Dê bonecas para os meninos e ação e aventura para as meninas

Divisão de tarefas por gênero segundo padrões do mundo adulto invade a infância e limita experiência de meninos e meninas. Qual o impacto dessa segmentação no presente e no futuro?

por Valéria Mendes 30/01/2014 09:00

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A brincadeira é a atividade primordial da criança, onde ela se realiza, se desenvolve e assimila a cultura da sociedade em que vive. Separar brinquedos entre meninas e meninos é uma prática corriqueira e antiga, mas que afasta os pequenos de experiências ricas e importantes para sua formação humana. Aprender a cuidar e expressar sentimentos, por exemplo, deve também fazer parte do universo dos meninos. Assim como brincadeiras de desafio, aventura e lógica devem ocupar também as meninas. Reforço de estereótipos machistas é outro desvio que a separação indevida nas brincadeiras pode acarretar. 

“Meu marido foi com o filho ao Mercado Central comprar um brinquedo de madeira que ele adora, um patinho com cabo de empurrar, que havia quebrado. Eles demoraram muito e perguntei o porquê. Eis a resposta: ‘por que ele queria o patinho rosa e esse eu não deixei. Custei convencê-lo de trazer o pato amarelo’”, recorda-se a funcionária pública Nathália Bini, mãe de Miguel, 2 anos, e grávida de Pedro. A jornalista conta que a situação resultou em uma conversa séria com o marido e lembra ter argumentado que “rosa/azul não indicam cor de nada”. Para ela, mudanças culturais são um processo lento e gradual. “A geração do meu marido, 40 anos, é difícil de mudar”, acredita.

SXC.hu/Banco de Imagens
"Quando uma menina decide brincar com algo que a indústria formatou para meninos o choque é quase nulo. Já quando ocorre de o menino se identificar com um brinquedo tradicionalmente 'de menina', as reações dos adultos e até mesmo de algumas crianças chega a ser ofensiva" - Mariana Sá (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
Não é tarefa simples modificar pensamentos arraigados na cultura. Mas as mudanças acontecem e as novas gerações podem atuar nessa transformação. “Falta inserir o cuidar nas brincadeiras dos meninos”. A constatação é da jornalista, educadora ambiental e para o consumo, integrante da Rede Brasileira sobre Infância e Consumo (Rebrinc) e coordenadora do Consciência e Consumo, Desirée Ruas. “Aprender a cuidar da casa e dos filhos é muito importante, mas não deveria ser responsabilidade apenas das mulheres. Meninos e meninas deveriam brincar mais juntos. São apenas crianças que têm muita imaginação e criatividade e precisam brincar para o seu desenvolvimento saudável e feliz. Mas ainda hoje temos meninos e meninas em grupos isolados e sem interação espontânea nos recreios das escolas ou nos espaços coletivos”, observa.

Publicitária, mestre em políticas públicas, autora do blog 'Viciados em colo' e co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo, Mariana Sá é mãe de Alice, 8 anos, e Arthur, de 4. Para ela, a indústria de brinquedos no Brasil reflete um certo conservadorismo e machismo da sociedade na medida que diferencia brinquedos de meninas e de meninos segundo uma divisão de tarefas de acordo com o que se convencionou - e que está cada vez mais em questionamento - no mundo adulto: mulheres cuidam da casa e da prole e homens dos desafios. “Sou mãe de uma menina e de um menino e comecei a reparar que a segmentação por gênero parece pior para as meninas, mas na verdade é prejudicial para ambos. Quando uma menina decide brincar com algo que a indústria formatou para meninos o choque é quase nulo. Já quando ocorre de o menino se identificar com um brinquedo tradicionalmente "de menina", as reações dos adultos e até mesmo de algumas crianças chega a ser ofensiva. Eu mesma já ouvi o clichê ‘larga esta boneca que isso é coisa de menina!’”, conta.


Exemplos dessa prisão que a segmentação de brinquedos por gênero provoca existem aos montes. Mariana Sá relembra uma situação em que saiu para comprar um presente para um menino. “Vi um jogo que meu caçula adora: frutas com velcro para cortar de mentirinha. Na embalagem rosa, uma menina sorria. Fiquei receosa de dar o presente e ser mal interpretada. Era claramente um brinquedo que estava segmentado para as meninas, mas que meu caçula, por nunca ter visto a embalagem, brinca com naturalidade”, relembra. Mariana relata que com 3 anos, o filho começou a diferenciar brinquedos pela cor e passou um tempo recusando os brinquedos rosa. “Depois de muita conversa passou, por que felizmente ele tem acesso aos brinquedos da irmã e na escola dele as brincadeiras com objetos tradicionalmente femininos são muito promovidas”, diz. “Tenho convicção que panelinhas coloridas com meninos na embalagem fariam sucesso porque vejo muitas mães procurando este tipo de brinquedos para os meninos sem sucesso”, completa Mariana Sá.

Zzn Peres/Arquivo Pessoal
O pequeno Miguel queria um patinho rosa, o pai custou a convencê-lo a comprar o amarelo e a experiência gerou uma conversa em família (foto: Zzn Peres/Arquivo Pessoal)
 A psicóloga Anna Riani, 32 anos, é mãe de Gabriel, 5, e Maria Clara, 1 ano e cinco meses. Ela ainda divide com o pai de seus filhos, o professor universitário Frederico Augusto d`Ávila Riani, 45, os cuidados com a enteada Júlia, de 14. Anna acredita que a oferta de brinquedos segue as tendências da sociedade. “No Brasil vivemos numa cultura sexista, então, objetivamente os brinquedos reforçam tais estereótipos, principalmente os brinquedos industrializados. Não há bonecos para que meninos possam cuidar, exercerem a função paterna, todos são guerreiros. Não há espaço para o sentir no universo dos meninos, somente ação”, pontua. Anna vai buscar um exemplo na data-símbolo de distribuição de presentes para ilustrar seu pensamento: “No Natal vivemos uma situação interessante. Há muitas crianças na família com idades variando de 1 a 10 anos. Os meninos ganharam carrinho de controle remoto, espada, arma. As meninas ganharam tábua de passar roupa, geladeira, boneca que chora e bercinho. Talvez ninguém, ou poucas pessoas num universo de 50, tenham percebido isso”, observa.

Quando se fala em crianças o mais comum é a preocupação com o futuro, mas é importante lembrar que a infância é o tempo presente de meninos e meninas. Isso significa tirar o foco e as expectativas do que eles serão na vida adulta para ajudá-los a viver o que são. Por isso, o impacto da diferenciação por gênero em algo que é especial para eles – o brincar - deve ser pensado do ponto de vista das oportunidades que podem ser perdidas, sejam elas da fantasia ou da experimentação, mas também do autoconhecimento e da interação com o outro.

Construção cultural
Coordenadora do Museu dos Brinquedos, em Belo Horizonte, Tatiana de Azevedo Camargo diz que essa segmentação sempre existiu: “Faz parte do processo de amadurecimento do ser humano essa identificação de gênero, é quando a criança percebe a diferença entra ela e o outro e uma das questões que aparece é justamente a do gênero. Ela surge no ato de brincar e na vida da criança como um todo. A brincadeira é o retrato do que acontece no mundo da criança, ela não surge do nada. A indústria tira proveito disso e reforça a diferenciação de gênero”.

Tatiana acredita que todas essas questões mostram que, na atualidade, o papel do educador – pai, mãe, escola e familiares – é de extrema importância para não reforçar discursos preconceituosos. “Antigamente a brincadeira acontecia com mais naturalidade, hoje sofre muito a influência da mídia. A criança virou mercado e recebe pressões de todos os lados. O papel do educador é ser esse intermediário, trabalhar essa mistura. A postura do adulto é mais importante do que esperar que a indústria mude”, pontua.

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"Aos meninos são dados treinos de noções espaciais, soluções financeiras, raciocínio lógico, além de ser permitido correr, subir em árvores, bater para se defender e extravasar a agressividade. As meninas ficam com os deveres da casa, do cuidar, do perceber o outro, do se preocupar com o outro. Entretanto, há equívocos nessa maneira de tratar a brincadeira e utilizar o brinquedo que podem repercutir no futuro com toda a certeza" - Anna Riani, psicóloga (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
 A psicóloga Anna Riani explica que não é da natureza da criança a diferença. “A educação sexista é cultural. A criança descobre que há uma diferença física de gênero (sexo), mas as funções atribuídas a cada gênero ela aprende com a cultura, e normalmente com a cultura familiar. É vendo o que se passa em casa que os conceitos sobre o que faz um homem e uma mulher são formados. Portanto, acho importante que a criança possa perceber livremente as diferenças existentes na sua cultura, sem que isso seja dado explicitamente a ela. Não acho interessante quando um pai chama atenção do filho por ele estar fazendo algo doméstico ou quando uma menina é repreendida por gostar de carrinho”, avalia.

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"As crianças merecem brincar. Brincar do que quiserem sem que adultos interfiram tanto. Crianças precisam ter acessos a brinquedos mais inteligentes, a espaços livres e seguros e a adultos menos preconceituosos" - Mariana Sá, autora do blog 'Viciados em colo' (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
Meninos e meninas merecem brinquedos melhores
Mariana Sá diz que a segmentação de brinquedos por gênero pode ser motivo de sofrimento para meninas e meninos. “Eles sofrem de maneiras diferentes, mas na mesma intensidade. Se por um lado, as meninas não são estimuladas a 'desejar' brinquedos que desenvolvam habilidades tecnológicas ou científicas, os meninos são expressamente privados de exercitar a paternidade e cuidado consigo mesmo e com a casa. Na mais tenra idade, se não estiverem num ambiente em que brincadeiras deste tipo sejam promovidas é possível que deixem de pegar em bonecas ou em apetrechos da casa”, afirma. A publicitária diz ainda que, em longo prazo, as meninas podem sair mais prejudicadas: “tanto por que muitas vezes deixam de exercer profissões tradicionalmente masculinas, quanto pela falta de "treinamento" dos companheiros em relação às atividades domésticas e de cuidado, ficando sobrecarregadas”.

A psicóloga Anna Riani constata que os brinquedos estimulam habilidades diferentes para meninos e meninas. “Aos meninos são dados treinos de noções espaciais (carro, veículos de controle remoto, armas com alvo, brinquedos de encaixe), soluções financeiras (jogos de tabuleiro com dinheiro) e raciocínio lógico (lego, cubo mágico), além de ser permitido correr, subir em árvores, bater para se defender e extravasar a agressividade. As meninas ficam com os deveres da casa, do cuidar, do perceber o outro, do se preocupar com o outro. Entretanto, há equívocos nessa maneira de tratar a brincadeira e utilizar o brinquedo que podem repercutir no futuro com toda a certeza. Os meninos crescem com pouca percepção do outro, dos sentimentos do outro e das necessidades de ajuda e carinho. As meninas crescem introvertidas, com mais dificuldade em lidar com o corpo, pois a elas não é muito tolerado correr, gritar, brincar de luta ou trabalharem a agressividade, que é natural a todo ser humano”, observa.

Desirée Ruas acredita que as crianças podem e devem experimentar mais, usar mais a imaginação em suas atividades lúdicas, sem ficar presas ao ‘isso é brincadeira de menino’ ou ‘isso é só para meninas’. “A indústria reflete o que a sociedade vive. Ao fazer campanhas em sintonia com este modelo das brincadeiras de meninos e de meninas, ela incentiva ainda mais a perpetuação desta sociedade que diferencia o papel da mulher e do homem na sociedade desde a infância. Mas pouco se discute sobre o quanto os brinquedos podem ser prejudiciais, estimulando a violência, contribuindo para erotização precoce, o consumismo, serem pouco úteis, estimular pouco a criatividade e o desenvolvimento das crianças e sim serem lucrativos para quem os produz”, alerta.

Mariana Sá é categórica e conclui: “esta segmentação de brinquedos e outros objetos por gênero desde a mais tenra idade é prejudicial para a sociedade como um todo”. Anna Riani corrobora: “Eu penso que as vivências da infância são determinantes para as escolhas futuras, seja para meninos ou meninas. Fazemos escolhas por aceitação de situações vivenciadas ou por oposição”.

Liga da Justiça/Divulgação
No caso de meninas, muito se discute sobre bonecas e padrão de beleza. Mas imagem de super-heróis também impactam meninos (foto: Liga da Justiça/Divulgação)
Padrão de beleza para meninos
A co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo estende a questão do padrão de beleza também para os garotos. “Falamos muito dos brinquedos das meninas, especialmente das bonecas que refletem uma imagem corporal distorcida - altas, magras, com a proporção busto-cintura-quadril completamente comprometida. Falamos também da padronização que deixa a desejar quando o assunto é representar a diversidade de seres humanos, mas basta um passeio pelo corredor dos super-heróis para notar o mesmo problema nos bonecos”, comenta.

Para ela, se as bonecas causam angústia nas meninas, comprometendo sua auto-estima, os bonecos-heróis podem fazer o mesmo com os meninos. “Os super-heróis têm músculos excessivos e uma proporção corporal tão comprometida quanto à das bonecas. E como o debate ainda não evoluiu, os bonecos nem chegam perto da diversidade das bonecas, que, em anos de discussão, melhoraram as profissões, as texturas de cabelos e tonalidades de pele. Mesmo estando muito longe do ideal, hoje podemos dizer que alguma melhoria ocorreu para as meninas: as heroínas dos desenhos são mais fortes, corajosas e autônomas, enquanto os meninos só possuem a força e os superpoderes para se inspirar”, avalia.

Bonecas são para meninos? Em algumas escolas, sim


Alternativas
Fugir de modismos não é tarefa fácil. Por trás de um produto há toda uma estratégia sofisticada de comunicação que incentiva esse consumo segmentado por gênero. O diálogo ainda parece ser uma alternativa a esse modelo padronizado de infância. “Muitas perguntas podem ser feitas pelos pais aos filhos contribuindo para que desde cedo as crianças tenham consciência de suas escolhas. Mas o padrão azul para meninos e rosa para meninas é muito lucrativo e os modismos são assimilados com tal profundidade por todos que fica pouco espaço para o questionamento. Vale sempre lembrar que cabe aos pais definir o que deve ou não ser consumido pela criança. Mesmo que a criança chore e faça escândalo na loja, é preciso ensinar que nem tudo o que está disponível e é consumido por muitas pessoas é bom para elas.”, alerta Desirée Ruas.

Para ela, o caminho pode ser a retomada da infância. “Não existe mais o deixar viver, deixar crescer, a liberdade da infância. As crianças nascem moldadas na cabeça dos pais para serem algo e isso foge totalmente ao que uma criança precisa. Quando os pais perceberem que a hora da definição de funções é bem depois da infância, é somente nos tempos do início da vida adulta, a discussão sobre a educação não-sexista vai perder força”, afirma.

Maria Toscano/Divulgação
"Pensamos que homens e mulheres, pai ou mãe, tem a mesma capacidade e aptidão para o serviço doméstico ou fora de casa. Então, agimos segundo a necessidade. Quem está disponível ou quer fazer, faz, não importa a tarefa" - A psicóloga Anna Riani e sua família (foto: Maria Toscano/Divulgação)
Anna acredita que não é uma luta perdida: “É uma necessidade da cultura atual retomar a simplicidade que é própria da criança. Há muito medo e insegurança por parte dos pais sobre o que será do futuro do filho, mas esses pais esquecem que o futuro dos filhos está na infância bem vivida e no exemplo tido em casa”, conclui.

Mariana Sá completa: “Acho que as crianças merecem brincar. Brincar do que quiserem sem que adultos interfiram tanto. Crianças precisam ter acessos a brinquedos mais inteligentes, a espaços livres e seguros e a adultos menos preconceituosos”, pontua.

Anna Riani cita exemplos do dia a dia para neutralizar essa segmentação. “Na prática lidamos (ela e o marido) com as situações naturalmente, de acordo com os acontecimentos e demandas, como deve ser. Se estou na cozinha e o Gabriel pede pra ajudar, ele participa. Se estou ocupada e meu marido livre, será ele a trocar a fralda da pequena. Pensamos que homens e mulheres, pai ou mãe, tem a mesma capacidade e aptidão para o serviço doméstico ou fora de casa. Então, agimos segundo a necessidade. Quem está disponível ou quer fazer, faz, não importa a tarefa”, relata.

* A reportagem tentou falar com algum representante da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos e foi informada que o representante da Abrinq estava fora do país.

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