é possível identificar e valorizar a característica em futuros testes de personalidade para um cargo de liderança ou de desenvolvimento, por exemplo. “É muito difícil fingir nível moderado de narcisismo. Isso torna o teste mais confiável”, explica.

A psicóloga Roberta Paiva, especialista em psicoterapia cognitivo comportamental e psicopedagogia, conta que todos os indivíduos nascem com algum nível de narcisismo. A característica pode ser “apagada”, exacerbada ou mantido em um nível benéfico ao longo da vida. Essa alterações são detalhadas pelo pesquisador Patrick Hill no jornal Social Psychological and Personality Science. De acordo com o estudo conduzido por ele, atitudes narcisistas tendem a crescer durante a adolescência e têm o auge por volta dos 20 anos, quando começam a declinar.

A assessora jurídica Valdênia Ribeiro, 32 anos, não deixou que a queda tornasse essa característica imperceptível. Ela reconhece que, com o tempo, ficou mais tolerante, passou a aceitar que nem tudo precisava ser do jeito que quer e tem controlado a impulsividade. “O que eu mais gosto em mim é o bom humor. Ainda assim, a confiança também é essencial porque ajuda nos trabalhos quando precisamos achar soluções criativas”, conta

Essas características somadas à aversão à monotonia fazem de Valdênia uma autêntica narcisista moderada. “Comporto-me de maneira a não haver chatice no dia a dia. As pessoas gostam da minha honestidade e do meu astral, tento levar tudo de maneira muito leve”, diz. Mãe de dois filhos, a assessora jurídica também faz trabalho voluntário há anos, como chefe escoteira de crianças. Dentro de casa e com as tropas, ela gosta de propor atividades educativas e interessantes, mas que sejam divertidas e diferentes para não chatear os mais novos. “Eles se sentem mais seguros, passo tranquilidade porque sabem que podem seguir o que falo e faço”, acredita.

 Carlos Moura/CB/D.A Press
Mônica repassou a importância de se sentir segura aos filhos: "(eles) são elogiados aonde quer que cheguem" (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Exagero

Emily Grijalva, líder do estudo, alerta que é importante ficar atento ao nível de narcisismo. No âmbito profissional, o exagero faz com que a pessoa até se destaque no início, mas que, com o tempo, comecem a chamar a atenção aspectos negativos da personalidade, como o excesso de arrogância. Um sinal de que a confiança pode estar atrapalhando é a reação ao sucesso do outro.

Segundo constatação de uma pesquisa feita pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, a inveja é um dos fatores que determina o grau de narcisismo. Os moderados estão bem com o que são e não tendem a sentir inveja dos outros. Já os vulneráveis, que se sentem mais especiais, se frustram quando percebem que não podem fazer alguma coisa ou que alguém é capaz de fazer melhor que eles.

Quando patológico, o comportamento é chamado de transtorno de personalidade narcísica (veja quadro), caracterizada, entre outros fatores, por sensação de sucesso ilimitado, comportamentos e atitudes arrogantes e insolentes, espera por conformidade automática das crenças e desejo de admiração desproporcional, mesmo na realização de pequenas coisas. É muito difícil pessoas narcisistas recorrerem à psicoterapia porque acreditam serem boas demais para isso. “Caso venham procurar um terapeuta, é por conta de uma depressão cuja causa não identifica”, constata Roberta Paiva.

Sinal de alerta: Confira os três tipos de narcisistas considerados pelos especialistas como patológicos

» Grandioso ou maligno
É aquele marcado pela arrogância, pelo desprezo pelos outros. Adota uma crença de que só deve se associar a pessoas especiais, como ele

» Frágil
Apresenta as características típicas associadas à doença, o hipocondríaco, mas também tende a ser desanimado e deprimido.

» De alto funcionamento ou exibicionista
Sente-se articulado e à vontade em situações sociais, mas ainda exibe a autoestima inflada

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Melhor na juventude
Um estudo desenvolvido na universidade de Illinois, nos Estados Unidos, indica que o narcisismo faz bem às pessoas que estão na faixa dos 20 anos. Depois de aplicar questionário a 368 estudantes, os cientistas concluíram que aqueles que apresentavam duas características típicas dos narcisistas — senso de autoridade e liderança exacerbado (acreditar que sabe muito e ser procurado para dar conselhos) e exibicionismo (vontade exacerbada de mostrar os supostos talentos) — demonstraram ter maior satisfação com a vida. Por outro lado, os adolescentes que apresentaram respostas que se encaixaram em um perfil de narcisista indicado pelos pesquisadores como possuidor — quando a pessoa explora o outro para obter benefícios individuais —, demonstraram níveis baixos de felicidade.

Também em casa
Não apenas no trabalho a liderança vinda do narcisismo conta pontos. Às vezes, existe a necessidade de assumir o controle na vida pessoal, com amigos e família. Gerir essas relações não é simples, exige dedicação e trata diretamente do bem-estar de todos os envolvidos.

A chefe de divisão no Ministério da Defesa Mônica Barbosa, 46 anos, considera-se uma pessoa vitoriosa em todos os aspectos. Com 27 anos de casada e dois filhos, ela se sente realizada profissional e pessoalmente. As características que atribui a si são segurança, determinação, disciplina e foco. Com esses ingredientes, conduz bem a vida pessoal, o que reflete no dia a dia também dos filhos e do marido.

“Meus filhos são elogiados aonde quer que cheguem por todos que têm o privilégio de desfrutar da amizade e da companhia deles”, orgulha-se a mãe, enquanto conta que passa a confiança para eles desde o nascimento. Mônica reconhece que as suas atitudes positivas podem incomodar algumas pessoas. “Lamento a negatividade delas, já que o fato de eu ser comunicativa em ajuda a conquistar amizades”, diz.

Origem mitológica
A palavra narcisismo é derivada da mitologia grega. Narciso, um jovem e belo rapaz que despertava a cobiça das ninfas. Preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecer o amor dele. Ao rejeitar a ninfa Eco, foi amaldiçoado. Como punição, apaixonou-se incontrolavelmente pela própria imagem refletida na água. Incapaz de levar a termos a paixão, morreu afogado.

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