Mente e cérebro são uma coisa só? Debate é polêmico entre especialistas

Apesar de todo o avanço científico das últimas décadas, a diferenciação entre mente e cérebro continua sendo tema de debate entre especialistas

por Paloma Oliveto 31/12/2013 13:00

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Fernando Lopes/CB/D.A Press
(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
Primeiro foi a religião; depois, a psicanálise. Por fim, chegou a neurociência. Desde a década de 1990, com a possibilidade de “radiografar” o interior do cérebro graças à ressonância magnética, o funcionamento do órgão tem sido utilizado para explicar os mais diversos aspectos do comportamento humano. Entes abstratos, espírito e mente ganharam um concorrente que tem tamanho, forma, peso; pode ser visto e observado.

O mundo vive o século do cérebro. Basta pesquisar o PubMed, banco de dados da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, para se constatar a popularidade do tema. O sistema, que faz uma busca em mais de 3 mil periódicos científicos, mostra que, nos últimos cinco anos, foram publicados 58.002 artigos contendo a palavra-chave “atividade cerebral”. Enquanto isso, o número de textos com o termo “alzheimer” não chega à metade: 20.895. O rastreio no PubMed também revela o crescimento no interesse dos pesquisadores. Em 2006, a ferramenta encontrou somente um artigo sobre atividade cerebral. Em compensação, o registro, em 2012, chegou a 12.670. O resultado parcial de 2013 mostra que, neste ano, 11.314 textos científicos a respeito foram divulgados até novembro.

O prestígio da neurociência é justificado. Esse campo, que abriga pesquisadores de diversas especialidades, estuda o sistema nervoso em suas mais variadas facetas. O entendimento dos aspectos microbiológicos, fisiológicos e estruturais dos neurônios — assim como seu desenvolvimento e interação — é o que vai permitir encontrar tratamentos para males tão diversos como demência e insônia. Outra promessa dos investigadores do cérebro é devolver a mobilidade a tetraplégicos, caminho que tem sido percorrido com sucesso pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis.

O estudo do mais complexo órgão do corpo também tem ajudado psicólogos e psiquiatras a compreenderem melhor distúrbios desafiadores, de causas desconhecidas, e que impingem grande sofrimento ao homem. Manias, tristezas aparentemente injustificadas, obsessões: os males da alma ganham, cada vez mais, explicações neurocientíficas. Falhas na conexão de redes de neurônios, padrões anormais de ativação de determinadas regiões cerebrais, falta ou excesso na produção de substâncias químicas — pesquisas mostram que tudo isso tem forte correlação com problemas para os quais, há até pouco tempo, não existiam justificativas físicas.

Uma coisa só?
As evidências científicas deixam margem para a dúvida: com a supremacia do cérebro, onde entra a mente? Apelidados por colegas de “neurocêntricos”, alguns pesquisadores decretaram o fim dessa entidade. Emoções, sensações, consciência, personalidade — tudo isso seria comandado por um órgão máquina, regido por interações químicas e fisiológicas. No lugar do livre arbítrio, alterações na estrutura do cérebro estariam por trás de violência e vício, por exemplo.

Fábio Cortez/DN/D.A Press
O biólogo Sidarta Ribeiro: 'Dizer que cérebro e mente são uma única coisa é um reducionismo' (foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press)
“Para o futuro, alguns neurocientistas enxergam uma transformação dramática na ciência criminal”, afirma a psiquiatra Sally Satel, coautora do livro Brainwashed: the seductive appeal of mindless neuroscience (Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência insensata, em tradução livre). “David Eagleman, do Baylor College of Medicine’s Initiative on Neuroscience and Law, espera que ‘nós, um dia, possamos descobrir que muitos tipos de comportamentos ruins têm uma explicação biológica básica e, no fim, pensar sobre a tomada de decisões ruins da mesma forma como pensamos sobre qualquer outro processo físico, como diabetes ou doenças pulmonares”, critica a especialista em dependência química, para quem cérebro e mente não podem ser entendidos como uma coisa só.

“Existe uma base biológica para cada aspecto da mente, mas ela tem regras próprias, leis próprias. Dizer que cérebro e mente são uma única coisa é um reducionismo com o qual não concordo”, afirma o biólogo Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade de Natal. Pesquisador do sono e dos sonhos, Ribeiro destaca que muitas publicações sobre esses dois processos têm corroborado observações feitas por Sigmund Freud, o criador da psicanálise, no início do século passado. Em uma das suas mais célebres obras, A intepretação dos sonhos, o médico austríaco, por exemplo, argumentou que, entre suas funções, os sonhos simulariam expectativas de recompensas. “Sem o circuito da dopamina, as pessoas não sonham”, compara Ribeiro, lembrando que esse neurotransmissor é associado, justamente, às recompensas.

Para o brasileiro, “há muita arrogância” entre aqueles que rechaçam a psicologia simbólica na busca pela compreensão do comportamento humano. Sidarta Ribeiro garante que “explicar tudo pela neurociência é moda, e moda passageira”. “Nos anos 1980, tudo era explicado pelos genes, há 50 anos, eram os hormônios…”, ressalta o neurocientista. Na definição do biólogo, a mente pode ser definida como a “interação do cérebro com o mundo e com outros cérebros”.

Problema aberto
Diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida lembra que a questão cérebro/mente é muito mais antiga que a neurociência e já discutida filosoficamente na Grécia antiga. Daí, surgiram duas visões: a reducionista, segundo a qual o cérebro produz a mente assim como o rim secreta a urina, e a não reducionista, que defende que mente e cérebro se relacionam, mas a primeira não é totalmente dependende do segundo.

No fim do século 19, o médico americano William James, fundador da psicologia moderna, introduz novas ideias sobre a questão. Ele levanta duas possibilidades: o cérebro produz a mente ou o órgão serve de ferramenta para a manifestação da mente. Segundo Moreira-Almeida, essa segunda hipótese pode ser comparada a um aparelho de televisão (o cérebro), que recebe o sinal (a mente). “Se ligo a tevê, vejo um programa, mas, se mexo na antena, vou distorcer a imagem. Se estragar a televisão, não vou ver as imagens, mas elas continuam existindo. O aparelho é só o transmissor”, explica.

O psiquiatra e neurocientista defende que essa questão seja mais debatida, sem preconceitos. “O grande desafio é entender que esse é um problema aberto, ninguém pode achar que ele já está resolvido”, diz. “Apesar de escâneres de cérebro serem deslumbrantes e a tecnologia uma maravilha sem precedentes, temos de levar em conta que cérebro e mente são duas coisas diferentes. O domínio neurobiológico diz respeito às causas físicas, os mecanismos por trás de nossos pensamentos e emoções”, define Sally Satel. “Já o domínio psicológico, o reino da mente, diz respeito às pessoas — seus desejos, intenções, ideais e ansiedades. Ambos são essenciais para uma compreensão completa sobre a forma como nos comportamos”, acredita.

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