Em biografia, Luiza Brunet conta que resolveu redefinir sua imagem e reescrever a própria história

Luiza defende um visual mais natural e sem retoques de Photoshop por acreditar que as mulheres acabam desejando uma imagem irreal. Por isso, se há retoques em suas fotos, são extremamente sutis e não a transformam em uma pessoa que não é ao vivo

por Juliana Contaifer 17/01/2014 15:01

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Mesmo em uma sociedade cheia de padrões, nem todos são nocivos. Algumas celebridades nacionais e internacionais entendem a pressão de corresponder a uma imagem pré-definida — elas mesmas sofrem, e em versão potencializada, uma vez que são os veículos de propagação desses padrões —, e despontam como defensoras da autoestima e da naturalidade. A ex-modelo e empresária Luiza Brunet, por exemplo, tornou-se um símbolo de mulher bem resolvida. Já saiu em capas de revistas sem tratamento de imagem, aceitando os 51 anos de bom grado. Agora, resolveu retirar as próteses de silicone, símbolo máximo de sensualidade.

Monique Renne/CB/D.A Press
Luiza descobriu que a imagem da mulher madura e segura que é agora é mais rentável do que a de mulher casada (foto: Monique Renne/CB/D.A Press)
Em sua recém-lançada biografia, Luiza, ela conta que resolveu redefinir sua imagem e reescrever a própria história aos 45 anos, assim que se separou do ex-marido, o empresário Armando Fernandez, e se viu no fim de um ciclo. E foi aí que decidiu se tornar um exemplo para outras mulheres. “Um exemplo de que é possível, real; de que dói, mas passa; de que caiu, mas levanta; de que acabou, mas recomeça”, conta no livro. Com essa decisão em mente, descobriu que a imagem da mulher madura e segura que é agora é mais rentável do que a de mulher casada. É a cara da mulher moderna.

“Não fico em função do que os outros querem. Com o passar dos anos, é óbvio que o corpo muda — e se isso for um motivo de sofrimento, a vida será um inferno. Precisamos aprender a respeitar e aceitar o passar dos anos e encontrar formas e truques para ficar melhor. O próprio estilo de vestir precisa ser observado. Mulher elegante e discreta é mais jovial”, disse a ex-modelo, em entrevista à Revista.

Luiza defende um visual mais natural e sem retoques de Photoshop por acreditar que as mulheres acabam desejando uma imagem irreal. Por isso, se há retoques em suas fotos, são extremamente sutis e não a transformam em uma pessoa que não é ao vivo. “Sempre fui feliz com meu corpo quando era mais jovem e, agora, mais ainda. Gosto do que vejo no espelho, estou em paz. A carreira de modelo, ou mesmo para a mulher comum, é saber respeitar seu limite, levar em consideração seu biotipo”, explica. Para ela, autoestima e respeito ao estilo pessoal são os ingredientes necessários para se sentir livre.

Ciente de que sua imagem é muito conhecida desde nova, Luiza aceitou que não pode agradar a todos — como toda pessoa que vive de imagem, a cobrança é grande. “Envelhecer é difícil. Porém, se conseguirmos a delicadeza de aceitar o inevitável, passa a ser mais fácil. Uma mulher de 50 hoje é jovem se quiser. Basta manter o corpo saudável e a vida sexual ativa, e ter uma ocupação”, afirma. E é o que ela faz.

Divulgação
(foto: Divulgação)
No livro Luiza, da editora Sextante, a ex-modelo conta tudo. A infância pobre no interior do Mato Grosso, o alcoolismo do pai, a mudança para o Rio de Janeiro e o começo de sua carreira, os amores e desamores e o relacionamento com os filhos — revelações escritas pela jornalista Laura Malin, amiga da família.


Com autoestima em dia
A autoestima começa a ser formada na infância. “Nessa hora, só existe a preocupação com as características estéticas, não de personalidade ou habilidades. As crianças só têm referência de beleza. Se ela tem as orelhas um pouco para fora, os amigos vão fazer graça e os pais vão tentar disfarçar. E aí a criança já cresce achando que tem algo de errado com ela”, acredita o psicólogo Fábio Augusto Caló. No caminho para a vida adulta, fica mais fácil encontrar características que desagradam, uma vez que os padrões vão sendo definidos de acordo com a idade. Se tem 20 e poucos anos, a ordem é ter cabelos longos e corpo malhado. Aos 30, a pressão passa a ser ao redor do casamento. Aos 40, a vida deve estar encaminhada e estável. Cabelos brancos são descuido, estar acima do peso é negligência e se recusar a juntar os trapos, instabilidade. Para assumir as próprias vontades, é preciso uma boa dose de autoconfiança. “Não dá para gostar de si mesmo se o mundo inteiro diz o contrário.”

O processo de autoaceitação exige reflexão. A sociedade impõe um padrão difícil de ser seguido. “A terapia ajuda nesse aspecto, trabalha com o autoconhecimento e ensina que nem todas as demandas impostas precisam ser atendidas, que há valor e importância nas características de cada um”, aposta Fábio. E é importante se amar. Quem não acredita no próprio potencial tem dificuldade para estabelecer relacionamentos amorosos, fazer amigos e até em lidar com problemas no trabalho, uma vez que enxerga feedback como críticas ferozes. O contrário também pode trazer problemas. Sem flexibilidade para se adaptar a diferentes contextos, quem tem a autoestima alta demais pode ter dificuldades nas relações interssociais.

O caminho para a harmonia, acreditam os especialistas, passa pelo reconhecimento das próprias limitações e pela desistência de culpar os outros pelos problemas. “Fundamental é buscar se conhecer, resgatar e expandir possibilidades e potencialidades. E também reconhecer e aceitar limites, entre eles os mais sofridos. O desafio é estar o melhor possível consigo mesmo e o que isso significa varia de pessoa para pessoa”, explica a socióloga e psicoterapeuta Almira Rodrigues. Com a autoestima em dia, tudo fica mais simples. A cobrança do dia a dia diminui, os relacionamentos são mais duradouros e seguros e até o trabalho rende melhor. Fica mais fácil levantar todos os dias e encarar a rotina.

O gostar de si mesmo passa pela percepção de beleza. E em uma sociedade misturada como a do Brasil, é complicado seguir um padrão internacional, que preza pelo cabelo liso e o corpo magro. E a representação que se vê na tevê é totalmente contrária à realidade — a pesquisa “Mulheres na Mídia”, do Instituto Data Popular, revela que 56% das entrevistadas não enxergam as mulheres das propagandas como pessoas da vida real. “Em uma perspectiva psicanalítica, os processos de identificação são fundamentais. Quando a construção da autoestima está fundamentada em valores e padrões socialmente dominantes, as pessoas ficam reféns de suas demandas e interesses, comprometendo a construção de uma identidade própria”, explica Almira. Para a psicoterapeuta, as brasileiras — e os brasileiros —, acabam internalizando o padrão de beleza propagandeado pela mídia e pela sociedade e dão importância demais à necessidade de se encaixar. “A submissão a esses padrões e valores impede a construção de uma visão mais vasta em que os recursos estéticos coexistam com outros recursos e atributos.”

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Ana Lúcia Laudares, 72 anos, resolveu assumir os fios brancos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
A beleza dos 70

Em uma sociedade que obriga que os fios sejam tingidos em qualquer idade, os cabelos da professora aposentada e artista plástica Ana Lúcia Laudares, 72 anos, são branquinhos, mas nunca por descuido ou por preguiça de retocar. Ana Lúcia conta que começou a tingir os fios assim que entrou na faculdade — foi vítima de um trote cruel com descolorante e, desde então, sempre teve tintura na cabeça. “Fiz muitas mechas e luzes a vida inteira. Até que, no começo deste ano, cansei”, conta.

Incomodada com as visitas ao salão a cada 15 dias e com a necessidade de pintar os fios a cada vez que tinha um evento a comparecer, a aposentada resolveu radicalizar. Fez mechas brancas para amenizar o choque das raízes destoantes e foi cortando o excesso de cabelo colorido até o tom se normalizar. “Eu me olhava no espelho e só me perguntava se ia ter mesmo coragem de assumir a cabeça branca. Ficava me achando a cara da minha mãe, da minha irmã. Mas me sinto mais tranquila, mais à vontade, mais livre. Não adianta. Plástica, eu não vou fazer, não vou ficar mais menininha, bonitinha. Cada idade tem a sua beleza. E eu estou na beleza dos 70.”

A receptividade tem sido maravilhosa. Os amigos e parentes apoiam a iniciativa e são só elogios — a aposentada já recebeu apoio até de desconhecidos na fila do banco. “Uma senhora veio me dizer que eu estava maravilhosa.” Para Ana Lúcia, a beleza dos 70 anos é a alegria de viver. “Prefiro que a idade chegue mesmo, melhor do que ir embora cedo. A gente vai envelhecendo e vai aceitando o que vem, sou feliz comigo mesma. Gostaria de estar mais enxuta, mas é normal, todo mundo tem alguma queixa.”

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