Relacionamentos são principais fatores que afetam o sono dos adolescentes

Estudo indica que os problemas de relacionamento são os fatores que mais levam adolescentes a terem dificuldades para dormir. Em média, as relações conturbadas reduzem o tempo de descanso em pelo menos uma hora por dia

por Flávia Franco 09/01/2014 17:00

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Problemas na hora de dormir, como insônia e má qualidade do sono, acometem indivíduos de todas as idades. Segundo especialistas, a televisão, o computador, a ingestão de substâncias estimulantes e a falta de regularidade estão por trás do transtorno. Esses fatores atrapalham a produção da melatonina, hormônio responsável pela indução do sono. Um novo estudo, porém, sugere que os vínculos sociais podem ser os grandes responsáveis pelas noites maldormidas entre os adolescentes.

David J. Maume, professor de sociologia na Universidade de Cincinnati (EUA), analisou as mudanças nos padrões de sono de cerca de mil pessoas com idade entre 12 e 15 anos. Segundo o estudo publicado, na edição do mês passado, do Journal of Health and Social Behavior, os adolescentes têm o sono mais saudável — de maior duração e maior qualidade — quando se consideram parte integrante das escolas em que estudam e mantêm amizades positivas, por exemplo. “Jovens que têm amigos positivamente sociais tendem a se comportar dessa maneira, o que inclui cuidar da saúde, obtendo um bom sono”, explica o autor.

CB / DA Press
Clique e veja as dicas para uma boa noite de sono (foto: CB / DA Press)
Nessa faixa etária, as relações conturbadas com os pais e os colegas reduzem a duração média do sono de mais de nove horas para menos de oito horas por noite, indica a pesquisa. “As relações sociais favoráveis são fatores de proteção. Os vínculos que estimulam a autoestima e a aceitação em grupo vão interferir também no padrão de sono. Por outro lado, relações sociais conflituosas geram sofrimento psíquico, que pode se manifestar por meio das alterações de sono”, explica Thiago Blanco, psiquiatra do Hospital de Base do Distrito Federal e não participante do estudo.

O especialista reforça que os laços sociais interferem além da qualidade do sono dos mais jovens. “Indivíduos que têm relações sociais problemáticas ou alterações psiquiátricas estão mais dispostos ao tabagismo, ao consumo de álcool, a um padrão alimentar disfuncional e à ausência de rotina no dia a dia. Isso tudo pode alterar o padrão de sono”, afirma.
As conclusões da pesquisa conduzida por Maume seguem o mesmo caminho. De acordo com o estudo, o monitoramento do comportamento dos jovens, especialmente na definição da hora de dormir, determina fortemente hábitos saudáveis. “O estudo mostra que os pais que mantêm o controle sobre os filhos são menos propensos a vê-los entrar em apuros ou usar drogas e álcool (…) As crianças que geralmente têm menos horas de sono, à medida que se tornam adolescentes, demandam, portanto, que os pais fiquem mais vigilantes”, alerta Maume.

O estudo também indicou que as meninas estão mais suscetíveis a sofrer com alterações do sono. Blanco explica que isso é consequência do fato de os quadros de depressão serem mais comuns entre elas. “A frequência de transtornos mentais em espectro depressivo e ansioso é muito maior em mulheres do que em homens, e isso também vale para a adolescência”, explica.

Alterações biológicas
Mudanças em relação aos padrões de sono da infância são comuns na chegada da adolescência. Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono, nessa fase, há uma mudança de padrões biológicos. Dormir deixa de ter um aspecto matutino. As crianças pequenas acordam cedo e dormem cedo. Já o jovem passa a dormir tarde e acordar tarde. “Mas isso não é um problema. Trata-se de um fenômeno normal do amadurecimento. Acontecem muitas transformações, como o crescimento, o desenvolvimento e a inserção social” explica o também pediatra.

Ainda assim, Moreira ressalta que as questões biológicas não são suficientes para explicar as alterações de sono na adolescência. Além de mais opções de lazer, os jovens são mais pressionados pelas exigências acadêmicas. “Eles têm uma agenda muito cheia: escola, aulas de inglês, atividade extracurriculartes etc. Sem contar que dormem cada vez mais tarde por influência dos eletrônicos” diz.

Outro aspecto que compromete o sono na adolescência é a falta de regularidade. Segundo Moreira, o adolescente dorme em média seis horas por dia de segunda a sexta. No fim de semana, eles tentam compensar o tempo perdido e acabam dormindo nove ou 10 horas. “Quando o débito do sono, que é a média do sono durante a semana e do fim de semana, é maior que duas horas, significa que o grau de privação é grande”, alerta.

Os mais velhos costumam se adaptar a esse deficit com menos prejuízos. No caso dos mais jovens, os estragos preocupam mais. “O que acontece na fase adulta é que, com o aumento dos compromissos, muita gente se adapta a essa realidade. O adulto jovem fica mais tolerante à privação e não resulta em tantos problemas como no adolescente, que ainda está em fase de crescimento”, diz Moreira. Segundo o especialista, adolescentes precisam dormir nove horas por dia.

Tratamento não é só com remédio
Para resolver os problemas de sono durante a adolescência, médicos e pacientes geralmente recorrem aos medicamentos. Segundo David J. Maume, autor do estudo que comprova a grande influência dos laços sociais sobre distúrbios como insônia, há outras formas mais eficientes de abordagem. “Minha pesquisa indica que é necessário olhar além da biologia para tratar esses jovens. Maior aconselhamento e envolvimento dos pais na vida deles são formas menos invasivas do que as prescritas por médicos”, sugere.

O psiquiatra Thiago Blanco, por outro lado, acredita que cada caso precisa ser analisado individualmente. “Essa é uma questão delicada e que precisa ser entendida com cautela. Para que nós possamos estabelecer as melhores estratégias terapêuticas, medicamentosa ou não, é preciso fazer um estudo detalhado e apurado”, pondera o médico do Hospital de Base do Distrito Federal.

Outro elemento fundamental elencado pelo psiquiatra é a chamada higiene do sono, relacionada aos cuidados básicos que devem ser tomados no momento de dormir. Quarto escuro, cama confortável e travesseiro adequado estão entre as precauções. “Também deve-se evitar o uso de computador antes de dormir, televisão no quarto e alimentos estimulantes no período noturno”, enumera Blanco.

Especialista em sono, Gustavo Moreira completa as dicas. Também é necessário manter horários regulares para dormir, tanto durante a semana como no fim de semana, e nunca variar o horário do sono mais do que uma hora. “Medidas simples, como diminuir pela metade a luz da casa e desligar a tevê cerca de uma hora antes, podem ser suficientes. Disciplina é a palavra chave quando se fala em qualidade de sono”, aconselha. (FF)

Arte: Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Arte: Soraia Piva / EM / DA Press)

Um ciclo preocupante
“Muitos adolescentes ficam acordados até tarde. Só que têm horário certo para levantar no dia seguinte e ir à escola. Em uma cidade grande, saem da cama ainda mais cedo por causa do tempo de deslocamento. E, ao chegar em casa, quando não há um monte de atividades, o adolescente dorme durante a tarde. Vira um ciclo que atrapalha o sono e pode gerar problemas. Essa é uma fase em que a necessidade de dormir é maior. Em média, um adolescente precisa de umas nove horas de sono”

Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono

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