Você faz dieta, exercita-se, mas não consegue emagrecer? Problema pode estar oculto em alguma doença

Embora seja mais complicado para indivíduos com problemas como hipotireoidismo ou ovário policístico perderem peso, dizer adeus às gordurinhas não é impossível

por Gláucia Chaves 28/01/2014 12:00

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Você vai para a academia regularmente, tem uma dieta rica em fibras e com poucas calorias, não bebe (ou só bebe socialmente). A balança e a fita métrica, contudo, parecem ignorar seus esforços e insistem em mostrar a realidade desanimadora, ilógica e inexplicável: você não emagreceu um grama. Se essa descrição parece familiar, não se desespere. Você pode fazer parte das pessoas com algum problema de saúde que atrapalha o processo de perder peso. Mas atente-se para a palavra “atrapalha”. Não adianta colocar os quilos a mais na conta da saúde. Embora seja mais complicado para indivíduos com problemas como hipotireoidismo ou ovário policístico perderem peso, dizer adeus às gordurinhas não é impossível.

 Os médicos são sinceros: o emagrecimento vai acontecer, mas o caminho será bem mais árduo para pacientes como O'Hara Ramos da Silva, 60 anos. A secretária sofre com hipotireoidismo, disfunção na tireoide (glândula que regula importantes órgãos do organismo), que se caracteriza pela queda na produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). Um dos sintomas é a dificuldade em perder peso. Desde os 27 anos, quando descobriu o problema, O’Hara faz dieta. “Agora, com a menopausa, está ainda mais difícil”, desabafa.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
O'Hara Ramos da Silva tem dificuldade de emagrecer desde jovem, quando descobriu que tem hipotireoidismo: problema acentuado com a menopausa (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
O endocrinologista foi enfático: “Ele disse que eu posso ficar sem comer que continuarei engordando. Tenho que malhar o dobro que as pessoas ‘normais’.” Hoje, ela, que mede 1,50m, está com 83kg. A meta é chegar aos 60kg. A filha de O’Hara, que é professora de educação física, será a personal trainer da mãe. A rotina de malhação ainda não começou, mas O’Hara já tem uma extensa lista de tentativas anteriores, que inclui pilates, musculação, ginástica aeróbica e uma infinidade de dietas diferentes.

O problema não tira a animação dela, contudo. Depois de um tempo tentando emagrecer sem sucesso, o aborrecimento até vinha, mas não vingava. “Não sou de chorar o leite derramado”, resume O’Hara. “Chorar não adianta. Dou um tempo e depois volto com mais gás ainda.” Os médicos fazem coro. Nenhum deles, ela conta, aceita o hipotireoidismo como desculpa para o sobrepeso. “As coisas não se resolvem sozinhas e eu penso que a gente não deve esperar os outros dizerem o que devemos fazer.”

A servidora pública Marcela Jucá Pimentel, 32 anos, passa por uma situação parecida com a de O’Hara. Tudo começou em 2009, quando ela começou a se sentir inchada e com dificuldade para emagrecer. Fora isso, um sono incontrolável e uma tendinite constante não a deixavam em paz. No checape de rotina, o médico desconfiou e pediu exames extras, que confirmaram o diagnóstico de hipotireoidismo. “Ele disse que eu estava quase sem tireoide, que ela estava sendo engolida pelo meu corpo”, conta.

O diagnóstico veio como uma forma de solucionar o mistério: por que, mesmo malhando, os quilos extras não iam embora? Fora o “bloqueio” do corpo em perder peso, Marcela ainda precisava lidar com a falta de disposição para se exercitar, outro sintoma comum do hipotireoidismo. Os hormônios que toma diariamente em jejum mudaram esse quadro. Hoje, ela diz que seu maior desafio para emagrecer não é a tireoide, mas a boca. “Sempre comi muito, desde a adolescência”, confessa. “Mas, com os hormônios, vivo normalmente. Quando você trata a deficiência, tem uma vida normal. Só não emagrece quem não quer.”

"Muitas vezes, é ilusório imaginar que um grande obeso vai ter peso normal apenas por fazer reposição de hormônio da tireoide, por exemplo” - Neuton Dornellas, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Sem desculpas

Doenças da tireoide e da glândula suprarrenal, como a doença de Cushing (leia quadro ao lado), atrapalham o emagrecimento, mas não podem ser usadas como desculpa para o sobrepeso e a obesidade. “Em termos de obesidade, isso corresponde a menos de 3% dos casos”, calcula Mirna Campagnoli, endocrinologista e especialista em tireoide do Laboratório Pasteur. Os outros 97%, segundo a médica, estão relacionados a erros alimentares e a sedentarismo.

Mas por que é mais difícil para esses pacientes perder peso? Campagnoli explica que em alterações hormonais por doenças ou por fase fisiológica, como a menopausa e a andropausa, há uma diminuição do metabolismo basal, ou, em outras palavras, da quantidade mínima de energia (calorias) necessária para manter as funções vitais do organismo em repouso. Ao mesmo tempo, há um excesso de hormônios orexígenos, que estimulam a fome. Resumindo: quanto mais esses hormônios aumentam, mais o apetite cresce. “O tempo inteiro, o organismo produz e quebra gordura”, explica. “Na presença desses fatores hormonais, a gente desvia esse ciclo para maior produção e menor quebra. A pessoa acumula gordura mesmo não comendo tanto.”

Para ver os ponteiros da balança diminuírem, então, esses pacientes precisam de uma estratégia diferente. Além de tratamento com remédios específicos para cada condição, o jeito é passar mais tempo que os outros meros mortais na academia. E comer menos que todo mundo. “Algumas pessoas até usam o fato de ter uma alteração hormonal como uma espécie de álibi para sua obesidade”, completa Neuton Dornellas, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “É como se sentissem aliviadas em poder justificar para outras a sua condição de obesas.”

Diversos fatores estão envolvidos no ganho de peso, tenha a pessoa algum tipo de complicação endócrina ou não. Genética, ambiente, hábitos alimentares e atividade física, na verdade, são os fatores determinantes para uma dieta ter sucesso ou não. O que muda são as correções hormonais feitas em casos especiais. “Muitas vezes, é ilusório imaginar que um grande obeso vai ter peso normal apenas por fazer reposição de hormônio da tireoide, por exemplo”, frisa Dornellas.

INIMIGAS DA BALANÇA

Veja as principais situações que ficam entre você e seu peso ideal

  • Hipotireoidismo
  • Ovário policístico: os hormônios desregulados fazem com que o pâncreas produza mais insulina, o que dá uma sensação de fome
  • Doenças cardiovasculares
  • Doenças articulares
  • Diabetes
  • Anti-inflamatórios hormonais: causam retenção de líquidos e aumento do apetite
  • Remédios de uso psiquiátrico: podem aumentar o apetite
  • Estresse: deixa o metabolismo mais lento, o que impede o gasto energético
  • Menopausa e andropausa

Fique atento
Muitas vezes, as doenças que atrapalham o emagrecimento dão sinais visíveis. Veja alguns deles:
  • Aumento do volume do pescoço (pode corresponder a um aumento da glândula tireoide)
  • Cãimbras
  • Intestino preso
  • Inchaço nas pernas
  • Dificuldade de concentração
  • Pele ressecada
  • Desânimo
  • Apatia
  • Cansaço fácil
  • Queda de cabelos
  • Unhas que quebram com facilidade

Fonte: Neuton Dornellas, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Lilian Marques mudou a dieta e passou a fazer exercícios, mas não conseguia emagrecer: exame personalizado descobriu o problema (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Quando o problema está nos genes
Lilian Marques, 47 anos, queria deixar uma vida sedentária e cheia de maus hábitos para trás. “Fumei durante muito tempo, desde meus 15 anos, e sempre me alimentei errado”, confessa. Há três anos, ela se matriculou em uma academia e começou a malhar. Mesmo comparecendo sempre e maneirando na comida, para a balança, nada estava acontecendo. No caso dela, o que estava no caminho era um problema genético. Só que, antes de descobrir isso, a biomédica teve que, literalmente, suar. Junto com a malhação, Lilian procurou também a ajuda de uma nutricionista. Os resultados, porém, continuaram não aparecendo.

O martírio continuou até que a nutricionista de Lilian sugeriu que ela se submetesse a um exame genômico. A análise revelou detalhes importantes sobre o metabolismo dela, como quais alimentos seriam os mais indicados e até quais exercícios físicos seriam ideais para o tão sonhado emagrecimento. Cerca de 40 dias depois, o resultado do exame revelou que ela estava fazendo tudo errado sem saber. Primeiro, porque um gene defeituoso faz com que o cérebro dela não perceba quando ela está satisfeita. Como a recomendação geral é que se coma de três em três horas, os nutricionistas, ao ouvirem as queixas de fome da paciente, acabavam aumentando a quantidade de alimentos — o que a fazia engordar.

A segunda armadilha do senso comum foi a orientação sempre dada aos gordinhos de que, para perder peso, é preciso eliminar ao máximo a quantidade de gordura. No máximo, uma ou duas castanhas por dia. Acontece que o corpo de Lilian responde bem a alguns tipos de gorduras. Elas, na verdade, a ajudam na perda de peso. “Hoje, eu me alimento de duas em duas horas e como uma castanha-do-pará, três de caju, cinco amêndoas e três macadâmias de manhã e a mesma quantidade à tarde.” Para completar, ela ingere uma cápsula de um complexo vitamínico com sete tipos diferentes de óleos. Resultado: três quilos a menos desde agosto, quando começou a dieta adaptada.

Pode até parecer pouco, mas, para pacientes como Lilian, cada grama a menos é uma vitória conquistada com esforço descomunal. Rafael Munerato, cardiologista do Laboratório Exame, explica que o que salvou a dieta de Lilian foi a análise do 0,1% dos genes que a difere das outras pessoas. “O exame que ela fez foca em fatores de risco que as pessoas têm de diferente entre si”, detalha. “Quando se fala em exame genético, muitas pessoas associam com doenças. A medicina não fala só disso. O exame ajuda a conhecer pequenas diferenças individuais de nutrição e atividade física.”

Na prática, ele diz que a medicina já tinha algumas pistas sobre essas diferenças. Pessoas com colesterol bom em níveis baixos, por exemplo, precisam fazer exercícios para subir esses níveis. Mas isso não acontece com todos os pacientes nessa situação. “Também há casos de pessoas que perdem mais peso fazendo exercícios que controlando a alimentação ou vice-versa. Esse tipo de exame consegue avaliar os marcadores genéticos associados a esses itens.” Rafael Munerato explica que exames como esse estão dentro da chamada medicina personalizada, em que os médicos avaliam as respostas genéticas tanto para descobrir o melhor tratamento para doenças quanto para outros procedimentos. “É uma tendência que já começou na medicina, mas que ainda é pouco sedimentada”, completa.

Genética da dieta

Chamado Painel Genômico de Nutrição e Resposta a Exercício, o exame feito por Lilian Marques é baseado em biologia molecular. São mapeados 145 marcadores genéticos para descobrir como o paciente metaboliza açúcares, gorduras, nutrientes e vitaminas. O exame também ajuda a descobrir quais exercícios são mais indicados para cada perfil e até mesmo a propensão ao desenvolvimento de determinadas doenças, como a diabetes tipo 2. O resultado demora, em média, 40 dias e o teste não é coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Fonte: Neuton Dornellas, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem)

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