Crianças obesas: quem se importa?

Ideias consolidadas culturalmente como a de que a 'criança pode comer tudo' ou a de que 'criança gordinha é saudável' emperram a dedicação de famílias na formação de hábitos alimentares saudáveis. Somado a isso, a publicidade dirigida às crianças impulsiona o consumo por alimentos calóricos e pobres nutricionalmente. E em Minas, apesar de existir uma lei que regula a alimentação dentro das escolas, a regra não é seguida principalmente na rede particular

por Valéria Mendes 19/02/2014 08:00

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Valéria Mendes/EM/D.A Press
Endocrinologista pediátrico critica oferta de guloseimas em supermercados, que fica na altura das crianças (foto: Valéria Mendes/EM/D.A Press)
Começamos essa matéria com a repetição de uma estatística que evidencia a preocupação da Organização Mundial Saúde (OMS) quando alerta para uma epidemia de obesidade: uma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos está acima do peso. Por mais que esse número seja repetido à exaustão, pediatras, nutricionistas e endocrinologistas afirmam que a cada dia recebem mais pacientes nessas condições. Pesquisa recente da UFMG reforça o alarde: 39% dos alunos de escolas particulares de BH estão acima do peso (saiba mais). De quem é a culpa? A reposta pode levar a um dos grandes dilemas atuais da sociedade. Sabemos que família e escola são os principais atores para incentivar hábitos alimentares saudáveis. Mas outros fatores influenciam esse consumo e talvez um dos mais perversos seja a publicidade dirigida a meninas e meninos. Com discurso sofisticado, associa alimentos muito calóricos e poucos nutritivos ao universo infantil e dificulta a negativa dos cuidadores. Além de a relação com a comida passar culturalmente pelas demonstrações de afeto e amor, não é fácil – e quem é pai ou mãe sabe muito bem disso –, lutar contra o fluxo consumista que pauta a contemporaneidade.

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Diante desse cenário de urgência, o Saúde Plena aproveita o início do ano escolar e convida seus leitores a refletir sobre os caminhos para solucionar essa questão de saúde pública. Minas Gerais conta com a Lei da Merenda Saudável nº 18.372, de 4 de setembro de 2009. Ainda não conhece? Clique e leia. Em tramitação há mais de oito anos, o Projeto de Lei do Senado nº 406 de 2005, que proíbe alimentos não saudáveis nas escolas de todo país, pode ser votado em 2014 (conheça o projeto). Ele ainda está nas comissões do Senado aguardando nova votação após emendas. Apesar de não ser unanimidade, quem milita nessa área acredita na interferência do Estado para ajudar a impulsionar a solução do problema. “É uma medida que se faz necessária para que haja prevenção. As crianças obesas de hoje serão os adultos obesos de amanhã. O excesso de peso não complica só o coração, como geralmente se pensa, mas todos os órgãos do organismo e até o esqueleto sofre. O lado emocional é o que mais precocemente é impactado”, afirma o presidente do Comitê de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Mineira de Pediatria, Antônio José das Chagas.

Os dados mais recentes da Secretaria de Estado de Educação, referentes a 2012, mostram que 2,2 milhões de alunos estão matriculados na rede estadual; 1,8 milhões na municipal; 34 mil em escolas federais e 730 mil alunos na rede particular. Na rede pública estadual, as cantinas foram extintas, toda a alimentação é fornecida gratuitamente e não há alimento industrializado. Na particular, no entanto, as escolas ainda não conseguem cumprir a lei. A fiscalização é de responsabilidade da Vigilância Sanitária de Belo Horizonte e, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, é realizada continuamente quer seja em inspeções de rotina ou por meio de denúncias dos cidadãos. O telefone é o 156.

Infelizmente, a rede particular ainda coleciona histórias de mães e pais insatisfeitos com a alimentação oferecida dentro das instituições. P. G. é arquiteta, tem 39 anos e não quer ser identificada. Mãe de duas meninas, uma de 4 anos e outra de 2, ambas matriculadas em período integral, conta que, após inúmeras conversas com a direção da escola onde as meninas estudam, teve que optar por enviar o lanche de casa. “Do almoço eu não tenho queixas, mas o lanche é complicado. A escola não tem uma nutricionista, consultam uma profissional ocasionalmente, e o suco nunca é natural”, comenta. Além disso, segundo ela, a instituição oferece ainda biscoitos recheados, embutidos e danoninho (não indicado para crianças menores de 4 anos). De acordo com a Lei nº 18.372/2009, produtos e preparações com altos teores de calorias, gordura saturada, gordura trans, açúcar livre e sal, ou com poucos nutrientes são vedados nas escolas de Minas.

Beto Magalhães/EM/D.A Press
Projeto de lei tramita na Câmara de Vereadores de BH para proibir guloseimas na porta da escola (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
P. G. diz que como a escola não incentiva a troca de lanches, a tática tem funcionado, mas lembra que quando era permitido que a família enviasse guloseimas – chips, chocolate e refrigerante, por exemplo – as filhas ficavam com vontade. A arquiteta se considera representante da “ala radical” de pais e mães, mas observa que essa bandeira não é levantada por grande parte das famílias. Ela acredita que o cuidado com a alimentação é exceção na sociedade e que só passou a valorizar isso quando se tornou vítima dos próprios maus hábitos. “Meu marido é diabético e há quatro anos estou em tratamento contra um câncer. Com certeza, minha história pessoal foi fundamental para melhorar minha alimentação. Levanto essa bandeira porque paguei um preço muito alto para aprender. Tento ensinar para minhas filhas que não quero que elas passem o que eu passei para aprender”, explica.

Idealizadora do Padecendo no Paraíso, a arquiteta Bebel Soares é mãe de Felipe, de 4 anos, matriculado também na rede particular. Ela diz que mesmo sem saber que existia uma lei que regulamentava a alimentação dentro das escolas, sempre lutou por mais qualidade. “Quando chegou o cardápio deste ano levei um susto. Minipizza às 9h para meninos de 2 a 6 anos? Sanduíche com presunto? Lá eles só oferecem leite com chocolate, não tem opção de leite puro”, avalia. Uma das conquistas que a arquiteta liderou à frente do grupo que criou em 2011 foi evitar o fim do atendimento pediátrico no pronto-socorro do Hospital Vila da Serra. Acostumada com esse embate para garantir o direito das crianças, procurou a escola e recusou a opção de um cardápio diferenciado. “Disse à direção que eu iria querer o cardápio padrão e que queria que a mudança fosse feita para todas as crianças. Como resposta, o colégio disse que iria consultar a nutricionista responsável”, conta. Bebel enviou uma cópia da Lei nº 18.372/2009 e a diretoria agendou uma reunião presencial com ela.

Arquivo Pessoal
Carol, de 13 anos, estuda desde os 6 em um colégio particular tradicional de BH. A cantina da escola passou por mudanças, mas chocolate e pizza ainda são comercializados por lá. Mas o pior, para a mãe Renata, é o baleiro que fica na porta da instituição vendendo tudo que é proibido dentro da escola pela lei da Merenda Saudável (foto: Arquivo Pessoal)
A advogada e assessora parlamentar Renata Soares Cardoso é mãe de Carol Soares Cordoni, de 13 anos. Desde os 6, a filha dela está matriculada em um dos colégios mais tradicionais de Belo Horizonte. Ela reconhece as adequações que a direção da escola fez para tentar cumprir a lei, mas ainda reclama da venda de alguns produtos como mini-pizza e chocolate. Como sua filha está numa fase em que, segundo ela, se recusa a levar lanche de casa, ela é categórica em defender a importância do cumprimento integral da regulamentação estadual. No entanto, não são todas as famílias que fazem parte da comunidade escolar em que ela está inserida que pensam como ela. “Já participei de várias reuniões e senti vergonha da opinião de outros pais. Alguns argumentam ‘meu filho tem direito de comer isso’. Como a escola quer agradar os dois lados, acaba investindo pouco num projeto de alimentação saudável”.  Renata diz ainda que o problema ultrapassa os muros do colégio: "Temos que pensar também numa solução para o baleiro que fica na porta da instituição vendendo tudo que é proibido dentro da escola pela lei da Merenda Saudável".

Projeto de lei que tramita na Câmara Municipal de Belo Horizonte tenta proibir a presença de ambulantes para a venda de doces, balas, chicletes e produtos com alto teor de gordura e açúcares para os alunos. A proposta 811/2013 do texto, de autoria do vereador Joel Moreira (PTC), é complementar à lei estadual da Merenda Saudável (clique e conheça a proposta).

Jornalista, educadora ambiental e para o consumo, integrante da Rede Brasileira sobre Infância e Consumo (Rebrinc) e coordenadora do Consciência e Consumo, Desirée Ruas acredita que a escola é um lugar de aprendizado. “Em primeiro lugar é uma questão de respeito a uma legislação que está em vigor e em segundo, que a escola é um espaço onde a própria família também pode aprender, com a experiência vivida pelos filhos com relação à educação alimentar”.

É possível ser feliz com uma alimentação saudável
A nutricionista Cláudia Guimarães trabalha com educação e reeducação alimentar há 18 anos e estava na equipe que redigiu o texto da Lei nº 18372/2009. Para ela, é de fundamental importância o papel da escola na formação de hábito alimentar da criança e do adolescente. “As instituições precisam enxergar a educação de uma forma ampla, que vai além de ensinar a ler e escrever. Falta entendimento de que a alimentação faz parte da educação”. A especialista diz que, principalmente para a criança, “tudo que acontece dentro da escola é referência para meninos e meninas. É a oportunidade que eles têm de criar bons hábitos alimentares. Cada um tem que assumir o seu papel e a escola tem que fazer o seu”.

Do ponto de vista familiar, a nutricionista aponta crenças como a de que ‘criança pode comer tudo’ ou ‘deixa comer o que quiser’ como dificultadores da formação de bons hábitos. “Mas é na infância que vão se desenvolver o paladar para coisas boas e coisas ruins”, alerta. Isso não significa que uma criança não possa ir a uma festa e comer bobagens, ela ressalva, mas esse consumo tem que ser exceção. “O dia a dia tem que ser de alimentação saudável”, reforça.

Arte: Soraia Piva
Família e escolas são atores fundamentais na formação de hábitos alimentares saudáveis. No entanto, a nutricionista Cláudia Guimarães mostra que a influência vem de todos os lados (foto: Arte: Soraia Piva)
DICAS
Cláudia Guimarães explica que uma merendeira saudável deve conter todos os grupos de alimentos: carboidratos, vitaminas e sais minerais e proteína. No primeiro grupo, que é o que vai dar energia, ela aponta os integrais como os mais saudáveis. Entre eles, pão, cookie e granola. As frutas estão no segundo grupo e a dica é enviar para a escola as que não precisam ou que são fáceis de descascar como banana, maçã e uva. Mesmo a laranja, a especialista dá uma solução: “descasque em casa, parta ao meio e enrole a fruta em um plástico filme”. No terceiro grupo, das proteínas, a recomendação é colocar um queijo branco dentro do pão ou mandar um iogurte. “Caso a escola não tenha geladeira, coloque o iogurte no freezer e envie congelado dentro de uma merendeira que tenha isopor, por exemplo. Ele vai perder um pouco de gele, mas ainda estará geladinho na hora da criança beber”, diz.

Ela diz que é importante não esquecer da hidratação. “As crianças não se lembram de beber água, mas é bom habituar deixar uma garrafinha em cima da mesa delas para que possam ingerir quando tiverem vontade”.

E atenção para os alimentos proibidos: chips, balas, biscoitos recheados, salgadinhos fritos e refrigerante. “Nada disso deve fazer parte do dia a dia das crianças”, recomenda. A nutricionista lembra que falar não é mais difícil do que falar sim, mas educar envolve as duas situações. Para ajudar, elaborou duas opções de lanche para a merenda na escola.

 

Opção 1:
Pêra
Suco de acerola com laranja
Mini pão integral com queijo Minas

Opção 2:
Manga
Iogurte
Bolo de cenoura


Arte: Soraia Piva
Presidente do Comitê de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Mineira de Pediatria, Antônio José das Chagas dá dicas de hábitos saudáveis (foto: Arte: Soraia Piva)
O que diz a Sociedade Mineira de Pediatria
O presidente do Comitê de Endocrinologia Pediátrica, Antônio José das Chagas diz que a situação da obesidade infantil é tão grave que só acredita em uma campanha nacional “séria e longa” para solucionar o problema da falta de conscientização sobre a importância da alimentação saudável. Chagas cita o exemplo da campanha antitabagismo que colocou o Brasil em destaque na prevenção do vício ao cigarro (leia mais). “Só depois de muitas propagandas que a população foi aprendendo que fumar era um péssimo hábito e não tinha nado de charmoso”, recorda-se.

O cenário é tão ruim, na opinião do pediatra, que, segundo ele, “os próprios pais obesos não se sentem doentes. Eles sabem das consequências, mas parece que não raciocinam. Culpam a genética e levam os filhos para o mesmo caminho”. Além disso, de acordo com Chagas, procuram o médico em busca de uma solução milagrosa, mas nunca pensam em mudar o estilo de vida.

No entanto, Antônio Chagas esclarece que a obesidade é baseada em dois princípios: a genética e o ambiente em que a pessoa está inserida. “A criança pode nascer com a genética favorável à obesidade, mas o excesso de peso pode ser evitado com alimentação adequada”. E lembra: “a OMS considera a obesidade uma doença crônica grave”. Entre as consequências estão diabetes que começa mais cedo, pressão alta e doenças cardiovasculares. Para ele, tudo isso pode ser evitado de forma bem objetiva. “Carboidratos, açucarados e gordurosos estão sobrando na dieta das crianças brasileiras. A questão é matemática: as crianças estão ingerindo mais do que estão gastando. É preciso inverter a seta”, resume.

Ele é favor de uma lei federal por uma alimentação saudável nas escolas e um controle maior sobre a publicidade voltada às crianças. “Pacotes com artistas, atletas, bichos e brindes nas embalagens, isso têm que ser proibido. Nas gôndolas de supermercados esses produtos não poderiam estar à altura das crianças. Essa exposição deveria ser vedada. São milhares de detalhes que precisam ser trabalhados para dificultar o acesso das crianças a alimentos não nutritivos. A escola é um degrau nesse contexto”, afirma.

SXC.hu/Banco de Imagens
Escolas particulares de BH ainda não se adequaram à Lei da Merenda Saudável (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
 O que diz o Sindicato das Escolas Particulares
Diretora de eventos do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep) e diretora educacional do Instituto Educacional Manoel Pinheiro, Renata Gazinelli afirma que existe um esforço significativo das escolas da rede privada no cumprimento da Lei da Merenda Saudável, que é de 2009. Para ela, as próprias famílias “boicotam” a resolução ao enviarem de casa alimentos proibidos pela Lei 18.372/2009. “Quando comparamos as opções que a escola oferece com os produtos que os pais enviam é distoante”, reforça. Segundo ela, cheeeps, biscoito recheado e chocolate são protagonistas na merendeira de meninos e meninas e faz uma comparação com a Lei Seca. “Não se pode dirigir depois de ingerir álcool, mas não são todas as pessoas que cumprem”, observa. Gazinelli diz que é comum, após a família ser advertida, que o argumento seja: “Meu filho não come nada que vocês colocam para vender”. Ela reconhece, entretanto, que a prática não é generalizada: “Temos famílias muito bem informadas que já internalizaram a necessidade de mudança de hábito alimentar”.

Em relação ao não cumprimento da Lei da Merenda Saudável pelas escolas particulares, ela diz que “entre ser proibido e se tornar uma prática tem uma distância. Acredito que caminhamos 50%”, afirma. Para ela, em alguns casos falta uma tomada de decisão dos diretores. “Isso envolve firmeza e determinação pessoal. É preciso entender que – para além da existência de uma lei – a mudança é necessária porque os alunos precisam de uma alimentação saudável. Não é de fora para dentro, é uma motivação intrínseca”, acredita.

Diante da falta de fiscalização, Renata Gazinelli diz que o que vai determinar a cumprimento da lei é a postura da direção. “Não se pode ceder à pressão dos pais”, diz. Ela também apoia a criação de uma lei federal para regulamentar a alimentação dentro das escolas. “Quanto mais barulho tiver, melhor. Por que essa mudança é um trabalho cotidiano”, encerra.

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