Xarope de milho de alta frutose e Bisfenol A, parte 2: o plástico pode ser assassino?

Uso do BPA na fabricação de mamadeiras está proibido no país, mas ele continua fazendo parte de nossas vidas sob outras formas. É realmente perigoso?

por Letícia Orlandi 27/02/2014 08:10

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Banco de Imagens / sxc.hu
Uma vez absorvido pelo organismo, o BPA pode atuar de forma semelhante a hormônios e estimular indevidamente o funcionamento das glândulas (foto: Banco de Imagens / sxc.hu)
Na sequência da reportagem sobre os candidatos a vilões da saúde do século XXI, hoje vamos falar sobre o Bisfenol A (ou BPA), que pode estar presente inclusive nessa garrafinha de água que você mantém sobre a mesa de trabalho. Ontem, para quem ainda não leu, a primeira parte da matéria esclareceu dúvidas sobre o xarope de milho rico em frutose.

Conversamos com o endocrinologista pediátrico Rafael Mantovani para saber quanto há de 'terrorismo' e de realidade nos posts exaustivamente compartilhados sobre esses temas, principalmente por pais e mães preocupados, nas redes sociais.

Plástico que parece brinquedo, mas é assassino?
Assim como o xarope de milho rico em frutose, o Bisfenol-A (BPA), também não está livre de polêmica. Composto usado na fabricação de policarbonato, presente em grande parte dos plásticos rígidos e transparentes, o BPA pode ser encontrado também no revestimento interno de embalagens que acondicionam bebidas e alimentos, como as latas de alumínio para refrigerantes comercializadas no Brasil. O uso do BPA em mamadeiras está proibido no país desde janeiro de 2012, mas ele continua fazendo parte de nossas vidas sob outras formas. E por que ele é perigoso?

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Hábito de guardar comida em embalagens plásticas na geladeira e depois levá-la imediatamente ao aquecimento no micro-ondas pode favorecer a contaminação dos alimentos (foto: Banco de Imagens / sxc.hu)
Rafael Mantovani explica que essa substância é um disruptor endócrino. Isso quer dizer que ele, uma vez absorvido pelo organismo, pode atuar de forma semelhante aos hormônios e estimular indevidamente o funcionamento das glândulas. Em alguns casos pesquisados, ele se assemelha ao estrógeno (hormônio feminino). “O BPA é associado a alguns casos de câncer e também a ocorrências de puberdade precoce, ginecomastia (crescimento anomal de mamas em homens), obesidade, doenças cardíacas e problemas reprodutivos, como a infertilidade masculina”, explica o médico.

Pesquisa da Universidade de Colúmbia (EUA) apontou ainda que o BPA pode ser transmitido ao feto durante a gestação e alterar as funções cerebrais do embrião, motivando inclusive mudanças de comportamento no futuro. Um outro trabalho, desta vez da Universidade Goethe, de Frankfurt, constatou a presença de desreguladores endócrinos na água mineral engarrafada. O estudo incluiu amostras de água acondicionadas em plástico na França, Alemanha e Itália. Das 18 marcas analisadas, 61,1% (ou seja, 11) apresentaram resultados que indicam uma resposta ao estrogênio significativa no ensaio biológico. Ainda segundo os pesquisadores alemães, a mesma água na embalagem de vidro apresentou um terço da atividade estrogênica.

 

Os riscos apontados por milhares de investigações científicas motivaram a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) a criar a campanha “Diga não ao bisfenol A, a vida não tem plano B” e também uma Comissão Nacional de Disruptores Endócrinos.

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BPA em mamadeiras é coisa do passado - a Anvisa proibiu a comercialização em 2012. Mas o elemento está presente no revestimento interno de latas vendidas no pais, por exemplo (foto: Banco de Imagens / sxc.hu)
Além do Bisfenol A, são considerados desreguladores endócrinos os ftalatos (substâncias também utilizadas no processo de fabricação do plástico); os fitoestrógenos, como a soja; além de alguns pesticidas e metais pesados como o arsênio, o cádmio e o mercúrio. A exposição prolongada e a idade em que ocorre o contato com esses elementos interferem nas consequências que eles podem ter para a saúde, daí a importância de se redobrar a atenção com as crianças – no caso delas, até mesmo doses consideradas ‘baixas’ podem provocar alterações.

Mantovani salienta que o principal estímulo para a contaminação do alimento pelo BPA são as mudanças de temperatura, porque o bisfenol é um elemento instável. “Um hábito corriqueiro que é perigoso: utilizar vasilhame de plástico para guardar a comida na geladeira e depois aquecê-la no microondas nesta mesma vasilha”, ensina. O médico explica que hoje existem produtos plásticos no mercado com o selo BPA Free (livre de BPA), que devem ter a preferência na hora da compra.

 

Proibido para uns, liberado para outros

Mas ainda não há uma legislação para banir totalmente a substância. A Comissão Nacional de Disruptores Endócrinos apoia iniciativas para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determine que os produtos constituídos por BPA contenham avisos no rótulo, para que o consumidor possa fazer suas opções de forma mais consciente.

Segundo a Anvisa, no entanto, a resolução RDC n. 41/2011, que proibiu a comercialização de mamadeiras em policarbonato no Brasil, foi estabelecida ‘por precaução’, ‘considerando a maior exposição e susceptibilidade dos indivíduos usuários deste produto’. A Agência informa ainda que, segundo os especialistas, devido à considerável incerteza relacionada com a validade e relevância de observações referentes a baixas doses de BPA, “seria prematuro afirmar que estas avaliações fornecem uma estimativa realista do risco à saúde humana”.

Embora reconheça que os resultados de milhares de estudos devam orientar mais pesquisas, a fim de reduzir as dúvidas, a Anvisa reforça que, para as demais aplicações, o BPA ainda é permitido. A legislação estabelece o limite máximo de migração específica desta substância para o alimento - 0,6 miligramas por quilo, mas as indústrias não são obrigadas a especificar seus índices no produto. O órgão federal utilizou alguns desses argumentos para se posicionar diante de uma ação civil pública apresentada pela Procuradoria da República no Estado de São Paulo, em 2011. O juiz concedeu liminar, mas a Anvisa entrou com agravo de instrumento para suspendê-la.

Reprodução / Internet
Embalagens plásticas marcadas com os números 3 ou 7 têm maior chance de conter BPA (foto: Reprodução / Internet)
Na prática, existem algumas dicas para evitar a contaminação por BPA. As embalagens que contém a substância geralmente são marcadas com o número 3 ou 7 em um selo no fundo do recipiente. Esses números podem indicar também a presença de ftalatos. Veja mais orientações:

Dicas:
- Jamais esquente no microondas bebidas e alimentos acondicionados no plástico. O bisfenol A é liberado em maiores quantidades quando o plástico é aquecido.

-Evitar levar ao freezer alimentos e bebidas acondicionadas no plástico. A liberação do composto também é mais intenso quando há um resfriamento.

-Reduza o consumo de alimentos enlatados.

-Evite pratos, copos e outros utensílios de plástico. Opte pelo vidro, porcelana e aço inoxidável na hora de armazenar bebidas e alimentos.

-Descarte utensílios de plástico lascados ou arranhados. Evite lavá-los com detergentes fortes ou colocá-los na máquina de lavar louças.

Para saber mais sobre os disruptores endócrinos, acesse: www.desreguladoresendocrinos.org.br



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