Ciência avança pouco contra o câncer de bexiga

Segundo especialistas, nos últimos 50 anos, quase nada foi estudado e desenvolvido para o tratamento e o diagnóstico de tumores em um dos principais órgãos do sistema urinário. A doença mata em média 3 mil brasileiros anualmente

por Bruna Sensêve 19/02/2014 15:30

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São Francisco (EUA) e Brasília — O urologista norte-americano John Arthur Taylor iniciou sua fala no Simpósio de Cânceres Geniturinários de 2014, em São Francisco, com uma história pessoal. Disse que sempre é questionado sobre a motivação para estar em constantes idas e vindas do laboratório para a clínica. A explicação, segundo ele, estaria na fotografia da avó, exibida no primeiro slide da apresentação. Ela e um colega estão sorridentes, com cigarros acesos nas mãos durante o café da manhã. O péssimo hábito levou a matriarca ao diagnóstico — anos após a foto ter sido tirada — de câncer na bexiga. Em 1963, a evolução da doença fez com que a avó de Taylor fosse submetida a uma cistectomia radical, a retirada completa do órgão. “Se ela estivesse viva, estaria chocada, assim como eu fico muitas vezes ao saber que o neto realiza em pacientes a mesma cirurgia, com pouquíssimas diferenças da que ela foi submetida há 50 anos”, lamenta Taylor.

O evento, no início deste mês, foi promovido como parte do Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e Taylor é professor associado do Instituto para Ciência Clínica e Translacional de Connecticut, nos Estados Unidos, especializado no tratamento de tumores na bexiga e pesquisador de avanços terapêuticos na área. Diferentemente da evolução pela qual passaram outros tipos de câncer mais incidentes, como os tumores de próstata e de mama, o desenvolvimento científico de novas propostas para tratamento e diagnóstico dos males que atingem um dos principais órgãos do sistema urinário esteve a passos vagarosos, senão praticamente estacionado.

A principal consequência dessa aparente inércia atinge diretamente os pacientes, que têm poucas opções após a confirmação da doença. Em casos mais graves, nos quais as células cancerígenas alcançaram o tecido muscular, pode ser necessária a retirada completa do órgão, como aconteceu com a avó do urologista palestrante, o que promove a queda vertiginosa da qualidade de vida do paciente. O atraso na evolução do tratamento é exemplificado por Taylor quando compara as taxas de sobrevivência da doença na bexiga com a correspondente na mama.

CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: CB/D.A Press)
Em 1963, após o diagnóstico, ambos tipos de tumor poderiam levar, em grande parte dos casos, à amputação do órgão atingido. Os índices de sobrevida após cinco anos do tratamento eram de 63% e 70% para a mama e a bexiga, respectivamente. Mais de 50 anos depois, os progressos científicos relacionados ao cancro mamário possibilitam que o mal seja evitado antes mesmo de diagnosticado, por meio de marcadores genéticos que confirmam um percentual de risco para a doença. Ainda que diagnosticado, as opções são diversas tanto para cirurgias minimamente invasivas quanto para a definição do tipo de tumor, do protocolo de tratamento e da reconstrução do órgão. A taxa de sobrevida, atualmente, chega a 90%. A de bexiga aumentou apenas 6%.

“O que está errado? Falta de padronização. Precisamos desesperadamente de uma direção de tratamento já garantidos baseados em um alto nível de evidência e não na opinião de um especialista. Se isso não existe, é preciso buscar”, defende Taylor. O urologista considera que o momento é de grande esperança para novos avanços terapêuticos voltados ao que muitos médicos consideram a ovelha negra dos tumores geniturinários. O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Evanius Wiermann, presente no encontro em São Francisco, explica que tumores localizados no rim e na bexiga geram doenças que podem trazer uma deficiência ao paciente. No caso de retirada da bexiga, duas opções são mais utilizadas: a cistostomia e a construção de uma neobexiga ortotópica.

“Só que existem problemas relacionados a isso. Uma nova bexiga está associada a problemas fisiológicos, como a incontinência urinária e problemas relacionados à sexualidade do homem. É muito difícil manter uma qualidade de vida quando se precisa usar fraldas ou uma sonda”, observa. Wiermann destaca, entre os avanços apresentados no simpósio, o trabalho de Timur Mitin, do Massachusetts General Hospital, em Boston. O pesquisador expôs os resultados a longo prazo de pacientes que conseguem uma cura completa ou quase completa após submetidos a uma terapia combinada de preservação da bexiga para o câncer músculo-invasivo. “A preservação do órgão atingido na oncologia não é uma novidade, e a terapia de conservação da bexiga nos remonta a mais de 40 anos de tentativas”, declara Mitin.

Inicialmente, durante a década de 1970, a radiação foi o principal agente de luta contra o tumor sem que fosse necessária a retirada da bexiga. A progressão de tratamentos — como relatam os outros especialistas e é reforçado por Mitin — trouxe poucas opções em quimioterapia, sensibilização com radioterapia e algumas terapias coadjuvantes. A maior parte das tentativas foram abandonadas pela falta de evidência de superioridade. Mitin testou novos protocolos de tratamento em 119 pacientes. Cento e um (85%) chegaram à resposta completa esperada e outros 15% alcançaram uma resposta quase completa, com preservação da bexiga. Wiermann acredita que trabalhos como esses caminham em direção a um dos maiores desafios da oncologia atualmente, que é manter a qualidade de vida do paciente. “Claro que a vida ainda é prioridade, mas precisa-se considerar como o paciente vai vivê-la”, considera.

Terapias disponíveis
A cistostomia é uma conexão criada cirurgicamente entre a bexiga urinária e a pele a qual é utilizada para drenar urina da bexiga em indivíduos com obstrução do fluxo urinário normal. Já a neobexiga ortotópica caracteriza-se pela construção de novo reservatório de urina a partir de um segmento intestinal.

Vacina da BCG é usada há décadas
O tratamento do câncer de bexiga não invasivo é muito diferente dos procedimentos realizados quando a doença alcança o tecido muscular. Há quase 40 anos, os desenhos de tratamento para esse estágio inicial foram revolucionados e encontraram a terapia padrão usada até hoje. A resposta estava na imunoterapia com o já conhecido Bacilo de Calmette-Guerin , o BCG. Em meados do século 20, experiências com animais sugeriram um efeito anticancerígeno potencial da vacina contra tuberculose, e o interesse da oncologia clínica pela substância foi desencadeado em 1969 com relatórios positivos de atividade no combate à leucemia e ao melanoma.

Como na época as opções para tratamento contra o câncer eram poucas, ensaios com a vacina prosperaram para uma variedade de tipos de câncer em 1970. Porém, assim como quanto aos outros tratamentos, os especialista começam a indagar se não era possível dar um passo além. Com o tempo, terapias mais eficazes foram identificadas e o uso da BCG como tratamento para câncer cessou em todos os outros tipos de tumores, com exceção dos na bexiga, que se mantêm de um modo muito semelhante à abordagem inicial.

“Poucas terapias no campo da oncologia se mostraram tão bem contra o teste do tempo ou beneficiando tantos pacientes. Porém, nos dias atuais, reconhecendo as limitações da BCG e os avanços dramáticos na terapia oncológica desde 1970, estamos prontos para vislumbrar novas terapias em 2014 para novamente transformar o tratamento do câncer de bexiga?”, questiona Thomas W. Flaig, professor da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, também presente no Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, realizado no início deste mês, em São Francisco (EUA).

Para Flaig, os pesquisadores de hoje devem se inspirar na coragem dos investigadores que propuseram o uso da BCG contra o câncer de bexiga. “Nos próximos anos, temos de reexaminar abordagens inovadoras para o tratamento dessa doença. Entre as muitas abordagens da última década, as mais promissoras devem ser identificadas e apoiadas com estudos definitivos de fase III”, defende.

O urologista do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) Antonio Augusto Ornellas explica que, no Brasil, o tratamento com BCG é muito usado para doenças com reincidência alta e certos tipos de tumor. Ele alerta que o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer da bexiga é o tabagismo. Ornellas detalha que os elementos carcinógenos absorvidos pelo organismo tendem a ser eliminados pelo órgão urinário, especialmente aqueles obtidos por meio do cigarro, mas também agem no local.

“A pessoa fuma, o carcinógeno entra no corpo e uma forma de eliminar é urinar a substância nociva. Ao fazer isso, ela vai se concentrar na parede da bexiga e, com isso, conduzirá ao câncer de bexiga”, explica. Apesar de parecer rara, a doença é o quarto tipo de câncer que mais acomete os homens e o nono nas mulheres.

* A repórter viajou a convite da Astellas Pharma

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