Pesquisa diz que as pessoas mantêm o mesmo número de amigos ao longo da vida, entenda

Estudo feito na Inglaterra aponta que pessoas tendem a manter o mesmo número de amigos próximos em diferentes fases da vida. Assim, quando um novo relacionamento íntimo se forma, outro, mais antigo, perde a intensidade

por Flávia Franco 05/03/2014 15:00

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CB / DA Press
De acordo com a análise, as pessoas tendem a operar, inconscientemente, de acordo com uma política de 'um dentro, um fora' (foto: CB / DA Press)
Manter contato com um grande número de conhecidos se tornou mais fácil com as novas tecnologias e as redes sociais da internet. No entanto, o ser humano não consegue ampliar seu círculo íntimo de relacionamentos, nem com a ajuda dessas novas formas de interação, indica estudo realizado na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Após analisar o comportamento de jovens britânicos, os autores da pesquisa concluíram que a maioria dos esforços para se comunicar ainda são dirigidos a um pequeno número de amigos e familiares, que praticamente não muda de tamanho, não importa quantos contatos estejam listados no Facebook ou no WhatsApp.

De acordo com a análise, as pessoas tendem a operar, inconscientemente, de acordo com uma política de “um dentro, um fora”, mantendo inalterados os padrões de comunicação. Em outras palavras, ao adicionar pessoas ao círculo mais próximo, um indivíduo, sem perceber, acaba colocando de lado antigos amigos e familiares. “Embora a comunicação social esteja mais fácil do que nunca, parece que a nossa capacidade de manter relacionamentos emocionalmente próximos é limitada. O número varia de pessoa para pessoa, mas, em todos os casos, os indivíduos são capazes de manter relações estreitas com apenas um pequeno grupo. Então, novas amizades vêm à custa de relegar amigos antigos”, explica Felix Reed-Tsochas, cientista da Universidade de Oxford e coautor do estudo.

Para chegar a essa conclusão, o time de especialistas — que inclui ainda pesquisadores da Universidade de Chester, no Reino Unido, e da Universidade de Aalto, na Finlândia — entrevistou 24 estudantes ingleses e comparou as respostas com os registros de chamadas telefônicas dos celulares deles por um período de cerca de 18 meses. O período de observação coincidia com o momento em que os voluntários realizavam a transição entre a escola e a universidade ou entre o ensino superior e o mercado de trabalho. “Estávamos interessados em fatores que moldam o padrão de relações sociais que uma pessoa possui e também em como esses laços podem mudar ao longo do tempo. A ideia era estudar os relacionamentos em um momento de mudanças”, conta Reed-Tsochas.

No início do estudo, os pesquisadores classificaram os conhecidos de cada participante, incluindo amigos e familiares, de acordo com a proximidade emocional. Em todos os casos, um pequeno número de contatos mais próximos recebia uma grande parte das chamadas telefônicas feitas pelos voluntários. “As pessoas têm um número relativamente pequeno de amigos próximos ou parentes, um número maior de amigos menos próximos, e um número muito maior de conhecidos, mas essas quantidades variam entre os participantes”, explica o pesquisador.

Padrão
Com a entrada no mercado de trabalho ou na universidade, novas pessoas se aproximaram dos estudantes, mas o número daqueles que recebiam a maior parte das ligações não cresceu. Ou seja, alguns amigos antigos passaram a merecer menos chamadas, como se caíssem no “ranking de importância”. Para Reed-Tsochas, esse dado sugere que a entrada de uma pessoa na vida de outra exige uma compensação: o enfraquecimento da relação com um amigo íntimo pré-existente. E isso não é feito de forma pensada.

Antonio Carlos Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), concorda que esses padrões comportamentais surgem sem a pessoa perceber. “Através da história dela, a pessoa incorpora padrões. Para quem está de fora, parece que aquele indivíduo tem sempre um padrão, mas ele não faz isso a partir de um critério consciente. Ela aprendeu com modelos importantes para ela e incorporou essas atitudes. É um hábito adquirido”, explica. “Algumas coisas se tornam inconscientes como forma de economia de energia. Você não vai ficar pensando o tempo todo o que você vai fazer. Existem determinados padrões de conduta. Você seleciona a partir de experiências. A questão do número é típica, é a representação do quanto você dá conta”, acrescenta o psicólogo.

Pereira, que não participou do estudo, explica o que determina o total de relacionamentos: “Cada pessoa tem o seu limite, não existe um número igual para todos. Depende de cada um. Ter amigos significa compreender, colocar-se no ponto de vista do outro, relevar-se em determinadas circunstâncias. Significa dedicação”, lembra.

Esforço
Para a psicóloga de análise de comportamento Mariana Antony, algumas ressalvas podem ser feitas em relação ao estudo, publicado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas). “A pesquisa analisou as ligações telefônicas, mas esse contato não significa que o relacionamento seja relevante. A quantidade de ligações não reflete necessariamente uma aproximação emocional. É o caso de você ter uma pessoa que conversa na faculdade, mas, quando muda para um ambiente de trabalho, passa a conversar com o colega de trabalho. Do mesmo jeito, você pode ficar um grande tempo sem falar com um amigo e retomar o contato sem que nada tenha mudado”, aponta.

Além disso, a psicóloga ressalta outras limitações relacionadas à metodologia da pesquisa. “O celular ajuda as pessoas a manterem contato. Mas não é uma comunicação muito efetiva. O estudo deveria ter verificado a qualidade desse contato”, sugere. Na mesma linha, Antonio Pereira questiona até que ponto quantidade de contatos está diretamente relacionada à qualidade do relacionamento. “Há pessoas que você só vê uma vez por ano, mas é um relacionamento tão forte, desenvolvido ao longo do tempo, que ele não se dissolve”, diz.

Para outro pesquisador responsável pelo estudo, o professor de Psicologia Evolutiva da Universidade de Oxford Robin Dunbar, o principal feito do estudo é mostrar que as recentes evoluções na comunicação não foram suficientes para alterar padrões de relacionamento estabelecidos. Argumentando do ponto de vista da biologia evolutiva, Dunbar sugere, ainda, que há uma forte relação entre a evolução do cérebro humano e o tamanho e a estrutura das comunidades sociais com as quais o ser humano consegue lidar cognitivamente. “Provavelmente, isso se deve a uma combinação de pouco tempo disponível para a comunicação e do grande esforço cognitivo e emocional necessário para sustentar relacionamentos íntimos. Parece que os padrões de comunicação individuais são tão estabelecidos que nem mesmo a eficiência fornecida por algumas formas de comunicação digital (nesse caso, os celulares) são suficientes para alterá-los”, diz.

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