Pelo direito de ter acesso à arte: audiodescrição 'traduz' bens culturais visuais para cegos

Acessibilidade ainda está distante. BH está entre as várias capitais brasileiras que não têm cinemas, teatros ou museus oferecendo a audiodescrição para deficientes visuais. Mapeamento mostra que, em 2009,70% da população cega da cidade nunca tinha ido ao cinema e 50% nunca tinha visto um filme em DVD

por Gabriella Pacheco 10/01/2014 09:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
AFP PHOTO / ABDELHAK SENNA
Em um mundo em que tudo é construído e planejado para quem dispõe de todos os cinco sentidos em perfeito estado, é 'comum' que o diferente seja ignorado, esquecido ou nem sequer cogitado (foto: AFP PHOTO / ABDELHAK SENNA)
“Na pintura, uma figura humana nua e de pele clara, com pés, mãos, braços e pernas imensos, está sentada sobre uma planície verde. Seu braço, dobrado, repousa sobre o joelho, a mão sustenta a cabeça, bem menor que as outras partes do corpo. Ao lado, há um cactos verde e um círculo amarelo, que remete tanto a flor de cactos, quanto ao sol sob o céu azul”.*

O texto acima é parte da audiodescrição de uma das obras de arte brasileiras mais famosas, o 'Abaporu', de Tarsila Amaral. Nesse caso, as palavras que aparecem na tela do seu computador substituem as palavras que seriam faladas, gravadas e tocadas junto à obra em um museu ou galeria. 'Mas para que 'substituir' o que a pintora conseguiu tão sensivelmente capturar por palavras?' - você deve se perguntar. O questionamento é bem natural, na verdade. Em um mundo em que tudo é construído e planejado para quem dispõe de todos os cinco sentidos em perfeito estado, é 'comum' que o diferente seja ignorado, esquecido ou nem sequer cogitado. Apesar de muito nova no Brasil, a audiodescrição é um recurso de acessibilidade essencial para dar 'visão' à quem não enxerga.

Arquivo Pessoal / Lívia Motta
Em São Paulo e no Rio de Janeiro algumas salas de cinema e teatros oferecem o serviço de audiodescrição para pessoas com deficiência visual. O público de Belo Horizonte só tem acesso à produtos visuais em projetos pontuais (foto: Arquivo Pessoal / Lívia Motta)
Imagine poder só ouvir um filme. Assim como outras formas de entretenimento, vide programas de televisão, espetáculos de dança e peças de teatro, o cinema é construído para quem vê. O silêncio entre as personagens, a transição de uma cena à outra e até a trilha sonora subindo gradativamente para criar tensão não funcionam sem estarem associados à imagem. Essa barreira manteve – e ainda mantém – muitos deficientes visuais longe de produtos culturais. A audiodescrição, técnica que faz a 'tradução' de todas as informações que compreendemos visualmente, tem transformado isso e promovido a inclusão dessas e outras pessoas que precisam de mais do que a imagem para entender e experimentar o mundo.

O servidor público federal Romerito Costa Nascimento, de 27 anos, teve baixa visão até os 13 anos e depois disso perdeu a visão completamente. No Instituto São Rafael, em Belo Horizonte, ele foi apresentado ao cinema quando a audiodescrição ainda não existia formalmente no Brasil. Na época, professores e funcionários transmitiam de maneira 'bem amadora' as informações das quais Romerito e seus colegas não tinham acesso. Mas o que ele tinha dentro de sala, não encontrava e ainda não encontra pela rua.

“Fui a um teatro recentemente e a peça tinha muitos diálogos, mas tinha também muita expressão corporal e até informações no cenário fundamentais para entendê-la. Era filosófica. Garanto que entendi 70%, mas não entendi 100%”, afirma ao tentar explicar a importância da técnica na vida do deficiente visual. “Nela os personagens faziam pão de queijo e colocavam para assar lá mesmo, no palco. Só fiquei sabendo disso depois que começou a cheirar. Para mim essa informação veio tardiamente e talvez ela teria causado sensações diferentes para o entendimento da peça se tivesse vindo antes. Agora eu preciso voltar lá com um amigo para que ele me descreva algumas coisas e eu entenda completamente”, completa.

Arquivo Pessoal
'O desejo de todos nós é poder ir ao cinema, ter acesso ao nosso fone de ouvido, sentar com nossa pipoca e refrigerante e ter acesso à arte como qualquer outra pessoa', comenta o servidor público Romerito Costa Nascimento (foto: Arquivo Pessoal)
Mas a persistência e sede de Romerito por teatro, cinema e outras artes não é comum à todos os deficientes. “A gente ainda encontra pessoas resistentes a acessarem bens culturais justamente pela dificuldade de acessibilidade”, afirma. No entanto, ele acredita que a audiodescrição é um “motor propulsor capaz de levar pessoas a acessarem esses bens”.

A teoria de que muitos deficientes visuais não tinham acesso à cultura chegou a ser confirmada em um mapeamento feito pela mestre e doutoranda em audiodescrição, Flavia Mayer, que estuda o tema desde sua graduação. O diagnóstico, realizado em 2009 em Belo Horizonte, mostrou que 70% dos cegos entrevistados nunca tinham ido ao cinema ou ao teatro. “O que chamou a atenção mesmo é que 50% das pessoas nunca tinham visto DVDs também. Isso mostra que o problema não era o deslocamento ou o acesso”, pontua.

Desde 2000, a Lei 10.098 estabeleceu que as redes de televisão tivessem, no mínimo, duas horas de programação semanal com audiodescrição. A proposta deveria ter sido implementada em 2004, mas em 2009 – época em que a pesquisa de Flavia foi realiza – a maioria dos brasileiros tinha sequer ouvido falar da técnica. Somente em 2011 a lei entrou em vigor e a especialista acredita que hoje o cenário mudou significativamente. “Pelo menos entre as pessoas com deficiência, a audiodescrição não é uma palavra completamente estranha. A TV pode ainda não estar muito acessível, mas as pessoas têm algum contato”, comenta.

Fora da caixa preta, no entanto, a acessibilidade não chega a todo lugar. Enquanto São Paulo e Rio de Janeiro têm alguns teatros e cinemas que oferecem o recurso, em Belo Horizonte o único momento em que cegos podem assistir à uma sessão de cinema é durante um festival anual com proposta inclusiva. “Não dá para dizer que BH está atrasada porque o Brasil ainda está se desenvolvendo na área. Locais com audiodescrição são muito pontuais hoje. Mas vejo as coisas acontecendo de maneira significativa”, afirma Flavia.

'Pipoca e refrigerante como qualquer outra pessoa'
Já Romerito é categórico ao dizer que Minas Gerais está muito aquém de outros estados brasileiros. “Existem projetos pontuais, instituições como a UFMG que se preocupam com o tema e tentam incluir a ferramenta, mas o público de massa não tem acesso a isso em BH, ao contrário do que acontece em outros estados”, diz.

Como a ferramenta de inclusão ainda é nova no país, fica difícil se falar no tamanho da demanda que existe pela audiodescrição. O servidor e ativista acredita que existe uma desconfiança entre os deficientes visuais em relação a esses bens. “A ideia que temos é de que se não vamos encontrar acessibilidade, então para que acessar? Isso gera a não criação de demanda. Aí escutamos produtores dizerem que não existe procura por produtos culturais, sendo que 3% da população brasileira têm deficiência visual ou são cegos”, destaca.

Romerito espera o cumprimento de um direito e dispensa o sentimento de pena. “O mais importante é mostrar que a audiodescrição é um investimento porque esse público vai consumir cultura. Não é esmola. Essas são pessoas que têm condição e vão consumir. A prova disso é que os projetos pontuais que existem têm adesão. Existe também uma legislação. Ela fala de acessibilidade, direito de acesso, e isso não tem que ser discutido, se é direito e é legal precisa que as instituições entendam que não é um favor”.

Ele ainda garante, que sendo clara ou não a demanda, “o desejo de todos (deficientes) é poder ir ao cinema, ter acesso ao seu fone de ouvido, sentar com pipoca e refrigerante e ter acesso à arte como qualquer outra pessoa”.

Arquivo Pessoal / Lívia Motta
'Estamos formando um novo público, que tem acesso às imagens por meio das palavras', afirma a audiodescritora e coordenadora do primeiro curso de pós-graduação no tema do Brasil, Lívia Motta (foto: Arquivo Pessoal / Lívia Motta)
Mais profissionais
Uma das ações necessárias para a mudança do cenário é aumentar o número de audiodescritores no país. Para tanto, a Universidade Federal de Juiz de Fora será a primeira no Brasil a lançar um curso de pós-graduação em Audiodescrição. Até então, os cursos brasileiros que ofereciam a capacitação tinham carga horária considerada insatisfatória para a exposição completa de conteúdo necessário pelo audiodescritor. O curso criado em Minas Gerais terá duração de um ano e meio e carga horária total de 405 horas.

Apesar de grupos difundirem a técnica para Pernambuco, Bahia, Amazonas, Ceará, Rio Grande do Sul e Brasília – além de Minas, Rio e São Paulo -, ainda não é possível dizer que ela seja conhecida por todos os cantos do Brasil. Uma das coordenadoras do curso e uma das pioneiras na implantação da técnica no Brasil, Lívia Motta, pontua que, para desconcentrar a atuação dos audiodescritores do Sudeste do país, a pós-graduação terá 50 vagas divididas em cotas por região brasileira. “Esse profissional é de fundamental importância porque ele permite o acesso à informação e ao conhecimento, ele abre portas e janelas para o mundo. Faz o deficiente sentir-se respeitado e igual”, destaca.

Audiodescritora desde 2005, Lívia não esconde o carinho que sente pelo trabalho que faz, tampouco a satisfação que tem de fazê-lo. “É fantástico”, confessa. “Essas pessoas sempre ficaram à margem de produtos audiovisuais justamente porque ir sem entender é sempre uma frustração e isso acabava os afastando. Agora não. Estamos formando um novo público, que tem acesso às imagens por meio das palavras”, observa.

Essas portas e janelas abertas têm promovido sede por mais e um novo uso para a audiodescrição ter surgido a partir da demanda de um grupo que uma vez se via excluído cultura e socialmente. A nova tendência é levar para eventos sociais, como casamentos, partos, festas e outras celebrações o uso dessa espécie de tradução também.

Arquivo Pessoal
William e Adriana foram o primeiro casal de cegos a ter um casamento 'traduzido' no Brasil (foto: Arquivo Pessoal)
Primeiro casamento traduzido do Brasil
O professor William Cesar Rodrigues, de 47 anos, e a pedagoga Adriana Barsotti, de 42, foram o primeiro casal de cegos a ter um casamento descrito ao vivo no país. Até então casamentos aconteciam, mas os detalhes do vestido, decoração e até as lágrimas ficavam por conta da imaginação de cada um. O contato prévio com a audiodescrição foi o que inspirou Adriana a inovar levando a técnica também para eventos sociais.

“Foi um dos melhores momentos da minha vida”, diz sem pestanejar. “As coisas na minha vida não são fáceis de se conseguir, então quando realizo um sonho como esse é a coisa mais magnífica. O casamento ficou perfeito e não tem uma pessoa que não diga que não foi o casamento mais lindo que já viram”, comenta.

Lívia descreveu a igreja, as roupas, a reação dos noivos e de seus parentes. O trabalho deu uma outra dimensão do que acontecia aos convidados também deficientes visuais e aos próprios noivos que tiveram uma percepção mais completa do que acontecia.

No final do ano passado a audiodescritora tinha compromisso marcado com o casal mais uma vez. Dessa vez para descrever o nascimento do primeiro filho deles. Diante da atitude de Adriana, provavelmente não será a última vez. “Para pessoas com deficiência tudo é mais difícil. Nossa sociedade não é inclusiva. Sou pedagoga e trabalho em uma ONG que ajuda crianças com deficiência visual. Para eu chegar a me formar não foi fácil. Eu tive que correr atrás de tudo e até hoje é assim”, afirma.

*Roteiro feito por Flavia Mayer

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA