Nova terapia contra as pedras nos rins usa ultrassom para conduzir cristais

Cientistas dos EUA desenvolvem ultrassom capaz de conduzir os cristais pelo corpo até o ponto de eliminação natural. O procedimento também pode ser usado para cessar a crise de dor e retardar a cirurgia

por Bruna Sensêve 26/01/2014 13:30

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“Um homem foi ferrado por uma arraia numa pescaria aqui perto, disseram que ele chorou uma tarde e uma noite pedindo aos companheiros que o matassem porque a dor era insuportável. Comentei o caso com Felipe, ele não ficou impressionado como eu esperava; disse apenas que isso ou era fita ou exagero ou lenda porque não existe dor insuportável”, conta o menino Lucas, no romance Sombras de reis barbudos, do autor goiano José J. Veiga. O personagem Felipe pode estar certo quanto ao homem ferrado. Porém, pelo menos de acordo com a medicina e as pessoas que já passaram por uma cólica renal, existe, sim, dor insuportável. No minuto em que é diagnosticado, o sofrimento causado por pedra nos rins — como os cálculos renais são popularmente conhecidos — deve ser interrompido tamanha a agonia.

Thiago Fagundes / CB / DA Press
Clique para ampliar e saber mais sobre o cálculo renal (foto: Thiago Fagundes / CB / DA Press)
Mesmo com poderosos analgésicos, o alívio total somente acontecerá quando a pedra for eliminada. Normalmente, os cálculos menores causam as angústias mais intensas, por serem leves e se movimentarem com maior facilidade. Em geral, são eliminados espontaneamente pelo canal ureter, que liga o rim à bexiga, o que pode demorar. Dispositivo desenvolvido pela equipe de pesquisadores da Universidade de Washington (EUA) pode ser capaz de acelerar o processo. Um ultrassom modificado em laboratório consegue mover os cálculos no interior do corpo, guiando a eliminação por meios naturais. “Nós desenvolvemos um ultrassom de baixa potência que pode mover pequenas pedras para reduzir a dor, os custos e o tempo de tratamento”, resume Michael Bailey, um dos engenheiros do projeto e integrante do Laboratório de Física Aplicada da universidade.

Os pesquisadores conduzem o primeiro estudo clínico com o aparelho em 15 voluntários. O trabalho tem alguns fatos curiosos. Parte do financiamento, por exemplo, vem do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica Espacial norte-americano, interessado no projeto porque os astronautas têm um risco aumentado de pedras nos rins durante as viagens espaciais. A condição é extremamente comum também na superfície terrestre. Calcula-se que uma a cada 10 pessoas passará por uma crise na vida.

O brasiliense deve ter um cuidado a mais. O clima quente e seco é favorável a essas ocorrências. “Não temos dados oficiais, mas colegas se referem a uma prevalência muito grande de cálculos renais em Brasília se comparada a outras regiões”, reforça o presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Daniel Rinaldi dos Santos. O calor excessivo e o clima seco fazem com que a pessoa perca água por outras vias, como a transpiração. E a reposição e a hidratação podem não ser feitas da forma adequada.

A urina é muito rica em solutos ou cristais que precisam ser eliminados para manter o equilíbrio interno do organismo. Esses cristais podem estar em concentração excessiva, causando uma precipitação e levando à formação de cálculos. O baixo volume urinário ocasionado pela pequena ingestão de líquidos também contribui para o problema.

A dor começa quando o cálculo, que está dentro do rim, se move. Iniciada nas costas, tende a mudar de lugar fazendo o caminho que a expelirá naturalmente. Esse é o caso clássico de cálculo renal. Os aparelhos de ultrassom de ondas de choque já são usados para tratar pedras maiores (de 0,8cm a 1cm) com a técnica conhecida como litotripsia. O dispositivo envia pulsos curtos de alta energia que quebram as pedas, tornando o processo natural possível.

O sucesso da eliminação natural, no entanto, depende do local e da trajetória do cálculo. Estudos tentaram até virar os pacientes de ponta-cabeça ou bater na região lombar, o que, na linguagem técnica, seria chamado de inversão e percussão, respectivamente. O objetivo era sacudir pequenas pedras, movendo-as da parte inferior do rim para o meio. No primeiro caso, as chances de eliminação natural são de 35%, probabilidade que sobe para 80% na situação seguinte.

Pouco invasivo
A proposta da equipe de Bailey é mais delicada e direcionada. Pulsos emitidos pelo aparelho de ultrassom modificado, um pouco mais fortes do que o utilizado para a imagem de fetos em gestantes, seriam suficientes para empurrar o cristal e orientá-lo até a saída. Os protótipos foram testados em modelos artificiais do órgão construídos em látex e nos rins de animais vivos. Esperam-se bons resultados com os voluntários humanos.

Os pesquisadores imaginam outras aplicações para o ultrassom, como reposicionar uma pedra antes ou durante a cirurgia e até mesmo deslocar uma grande pedra que obstrui o ureter para aliviar a dor do paciente e evitar o procedimento de emergência. Segundo Bailey, uma vez que a equipe confirme os resultados em humanos, o projeto estará pronto para buscar a liberação da agência sanitária dos EUA e ser levada ao mercado.

O chefe do Departamento de Endourologia da Sociedade Brasileira de Urologia, Ernesto Reggio, acredita que o trabalho é mais uma evolução na busca pelo tratamento menos invasivo. Ele conta que, hoje, uma técnica de cirurgia na mesma linha é muito usada. Um aparelho endoscópico bem fininho, chamado ureteroscópio, é guiado até o cálculo e o retira íntegro ou fragmentado.

O médico alerta que uma complicação muito comum permanece sem resolução. O cálculo pode ficar preso no ureter e desenvolver uma reação inflamatória. A partir desse ponto, ele não migraria mais. “Não sei como eles podem solucionar isso. Talvez, seja uma limitação para essa técnica. Eles estão querendo tornar o tratamento ainda mais minimamente invasivo, ou seja, não vai precisar nem operar ou quebrar a pedra.”

Cuidados a mais
Estima-se que os casos de cálculo renal aumentam 30% nos períodos mais quentes do ano. Por esse motivo, esse é um período de atenção redobrada para o aumento da ingestão de líquidos e a ingestão de sucos de frutas cítricas. Também indica-se a diminuição do uso de sal nos alimentos, o reforço com verduras, legumes e frutas presentes nas refeições diárias e atenção com os frutos do mar. Eles apresentam índice elevado de ácido úrico, um dos responsáveis pelo desenvolvimento dos cálculos renais.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
O melhor é evitar
Mesmo com a promessa dos cientistas do Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Washington (EUA) do surgimento de uma técnica que melhore o tratamento do cálculo renal, o objetivo deve ser sempre evitar o problema. Não só pela dor agressiva, mas porque as chances de reincidência estão entre 80% e 100%. Após a eliminação e a recuperação, é extremamente importante que o paciente busque saber as causas que levaram à formação da pedra. A recorrência é alta especialmente naqueles que têm histórico familiar, cerca de 70% dos indivíduos acometidos com a crise.

“Existem alguns distúrbios no metabolismo e uma predisposição genética que fazem com que esses cristais se precipitem de uma maneira mais fácil na urina. Tem que investigar a razão para evitar que se formem mais cálculos. Tive pacientes que já tiraram mais de 10. Às vezes, medidas simples evitam as novas formações”, orienta Daniel Rinaldi dos Santos, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Para quem já enfrentou o problema, a orientação é que urine pelo menos 2l por dia, o que demanda uma ingestão de água ainda maior. Não valem refrigerantes ou qualquer bebida industrializada, pois têm alto teor de sódio, que ajuda na formação das pedras.

No caso dos indivíduos que nunca tiveram o problema, valem os mesmos cuidados. A necessidade de ingestão de água depende de cada organismo. Mas a dica é checar a coloração da urina. “Se você está com uma urina muito escura, é porque está tomando pouca água. Se tem chance de formar cálculo, essa urina mais escura vai ter mais cristais para essa formação.”

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