Especialistas defendem que pessoas alegres, gentis e desapegadas ganham em longevidade

Estudos americanos constatam que a felicidade vinda do ter dura sete semanas, enquanto a felicidade conquistada com o ser dura de oito semanas a anos

por Carolina Cotta 05/01/2014 12:01

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A dentista Maíra de Freitas, de 47 anos, é mais feliz depois que teve a coragem de sair do "seu mundinho" para morar um ano no Timor Leste (foto: euler júnior/EM/D.A Press)
Ser é melhor do que ter. Isso podia ser apenas uma máxima há algum tempo. Hoje é uma constatação científica. Pesquisadores de psicologia positiva da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, descobriram que pessoas felizes não precisam ter mais que o suficiente: casa, comida e roupa para poder viver. Essas pessoas teriam mais saúde, imunidade, disposição e alegria. Ganhariam, inclusive, uma média de oito anos a mais em longevidade simplesmente por serem mais alegres e mais otimistas. E um dos grandes componentes do otimismo seria o desapego.

Para essa corrente da psicologia moderna, difundida a partir dos anos 2000, o tratamento é focado em reforçar o lado positivo das pessoas, e não o problema, como na psicologia tradicional. Uma das estudiosas do assunto no Brasil, a psiquiatra Sofia Bauer, autora do livro 'Cartilha do otimismo' (Wak Editora), explica que, segundo esses estudos americanos, foi constatado que a felicidade vinda do ter dura sete semanas, enquanto a felicidade conquistada com o ser dura de oito semanas a anos. “É a felicidade, por exemplo, daquelas férias com as amigas em que a pessoa não tinha dinheiro para nada, mas morreu de rir.”

Segundo Sofia, estaríamos vivendo uma revolução da felicidade em que o que conta é ser livre, alegre, grato, gentil, uma pessoa despojada e desapegada de bens. “Isso será uma tendência. As pessoas se apegam muito a coisas materiais, a pessoas e a tradições, e assim pensam que precisam ‘ter que’ para se sentir bem. Todo foco nesse ‘ter que’, sejam bens materiais ou obrigações, tira o prazer das pessoas. Ser uma pessoa boa é muito melhor que estar preso ao materialismo. O ter não preenche as pessoas”, defende a especialista.

Mas por que o ser humano se apega? Por que acredita depender de coisas e pessoas para ser feliz? Dois aspectos têm grande influência: a depressão e a baixa autoestima. Segundo a psiquiatra, os deprimidos são, muitas vezes, compulsivos por compra e bebida, pessoas ciumentas que acreditam precisar viver através de outra pessoa. Já a pessoa com baixa autoestima, que foi “deseducada”, criada como se fosse pior, errada, feia, busca no apego às coisas uma forma de se sentir melhor. “Não é o outro que traz a felicidade. Não é o ter alguma coisa. É o ser que traz significado e propósito à vida.”

ENXERGAR O OUTRO

A dentista Maíra de Freitas, de 47 anos, é mais feliz depois do Timor Leste. A experiência de morar um ano no Sudoeste asiático transformou sua vida para melhor. Antes da viagem, em 2005, ela se definia como uma pessoa tradicional: casada, mãe de família, profissional estabelecida. A mudança começou na pós-graduação em bioética, em que estudou os excluídos sociais. “Mexeu comigo. Até então via a vida de um jeito diferente e comecei a perceber o outro de uma forma mais ampla. Comecei a sair de mim, do meu mundinho”, lembra.

Quando descobriu um concurso do Ministério da Educação que levaria 50 brasileiros ao Timor Leste para ensinar língua portuguesa à população, ela se inscreveu sem perspectivas de vencer os 17 mil inscritos. Mas conseguiu a vaga. Nunca tinha saído do país. O casamento estava em crise. A única filha já tinha 15 anos. Maíra queria colocar em prática o que aprendera na pós, mas também queria uma forma de sair daquela situação. Do resultado da seleção ao embarque foram 30 dias. Para arrumar duas malas, fechar o consultório, fechar conta no banco. Ela não sabia o que seria dali para a frente.

manoel guimarães/divulgação
A psiquiatra Sofia Bauer diz que as pessoas pensam que precisam "ter que" para se sentir bem (foto: manoel guimarães/divulgação)

“Foi quando começou minha experiência do desapego. A sensação era de que tinha morrido. Que aquela minha vida, o que tinha vivido até então, estava acabando. Sentia que algo ia mudar e que eu não seria a mesma pessoa. Iria para um país desconhecido, cheio de guerrilhas. Seria uma situação-limite”, lembra Maíra, que relata suas vivências no livro Destino: Timor Leste (Editora Seven). A filha a apoiou e incentivou. O ex-marido achou uma loucura e não falou mais com ela desde o comunicado da viagem. “Praticamente nos separamos no aeroporto.”

O Timor mudou Maíra fisicamente. Tanto que muitos não a reconheceram quando voltou. A mulher formal voltou com o cabelo grande, queimada de sol e com roupas e acessórios típicos do Sudoeste asiático. E também com uma nova visão do mundo. “Convivi com pessoas que não têm quase nada do ponto de vista material, mas que são fortes, alegres, cheias de valores. Pessoas que convidam você para compartilhar do pouco que têm”, lembra. Depois do Timor, as coisas materiais deixaram de ser importantes. “Vendi meu carro ao ir e comprei outro ao voltar, até perceber que não precisava mais.”

A filha costuma dizer que tem uma mãe antes e pós-Timor. Maíra se desapegou até do controle. Percebendo que de lá não tinha como observar a filha, ficou mais flexível, mais tolerante. “Desapego, para mim, é ter consciência de que somos mais insignificantes do que pensamos ser. Não somos insubstituíveis. Não somos tão importantes assim. Não precisamos, portanto, ficar presos a uma imagem que temos de nós mesmos. Podemos ser outra pessoa. Podemos morar em outro lugar. Podemos ter novos amigos. Podemos ter um novo trabalho. A clareza disso nos dá a possibilidade de mudar.”

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