Forma de encarar diagnóstico de câncer faz diferença no tratamento

Pacientes e médico falam da importância da crença diante da vida para que o enfrentamento do câncer e a recuperação sejam menos dolorosos

por Lilian Monteiro 18/02/2014 15:15

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Beto Novaes/EM/D.A Press
"O cabelo só raleou, não caiu todo, mas confesso que ao vê-lo caindo chorei muito. Minha tia diz que chorei mais do que no dia do diagnóstico. Foi difícil, mas passou" - Juliana Martins Souza Bicalho, estudante de direito (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
O diagnóstico de câncer não é mais uma sentença de morte. A descoberta prematura e o tratamento rápido, eficiente e adequado aumentam, cada vez mais, a chance de cura. Cura essa que está intimamente ligada à atitude e à reação do paciente, ainda que cada caso siga caminhos distintos. Acreditem, não é balela ou conversa mole quando médico, familiares, amigos ou desconhecidos alardeiam que alto-astral, pensamento positivo e bom humor ajudam na recuperação e a seguir em frente. A estudante de direito Juliana Martins Souza Bicalho, de 24 anos, nos ensina os significados da vida. Ela conta que, de repente, teve uma forte dor no abdômen, foi parar no hospital e descobriram ser um tumor no ovário. Fizeram biópsia e constataram um tumor maligno 20 dias depois. "Fiquei chocada, mas sempre pensei que ia dar certo. Sou positiva com tudo. Perdi minha mãe com câncer em 2008, em dezembro de 2010 descobri o meu e três meses depois também perdi meu pai com câncer. O que podia fazer?".

Juliana revela que sua atitude foi encarar a doença e buscar a vida. "Por causa da minha mãe, sempre li muito a respeito. E é verdade, quando o paciente é positivo, tem fé, bom astral, geralmente vai ter bons resultados. Na minha segunda cirurgia, quando tirei ovário, útero e as tubas uterinas, e comecei a fazer a quimioterapia, encarei com tranquilidade." A futura advogada conta que "não parei minha vida em momento algum. Não tranquei faculdade e procurei ocupar minha cabeça. Meu mal-estar com a quimio foi bem pouco. O cabelo só raleou, não caiu todo, mas confesso que ao vê-lo caindo chorei muito. Minha tia diz que chorei mais do que no dia do diagnóstico. Foi difícil, mas passou. Tive apoio da família e dos amigos. Foram importantes, eles me faziam rir".

Em abril de 2011, Juliana encarou a última quimioterapia. Fez o controle a cada seis meses e, agora, o mantém uma vez por ano. "Não sei quando terei alta definitiva. Não penso durante o ano, mas perto do exame fico desesperada. Meu médico sempre diz: ‘Não confia no meu trabalho? Tudo vai dar certo’. Aí passa. Digo sempre que se não tiver fé em alguns momentos você enlouquece, ainda mais diante da minha história familiar. Minha única opção é acreditar. Aliás, independentemente do que acredita, a fé é ideal porque o corpo fica mais à disposição para receber o tratamento. Só faz bem."

SAUDÁVEL
Caso inverso ao de Juliana, a médica neonatologista Jaqueline de Oliveira Rodrigues não fazia parte de um grupo de risco. Não estava na faixa etária, não fuma, não bebe, pratica exercícios e tem alimentação saudável. "Por isso o susto foi maior. Tive um quadro de colite, febre, dor local e infecção. Faz parte da investigação a colonoscopia, que detectou uma lesão. Dez dias depois fiz cirurgia para retirá-la. Ansiosa, resolvi logo, graças a Deus. Operei e fiz quimioterapia por seis meses." Ela conta que, num primeiro momento, é natural, ficou balançada, desanimada, “mas quase imediatamente recuperei meu desejo para realizar as coisas. Levei o susto na hora certa para me lembrar de que a vida continua, que precisamos ter ânimo".

Rafael Coelho/Divulgação
O oncologista André Murad lembra que o médico precisa ser extremamente cauteloso com o paciente (foto: Rafael Coelho/Divulgação)
Jaqueline enfatiza que a fé a sustentou e, em nenhum momento, se desesperou. "Não achei que ia morrer e encarei tudo com serenidade. Fiquei tranquila e com o apoio de amigos, da família e com muita oração passei por essa etapa." Ela lembra que os efeitos colaterais da primeira dose de quimioterapia foram bem ruins. "Emagreci demais, fiquei enjoada, durou um ou dois meses, mas logo foi ajustada. Foi o momento mais difícil. Não fiquei careca, tolerei bem. Então, percebi que tinha muito mais a agradecer do que a reclamar. No meu caso, a dor que Deus me mandou foi o que me salvou." Além de acreditar e confiar na equipe médica, Jaqueline recomenda que todos tenham um bom relacionamento com seu médico, conversem e sempre valorizem os sintomas. "Pare de achar que toda dorzinha é uma bobagem, que não é nada. Tem de pesquisar, investigar."

A médica, que mesmo com vida saudável encarou o câncer, avisa: "Ela é fundamental, já que me tornou mais forte e me fez passar por tudo de forma mais leve, com a cabeça boa, não tive depressão, continuei com minha ginástica e dança de salão. É muito importante também que as pessoas saibam que o câncer, em fase inicial, tem cura. É preciso desmistificar isso porque a maior parte tem boa chance. É estar atento ao corpo e fazer exames periódicos".

Busca de identidade

Só quem viveu as consequências de descobrir o diagnóstico de um câncer de mama pode falar com autoridade sobre essa doença, que atinge qualquer mulher. É o caso de Cristiana A. Castrucci, autora do livro Você me viu por aí? – A busca da identidade depois do câncer, da Prata Editora. Ao ter câncer de mama, em 2011, ela sofreu as nuances de humor e crises de identidade características de quem passa por um tratamento de cura e chega à difícil etapa de ter de retirar parte do seio como única solução. Para ajudar mulheres que vivenciam situações semelhantes, Cristiana abusa da diversão para contar sua história. Ao mesmo tempo em que relata o quão traumático foi receber o diagnóstico, inclui mensagens engraçadas e de força trocadas com suas amigas, ou ainda comentários inusitados de como se sentia. Apesar das dificuldades, a autora deixa claro às mulheres que é possível superar esse momento difícil. Para reforçar essa tese, o livro ainda traz o relato de outras 10 pessoas que também vivenciaram o câncer de mama. Todo o valor dos direitos autorais da obra será revertido em doação para as carretas do Hospital de Câncer de Barretos, que possibilitam às mulheres de Americana, São José dos Campos, Santos, Bebedouro e Aparecida, no interior de São Paulo, realizarem mamografia para detectar a doença precocemente.

Ser sensível
Segundo André Márcio Murad, coordenador do serviço de oncologia do Hospital das Clínicas da UFMG, do Centro de Oncologia do Hospital Lifecenter e do Centro Avançado de Tratamento Oncológico (Cenantron), a maneira de encarar o diagnóstico do câncer depende do prognóstico, nem tudo é igual. "Temos o inicial, com cura, cirurgia mais simples e tratamentos menos agressivos. E o de estágio avançado", explica.

O oncologista comenta que médico e pacientes têm formas diferentes de agir. "O paciente, no geral, encara fases, ou seja, fica ansioso, deprime, revolta e aceita. Na primeira situação, de menor impacto, por não ser mutilante, com taxa de cura alta, a aceitação é mais confortável e fácil. No caso de pacientes com possibilidade de cura pequena, é preciso que o médico seja cuidadoso. Não pode ser frio, realista ou rigoroso com o paciente, que vai se preocupar com qualidade de vida. Há formas de falar. Uso a técnica do eufemismo, amenizo o que vou dizer. Se o tumor progrediu, o exame piorou, vou dizer que poderia estar melhor", acrescenta. "O paciente mede os milímetros da nossa fala e vê o médico como leme da vida dele."

Nos casos graves, o especialista diz que o médico precisa ser frio, objetivo, realista, quando entrar em contato com a família. "Ela tem de saber a verdade para tomar as medidas necessárias. Ao paciente, o médico tem obrigação de dar esperança e ser sensível, ainda mais porque a oncologia evoluiu e tem cada vez mais opções de tratamentos."

André Murad diz que pesquisas buscam incessantemente por medicamentos menos agressivos. "A terapia-alvo, medicamentos que atuam diretamente nas células cancerígenas sem atingir organismos saudáveis, com menor sofrimento do paciente, estão no foco dos estudos. O diferencial dessas drogas é que agem diretamente nos genes. A expectativa é de que, em até 10 anos, mais medicamentos estejam à disposição da população para tumores como os de mama, pulmão, intestino, próstata, rim, estômago, melanoma, tumores de cabeça e pescoço, linfomas, leucemias e tumores cerebrais, diminuindo os efeitos colaterais mais severos."

De acordo com o oncologista, pelo menos 15 estudos estão em desenvolvimento, com testes em diferentes fases. "Várias drogas já estão comercialmente disponíveis atualmente, inclusive no Brasil e pelo Sistema Único de Saúde (SUS)."

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