'Tarado' ou 'vagabunda'; nada disso. Vício em sexo é doença internacionalmente catalogada

O impulso sexual excessivo não tem cura. O tratamento envolve acompanhamento médico e psicológico. Veja opinião de especialistas

por Letícia Orlandi Valéria Mendes 17/01/2014 09:01

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O Saúde Plena ouviu o psiquiatra forense e diretor da Associação Mineira de Psiquiatria, Paulo Repsold, e a psicóloga pós-graduada em Sexualidade Humana, especialista em Terapia Breve para diagnóstico e tratamentos de conflitos e disfunções sexuais, Sônia Eustáquia Fonseca, sobre a dependência em sexo. Os especialistas esclarecem a origem da doença, as formas de tratamento, as confusões e os preconceitos que dificultam a aceitação dos próprios pacientes e das famílias e a incidência na população. Leia abaixo:

Divulgação/Ninfomaníaca
'A pessoa tenta se controlar e não consegue. Ela pode até fazer um esforço, mas não terá sucesso. Como em qualquer outro tipo de dependência, com o passar do tempo, a pessoa repete mais intensamente ou com mais frequência para ter a mesma sensação. No princípio da doença o hábito pode até ser prazeroso, mas depois vira alívio', afirma Paulo Repsold (foto: Divulgação/Ninfomaníaca)
É doença!
Catalogado na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) o vício em sexo, como é conhecido popularmente, é denominado como impulso sexual excessivo. Em outro capítulo da mesma publicação é agrupado com outras doenças na categoria transtornos de hábitos e impulsos. “É uma compulsão comportamental como o vício em jogo ou em compras. A pessoa age de forma compulsiva a despeito de prejuízos a si própria ou a terceiros. O doente é escravo da compulsão, se assemelha muito ao vício de drogas lícitas ou ilícitas”, define o psiquiatra forense e diretor da Associação Mineira de Psiquiatria, Paulo Repsold.

Segundo ele, as compulsões são uma doença porque chegam ao cérebro por uma via única. “O doente repete insistentemente uma ação para sentir um alívio”, explica. Ao contrário do que se pode pensar, a busca não é pelo prazer que essa ação proporcionaria. “A pessoa tenta se controlar e não consegue. Ela pode até fazer um esforço, mas não terá sucesso. Como em qualquer outro tipo de dependência, com o passar do tempo, a pessoa repete mais intensamente ou com mais frequência para ter a mesma sensação. No princípio da doença o hábito pode até ser prazeroso, mas depois vira alívio”, afirma.

E sendo uma dependência, interromper de forma abrupta um vício comportamental - como é o do sexo – o dependente vai apresentar, ainda de acordo com o psiquiatra, um quadro clínico de abstinência como acontece com os viciados em drogas. Os sintomas são ansiedade, insônia e irritabilidade.

O impulso sexual excessivo é uma alteração quantitativa com aspecto qualitativo. “E aí entram as perversões sexuais. Além de muito sexo, o doente quer ter relações sexuais de uma forma bizarra, doentia”. O termo cientifico usado para esse tipo de comportamento compulsivo é parafilia e envolve, por exemplo, o sadomasoquismo e o voyeurismo.

Um pensamento que permeia a questão é se a pessoa com impulso sexual excessivo é necessariamente bissexual. “Ela pode até ter experiências homossexuais, mas não quer dizer que essa seja a orientação sexual da pessoa. Ter experiência homossexual não significa ser homossexual”, explica.

Entre as consequências diretas da enfermidade, o psiquiatra forense afirma que os dependentes em sexo estão mais expostos a doenças sexualmente transmissíveis. “Eles também correm mais risco de conflitos interpessoais que envolvem traição e brigas”, acrescenta.

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Apesar de a doença ser mais comum entre os homens, no filme 'Ninfomaníaca', Lars von Trier escolhe uma protagonista mulher, interpretada por Charlotte Gainsbourg (foto: Divulgação/Ninfomaníaca)
Origem e preconceito
Repsold diz também que o início do impulso sexual excessivo reúne vários fatores. “O paciente tem uma tendência pessoal, genética, uma fragilidade herdada. Se ele se expuser àquele fator em que é mais vulnerável, tem chance menor de conseguir se segurar”, afirma. No entanto, conforme o psiquiatra, não se pode ignorar as próprias experiências de vida que podem desencadear, de forma psicológica, a compulsão. “A pessoa acaba desenvolvendo uma compulsão à medida que a ação serve para distrair a ansiedade que ela tem em lidar com conflitos que lhe são insuportáveis. Ou seja, ela desvia a forma de lidar com o problema para uma outra atividade. Mas isso se dá inconscientemente”, frisa o especialista. Segundo ele, alguns comportamentos envolvem o prazer espontaneamente. “A pessoa repete, repete e acaba viciando”, diz.

Paulo Repsold conta que, na história da medicina, a pesquisa em vícios artificiais – como o de drogas, por exemplo, foi o que ajudou a compreender os vícios internos, onde se enquadram as compulsões. “O vício espontâneo foi percebido após o entendimento do vício em drogas”, conta. Para o especialista era comum – mas infelizmente ainda é – que as pessoas que sofriam de alguma compulsão fossem julgadas com termos como ‘vagabunda’ ou ‘tarado’.

O vício em sexo, mas também outros tipos de comportamentos compulsivos, está imbuído de discriminação. Segundo o especialista, esse preconceito contra doenças psiquiátricas tem dois alvos: a doença em si e o doente. “O preconceito com o doente manifesta-se no medo de a pessoa surtar, de não querer conviver com o paciente. Mas o pré-julgamento mais nocivo e que muitas vezes não é percebido é o de não reconhecer a doença mental. As pessoas julgam como uma questão moral. Não acreditam na doença, acham que a pessoa está inventando, que é um problema social, um problema estritamente psicológico”, observa. Paulo Repsold não nega a influência dos componentes sociais, mas exagera para provocar a reflexão: “ninguém fica esquizofrênico porque é pobre”. E reforça: “É doença mesmo. Não é opção. A pessoa sofre”.

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O vício em sexo, mas também outros tipos de comportamentos compulsivos, está imbuído de discriminação (foto: Divulgação/Ninfomaníaca)
Tratamento
Os transtornos de hábitos e impulsos, entre os quais se enquadra o impulso sexual excessivo, não têm cura. “É uma doença crônica, mas o tratamento médico, acompanhado do terapêutico, controla o comportamento compulsivo. Esse controle é considerado satisfatório quando os sintomas da doença desaparecem e esse desaparecimento persiste por um longo tempo”, explica. O psiquiatra vai buscar na hipertensão, doença que atinge 24,3% de brasileiros segundo o Ministério da Saúde, um exemplo para elucidar o tratamento. “Também não tem cura, o controle é feito com medicamento e a pessoa pode viver muito tempo e morrer de outra coisa”, cita. No entanto, ele ressalva, não é fácil conter os vícios comportamentais no início do tratamento. O importante, segundo ele, é saber que é possível o paciente levar uma vida normal.

Hoje em dia, aponta Paulo Repsold, a medicina trata o impulso sexual excessivo como parte de uma grande síndrome, a das compulsões comportamentais, respeitando a particularidade de cada uma delas. “Todas elas têm os princípios básicos da dependência”, elucida.

O tratamento é dividido em duas partes: o medicamentoso e o psicoterapêutico. Os psicofármacos ajudam a diminuir o estado de ansiedade e a compulsão. Repsold alerta que, em muitos casos, os comportamentos compulsivos - como o impulso sexual excessivo - vêm acompanhado de outra doença psiquiátrica. “Apenas para facilitar o entendimento, o tratamento seria como reformatar um computador. O paciente precisa se reabilitar mentalmente como era antes da doença. Para isso, é importante as duas vias de assistência, medicamentosa e terapêutica”, frisa.

O tratamento psicológico é importante porque a pessoa viciada em sexo necessita de autoconhecimento e treinamento para lidar com as consequências da doença, explica o psiquiatra. “O paciente precisa saber lidar, por exemplo, com o preconceito”.

Ao contrário do que se pode pensar, medicamentos para diminuir libido não fazem parte do tratamento. “A castração química não é eticamente aceita. É violência. Existem outras formas de abordagem da doença para preservar a vida sexual da pessoa”, reforça.

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