Gel do dia seguinte pode ajudar a combater o HIV

Cientistas dos Estados Unidos criam substância que poderá ser usada até três horas após a exposição ao vírus da Aids. Teste com macacos apresentou 83% de eficácia

por Bruna Sensêve 13/03/2014 10:00

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Géis vaginais contendo medicamentos que combatem a infecção pelo HIV são estudados há alguns anos, mas a linha de pesquisa perdeu forças especialmente pela baixa adesão das mulheres que testaram a estratégia. O principal motivo é que precisam ser aplicados cerca de 30 minutos antes da relação sexual, o que, segundo elas, pode atrapalhar o sexo. Resultados encontrados por pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta, nos Estados Unidos, devem dar novo impulso a trabalhos nessa linha. De acordo com artigo publicado nesta quinta-feira (13) na revista científica Science Translational Medicine, cinco de seis macacas não foram infectadas pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV), correspondente do HIV para os primatas não humanos, usando uma espécie de gel do dia seguinte, aplicado três horas após a exposição ao micro-organismo.

A grande diferença está no tipo de antirretroviral empregado. O HIV tem um ciclo próprio para infecção do organismo e entra na célula utilizando alguns mecanismos. O medicamento utilizado nos géis microbicidas que devem ser aplicados antes da relação atua no início do ciclo. Já as drogas testadas no novo produto agem no final, no momento em que o material genético do vírus se integra à célula do hospedeiro humano. Essas drogas pertencem à classe dos inibidores de integrase. Há três usados no tratamento contra o HIV em pessoas infectadas. Um deles é o raltegravir — presente no gel testado nas cobaias.

Anderson Araujo / CB / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre o gel do dia seguinte (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
A hipótese dos pesquisadores é de que, como esses antirretrovirais agem em uma fase mais tardia do ciclo viral, eles seriam melhores para prevenir contra a infecção nas primeiras horas após a exposição ao vírus. A pesquisadora Valdileia Veloso, do Laboratório de Aids do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, explica que o método se insere em um conjunto de estratégias para prevenir a aquisição e a infecção do HIV. Entre elas, a profilaxia pré-exposição e a profilaxia pós-exposição. No primeiro caso, uma pessoa que tem risco alto de adquirir o vírus por estar em situação de exposição, como profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis, podem se prevenir tomando antecipadamente antirretrovirais, diminuindo o risco de infecção.

Já a profilaxia pós-exposição é indicada para o indivíduo que não tomou remédios, não usou preservativo e se expôs ao HIV. A técnica é voltada principalmente aos agentes de saúde que foram expostos ao vírus de forma acidental, mas também atende casos de falha nas medidas de prevenção após relações sexuais. Nesse caso, doses do coquetel usado para combater a infecção em pessoas já diagnosticadas precisam ser ministradas até 72 horas após a exposição e por cerca de 28 dias. Dessa forma, o vírus é combatido no instante em que entra na corrente sanguínea do indivíduo, impedindo que ele se instale definitivamente. Esse é o mesmo princípio usado pelo novo gel norte-americano, segundo Veloso.

Menos tóxico
Ela lembra, porém, que toda a droga ingerida tem implicações com relação à toxicidade e que a busca dos cientistas é justamente por esquemas de profilaxia mais curtos e com menos efeitos colaterais. Os inibidores de integrase são drogas com um perfil de segurança e tolerância melhores. “Nesse experimento, eles usam o gel vaginal buscando justamente alcançar proteção com uma quantidade menor de antirretrovirais, o que significa, além de uma questão de custo, uma exposição menor a medicamentos, minimizando a toxicidade”, avalia. Outra preocupação comum com métodos pós-exposição é se o vírus adquirido fica mais resistente em casos de falha. Nenhum desses fatores foram verificados no teste em Atlanta.

Um fato curioso observado por Veloso é a escolha das cobaias, primatas do sexo feminino que têm um ciclo reprodutivo e hormonal muito parecido com o humano. Segundo ela, a absorção do medicamento varia durante o ciclo menstrual da mulher. “As alterações hormonais trazem mudanças para a mucosa vaginal até mesmo em espessura, o que altera a absorção do medicamento. Nesse modelo, eles consideraram isso.” Os pesquisadores mediram a concentração de medicamento absorvido em diferentes etapas do ciclo menstrual e comprovaram a variação — o que já havia sido verificado com outros medicamentos que atuam no início do ciclo do HIV, incluindo os inibidores de integrase. “É um fator que tem que ser considerado para ver se a concentração durante todo o ciclo confere proteção ou não. Elas vão ter relações em diferentes momentos do ciclo e é preciso garantir que (o procedimento) seja efetivo durante todo o período.”

Na opinião do infectologista Artur Timerman, do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, em São Paulo, a estratégia não deverá substituir nenhum outro tipo de método profilático. O método estaria voltado para circunstâncias mais específicas, em que a mulher teve uma relação desprotegida, sem camisinha ou outro tipo de proteção contra o vírus. “Ter a possibilidade de usar um gel que funciona de três a seis horas após o contato seria um avanço muito importante e muito bem-vindo. É o aspecto que considero mais relevante desse estudo.”

Timerman reforça que o surgimento de novas medidas profiláticas não quer dizer que elas substituirão as estratégias usadas, mas que os esforços devem se somar. Outro aspecto que ele acrescenta é a circuncisão masculina, que também seria capaz de reduzir as chances de transmissão em 60%. “Esses métodos podem ser implementados, mas nenhum deles substitui a prevenção.”

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