Pesticidas provocam pandemia de autismo, diz especialista em saúde infantil

Estudo de um dos maiores especialistas do mundo e de outros cientistas comprovam a relação entre a exposição de grávidas a essas substâncias e falhas no desenvolvimento cerebral de fetos

por Paloma Oliveto 14/03/2014 08:18

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REUTERS/Ueslei Marcelino
No último dia 12, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) realizaram um protesto em Brasília que incluiu duras críticas ao uso de pesticidas no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), 0 Brasil é o maior consumidor de pesticidas agrícolas do mundo e aumenta a utilização em uma velocidade duas vezes superior à dos demais países (foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
Uma pandemia silenciosa. É como um dos maiores especialistas internacionais em saúde da criança define os casos de transtornos do neurodesenvolvimento, problemas que afetam de 10% a 15% dos nascimentos. Pediatra e diretor do Centro de Saúde Ambiental Infantil da Faculdade de Medicina Mount Sinai, em Nova York (EUA), Phillip Landrigan acredita ter identificado os maiores vilões do cérebro em formação. Em um estudo publicado na revista Lancet Neurology, o médico defende que produtos químicos, em especial os pesticidas, estão diretamente relacionados a distúrbios como autismo, deficit cognitivo, hiperatividade e dislexia.

O novo artigo é a revisão de uma pesquisa conduzida por Landrigan em 2006, na qual o pediatra juntou dados epidemiológicos do mundo todo, além de analisar resultados de testes clínicos realizados com substâncias tóxicas. Na época, foram identificados cinco resíduos industriais — chumbo, metilmercúrio, arsênico, bisfenol policlorado e tolueno —, além de 201 produtos químicos que causaram danos ao sistema nervoso de adultos expostos a eles no ambiente de trabalho, em acidentes ou devido a envenenamento intencional. “Desde então, novos dados surgiram sobre a vulnerabilidade do cérebro em desenvolvimento, além de evidências a respeito da neurotoxidade dos produtos químicos”, alerta.

Mount Sinai / Divulgação
"Necessitamos urgentemente de uma estratégia de prevenção global. Produtos químicos em uso precisam ser testados novamente, levando em consideração os efeitos sobre o cérebro do feto. Aqueles que jamais foram testados devem ser tachados de inseguro" - Phillip Landrigan, diretor do Centro de Saúde Ambiental Infantil da Faculdade de Medicina Mount Sinai (foto: Mount Sinai / Divulgação)
Coautor do estudo, Philippe Grandjean, professor de saúde ambiental da Faculdade de Medicina de Harvard, diz que o cérebro do feto não é protegido contra substâncias químicas em geral. “A placenta é incapaz de bloquear a passagem de uma boa quantidade de tóxicos ambientais aos quais a mãe está exposta. Mais de 200 agentes químicos estranhos ao organismo já foram detectados no sangue do cordão umbilical, sem contar que o leite materno também é uma fonte de transmissão desses agentes”, revela. Estudos in vitro, conta o médico, sugerem que as células-tronco neurais, que vão dar origem aos neurônios e a outras estruturas do órgão, são extremamente sensíveis a essas substâncias, especialmente ao metilmercúrio. “Em suma, químicos industriais conhecidos ou suspeitos de serem neurotóxicos para adultos também são riscos em potencial para o embrião”, diz.

Landrigan e de Grandjean destacam que dados de sete estudos internacionais a respeito da influência de substâncias químicas sobre o baixo desempenho em testes de QI (quociente de inteligência) indicam que não há nível seguro de exposição a algumas delas. Além disso, outras pesquisas de longa duração mostram que os atrasos no desenvolvimento associados ao efeito do chumbo sobre a formação do cérebro podem ser irreversíveis. Exposição pré-natal ou no início do nascimento ao arsênico inorgânico detectado na água foi associada a deficits cognitivos na idade escolar em outro estudo avaliado pela dupla. Os médicos também citam o caso do leite Morinaga — em 1955, crianças japonesas foram envenenadas por arsênico presente acidentalmente em lotes da bebida. Na vida adulta, elas apresentaram índices altos de doenças neurológicas.

Aumento de 600%
Segundo Phillip Landrigan, uma das grandes preocupações para os países com intensa atividade agrícola são os pesticidas usados na lavoura. “Em particular, os compostos DDT, DDE e Kepone tendem a ser persistentes e se manterem espalhados no ambiente e no corpo das pessoas. Os muito tóxicos foram banidos dos países ricos, mas em muitas nações pobres ou em desenvolvimento, eles ainda são usados”, lembra. Os estudos investigados pelo pediatra mostram uma forte associação entre a exposição materna aos pesticidas e o aumento no risco de desenvolvimento de autismo.

Anderson Araujo / CB / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre os perigoso dos pesticidas (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
Essa relação foi identificada por Janie Shelton, pesquisadora de saúde pública da Universidade da Califórnia, estado americano que viu aumentar 600% a incidência do autismo nos últimos 20 anos. A pesquisadora esclarece que apenas 30% desse crescimento podem ser atribuídos à melhoria do diagnóstico. De acordo com ela, uma pesquisa feita no Vale Central da Califórnia, região com maior produção agrícola do estado, indicou que mulheres que viviam a menos de 500 metros de distância de plantações em que se usava o pesticida organoclorado tinham 7,6 mais riscos de darem à luz a bebês com o distúrbio.

A intoxicação, segundo a especialista, se dá entre o 26º e o 81º dia de gestação, fase na qual o tubo neural do feto está se fechando. Essa estrutura, mais tarde, dá origem ao cérebro e à medula espinhal. “Embora esses estudos não possam ser considerados conclusivos no sentido de estabelecerem a associação definitiva entre autismo e produtos químicos, eles levantam importantes questões relacionadas aos efeitos na saúde de um feto ainda em formação”, acredita Janie. Para Phillip Landrigan, o potencial negativo das substâncias químicas sobre o neurodesenvolvimento precisa ser encarado como problema de saúde pública mundial e discutidos internacionalmente. “Necessitamos urgentemente de uma estratégia de prevenção global. Produtos químicos em uso precisam ser testados novamente, levando em consideração os efeitos sobre o cérebro do feto. Aqueles que jamais foram testados devem ser tachados de inseguros”, defende.

Produtos causam defeitos genitais Uma análise de 100 milhões de prontuários médicos em condados americanos revelou que autismo e deficits intelectuais estão correlacionados com a incidência de malformação genital em recém-nascidos. Defeitos congênitos nos órgãos sexuais masculinos são um indicativo de exposição a fatores ambientais de risco, como pesticidas, segundo os autores do estudo, publicado na revista Plos computational biology.

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Segundo Phillip Landrigan, uma das grandes preocupações para os países com intensa atividade agrícola são os pesticidas usados na lavoura - em particular, os compostos DDT, DDE e Kepone tendem a ser persistentes e se manterem espalhados no ambiente e no corpo das pessoas. Os muito tóxicos foram banidos dos países ricos, mas em muitas nações pobres ou em desenvolvimento, eles ainda são usados (foto: REUTERS)
Depois de ajustar gênero, etnia, fatores socioeconômicos e geopolíticos, os pesquisadores da Universidade de Chicago (EUA) observaram que as taxas de autismo pulavam para 283% para cada ponto percentual de aumento na frequência de malformação em um condado. Os deficits intelectuais aumentavam 93%. “O autismo é um problema fortemente relacionado à malformação congênita dos genitais masculinos”, diz Andrey Rzhetsky, professor de medicina genética da universidade. Ele afirma que, embora o distúrbio tenha componentes genéticos, não se pode descartar as causas ambientais.

Não se sabe bem o motivo, mas fetos do sexo masculino são particularmente sensíveis às toxinas de pesticidas e de outros produtos químicos. Acredita-se que a exposição dos pais a essas substâncias esteja por trás de problemas como micropênis, hipospadia (localização errada da uretra), deformidade nos testículos e outros.

Em quase todas as regiões analisadas pela equipe de Rzhetsky, onde havia taxas altas de autismo, a incidência dessas malformações também estava acima da média. “Interpretamos esse resultado como um forte sinal ambiental”, destaca o pesquisador. Ele ressalta que o fenômeno não foi observado em relação a bebês do sexo feminino. A análise ainda indicou que a correlação de autismo e vacinas é muito baixa. Alguns especialistas defendem que a imunização de bebês pode desencadear o transtorno, mas os prontuários não mostram essa associação. (PO)

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