Novidade no Brasil, bike sem pedal concentra aprendizado da criança no equilíbrio

A pediatra Marli Marra explica que é a partir dos 4 anos, quando a criança consegue subir e descer a escada alternando os pés e sem apoio, que é o momento em que ela está apta a pedalar

por Valéria Mendes 09/01/2014 09:00

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Flora completou três anos em dezembro do ano passado. Muito antes disso – do ponto de vista de quem ainda tem pouca quilometragem de vida -, com 1 ano e meio de idade, foi presenteada com sua primeira bicicleta. “Ela ganhou a bike antes de conseguir subir nela”, lembra o pai, o designer Ricardo Lodi. Mas foi aos 24 meses de idade que a menina começou a dar seus primeiros passos na magrela. Sim, você não leu errado. O modelo que foi trazido por uma tia que morava no exterior não tem pedais. Conhecida como ‘balance bike’ ou ‘run bike’, a opção é indicada para crianças entre 18 meses e 5 anos de idade. Apesar de ainda ser novidade no Brasil, é muito comum na Europa e Estados Unidos e já caiu na preferência das famílias na escolha da primeira bicicleta de meninos e meninas.

Arquivo Pessoal/Sérgio Sant´Anna
"A bicicleta sem pedal trabalha com o equilíbrio estático e dinâmico. Entre 1 ano e meio e 4 anos, esse é o objetivo para as crianças. Nessa idade, elas não estão prontas para pedalar. Esse modelo talvez possa provocar menos acidente uma vez que os pés vão estar livres para poder ajudar, mas não existem trabalhos científicos que comprovem isso" - Marli Marra, pediatra (foto: Arquivo Pessoal/Sérgio Sant´Anna)
Presidente do Comitê de Neurologia Infantil da Sociedade Mineira de Pediatria, Marli Marra considera o modelo sem pedal uma alternativa interessante. Ela explica que o desenvolvimento neuropsicomotor vai da cabeça para as pernas. “Primeiro a criança firma o pescoço. Na sequência, passa a brincar mais com as mãos e ganha o controle do tronco. Nas etapas do desenvolvimento, senta antes de aprender a engatinhar”, exemplifica. Segundo ela, a ‘balance bike’ vai trabalhar o equilíbrio estático (que é a criança parada) e o dinâmico (a criança andando ou correndo). “Aqui no Brasil a gente tem o hábito de dar a bicicleta com a rodinha, mas a criança menor não sabe pedalar”, observa.

A pediatra elucida que é a partir dos 4 anos, quando a criança consegue subir e descer a escada alternando os pés e sem apoio, que é o momento em que ela está apta a pedalar. “Precisa dessa coordenação”, pontua. Tem menino que pedala com 3 anos? “Sim, tem”, a especialista responde. “É igual falar, tem criança que fala um pouco antes. Mas estamos falando da média”, pondera. Para ela, o que é importante os pais terem em mente é ‘não querer passar o carro na frente dos bois. “Do ponto de vista neurológico antes dos 4 anos uma criança não está apta para pedalar”, afirma.

Outro ponto observado pela especialista é sobre o risco de acidente. Ela reforça que não existe trabalho científico que mostra que a ‘balance bike’ diminui o risco de quedas e tombos. No entanto, segundo ela, “como a criança controla essa bicicleta com os pés – ao contrário da outra que os pés estariam apoiados no pedal – parece que aumenta o controle de frear e diminui a chance de a bicicleta pegar velocidade sem controle”. A médica reforça a necessidade de equipamentos de segurança para garantir a tranquilidade da brincadeira.

Arquivo Pessoal/Ricardo Lodi
Flora, de 3 anos, ganhou sua primeira bicicleta antes de conseguir subir nela. Pesquisando na Internet, o pai, praticante de Mountain Bike, descobriu o modelo sem pedal (foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Lodi)
Bike de Flora é sucesso em BH
O pai de Flora conta que a filha começou a usar a ‘balance bike’ como se tivesse andando em pé. “Depois ela foi sentando, aprendendo a questão da direção – virava para um lado, depois para o outro – ganhando confiança. Em seguida vieram as passadas maiores e, posteriormente, começou a andar cada vez mais rápido. Ela já faz algumas descidas sem o pé no chão”, conta. O modelo da ‘balance bike’ da menina não tem freio e Ricardo diz que ela para o veículo com os próprios pés. “Quando tem uma descida que ela não tem confiança ela desce segurando a bicicleta no pé. Quando está segura, deixa embalar e vai. A decisão é 100% dela, no tempo dela, nunca interferi em nada”, diz. Já tem um ano que a belo-horizontina é dona de uma magrela.

O designer conta que descobriu o modelo sem pedal na internet. “Eu sou extremamente contra crianças que têm carrinho elétrico, é contra meus princípios, e queria oferecer um brinquedo que estimulasse a prática de atividade física. Vi a proposta do modelo sem pedal – bicicleta de treinamento que ajuda o ciclista a aprender direção e equilíbrio – e gostei”, relembra.

Flora usa a bicicleta em praças e parques da cidade. Por onde vai, segundo Lodi, desperta o interesse imediato não só das crianças, mas também dos pais de meninos e meninas que têm idade próxima da dela. “Querem saber por que não tem pedal, explico a proposta, perguntam onde comprei, o interesse continua e a conversa também”, conta. O designer diz que além de não ser fácil encontrar no Brasil, o valor aqui ainda é caro.

Veja vídeo de Flora e sua bike:



Sérgio Sant´anna/Arquivo Pessoal
Atleta profissional de BMX por 17 anos e campeão brasileiro por mais de vez, Sérgio Sant´anna escolheu a bicicleta sem pedal para ser a primeira do filho de 2 anos (foto: Sérgio Sant´anna/Arquivo Pessoal)
Raphaël, 2 anos: ‘quero pegar uma rampa’
Reconhecido pelos títulos conquistados em campeonatos brasileiros de Street BMX, Sérgio Sant´anna, mais conhecido como Serginho, já cortou todo o país em cima de duas rodas. Foram 17 anos como atleta profissional na modalidade e sua trajetória já lhe rendeu protagonismo em campanhas publicitárias e até homenagem de uma fábrica de bicicletas brasileira que intitulou um de seus modelos de quadro com o nome do atleta. Atualmente ele mora em Genebra, na Suíça, continua pedalando, mas sem focar em competições. Casado e pai de Raphaël, de 2 anos, optou pelo modelo sem pedal para o filho. Para ele, além de ser a maneira mais fácil de aprender o equilíbrio do veículo, a criança não se machuca. “A rodinha na bicicleta funciona quase como um andador. É uma falsa liberdade, a criança acha que está andando, mas quando tirar a rodinha, vai querer apoiar e vai cair. Sem rodinha, a criança precisa do equilíbrio. Pedalar é a impulsão que faz a gente andar. Na bicicleta sem pedal, a criança já sabe que se não colocar o pé no chão vai cair para o lado”, diz.

Arquivo Pessoal/Sérgio Sant´anna
"Nunca pedi a ele para levantar as perninhas, nunca forcei nada, eu sempre quis que ele aprendesse se fosse um desejo dele" - Sérgio Sant´anna pedalando com o filho (foto: Arquivo Pessoal/Sérgio Sant´anna)
Serginho conta que o processo de aprendizagem do filho se deu muito rápido. “Ele ganhou na data do aniversário e no mesmo dia já saiu andando sozinho. Ele caminhava com a bicicleta no meio das pernas. Uma semana depois, já conseguia andar rápido. Nunca pedi a ele para levantar as perninhas, nunca forcei nada, eu sempre quis que ele aprendesse se fosse um desejo dele. Quatro meses depois já tirava o pé do chão. Ele já consegue andar reto e vai direto para bicicleta com pedal sem a rodinha”, diz. O pai de Raphaël conta que diariamente o filho dá uma volta pela manhã. “Às vezes, ele pega a bike, olha para mim e diz: ‘quero pegar uma rampa’. Nessas horas eu explico que ele ainda é pequeno para isso”, conta.

Thiago Tiganá/Arquivo Pessoal
O Bike Anjo BH tem usado o método de retirar o pedal para ensinar adultos a andar de bicicleta pelas ruas da capital mineira (foto: Thiago Tiganá/Arquivo Pessoal)
Sem pedal para adultos
Thiago Tiganá é voluntário do Bike Anjo BH, projeto onde ciclistas experientes ensinam gratuitamente as pessoas que querem aprender a pedalar nas ruas com segurança. Ele conta que a técnica de retirar os pedais da bicicleta é usada para ensinar adultos a aprenderem a usar o veículo. “Fazemos isso para que a pessoa se preocupe apenas como equilíbrio sobre a bike, sem se preocupar em pedalar. Propomos tirar um pé, depois outro, para ir sentindo a bicicleta. A gente sente que o aluno fica mais seguro, ele não tem que dividir a preocupação de se equilibrar e pedalar ao mesmo tempo”, afirma.

Ele explica que a estratégia foi adotada pelos voluntários do Bike Anjo São Paulo e incorporada por aqui. “Os resultados são ótimos”. Segundo Thiago, como as bicicletas usadas pela equipe de voluntários são dobráveis, é possível tanto retirar os pedais como dobrá-los. “Depois do treinamento de equilíbrio, voltamos os pedais à posição normal e temos resultados muito bons”, comenta.

O ciclista considera a ‘balance bike’ uma opção interessante para as crianças. “Acaba estimulando mais o desenvolvimento do equilíbrio delas”, afirma. Thiago diz que ainda não teve o prazer de ver uma criança em BH com esse modelo de bicicletinha. Mas a pequena Flora está por aí, com a sua magrela de madeira visitando parques e praças da capital mineira aos fins de semana. E eles ainda vão se esbarrar...



Um vídeo que que circula entre ciclistas na Internet, mostra a desenvoltura de uma criança em sua bicicleta sem pedal. Vale a pena!

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