Aparelhos e aplicativos permitem gestão mais eficiente da glicose

Um bom controle da glicemia é fundamental para uma vida plena. Mas a pessoa com diabetes deve estar aberta a aprender e ter consciência de seu perfil

por Letícia Orlandi 27/12/2013 09:31

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Monique Renne/CB/D.A Press
Gerir bem a glicose é um dos grande desafios para a pessoa com diabetes. Novos aparelhos e aplicativos para smartphone ajudam a conseguir bons resultados (foto: Monique Renne/CB/D.A Press )
O médico Rodrigo Nunes Lamounier, doutor em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor clínico do Centro de Diabetes de Belo Horizonte, destaca que, além de novas formas de monitoração da glicose, a própria formulação da insulina foi sendo modificada ao longo do tempo para facilitar o tratamento do diabetes. Considerada uma das decobertas mais importantes da medicina do século XX, ao lado da penicilina, seu desenvolvimento está longe de chegar ao fim. “Em 2014, estamos esperando a chegada ao mercado brasileiro de novas substâncias com perfil de longa ação, que diminuem drasticamente o risco de hipoglicemia”, explica Rodrigo.

 

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A monitoração também passou por fases bem ‘rústicas’. Não muito longe, ali nos anos 80, as fitas precisavam ser inseridas na urina para apresentarem um resultado nem sempre confiável. A hipoglicemia não pode ser verificada dessa maneira e mesmo a hiperglicemia não era apontada de forma precisa.

Os aparelhos evoluíram para permitir a medição por meio de uma gotinha do sangue na ponta do dedo, mas não pararam por aí. “A tecnologia das agulhas para perfuração do dedo melhorou; hoje o exame dura apenas 5 segundos e precisa de uma gotinha muito pequena de sangue para realizar a leitura. Junte-se a isso os monitores contínuos de glicose e as bombas de insulina e temos pessoas com muito mais segurança e muito menos temerosas de um grande fantasma para quem tem diabetes – desmaiar na rua em função da hipoglicemia”, destaca o médico endocrinologista.

CDBH / Divulgação
Para Lamounier, outra evolução em curso na incorporação da tecnologia no tratamento do diabetes é a ampliação do acesso (foto: CDBH / Divulgação)
As bombas de insulina, que hoje são acopladas aos monitores contínuos de glicose, parecem recentes, mas já passaram por 20 anos de evolução tecnológica. Hoje elas são menores, discretas e práticas. E representam uma grande evolução em relação ao tratamento tradicional.

No sistema que ainda é o mais comum, com as canetas e seringas de insulina, geralmente são aplicadas, em média, quatro doses ao longo do dia. Só que essa injeção de ação prolongada pode não corresponder às variações e necessidades do corpo durante o dia. No caso da bomba, o sensor é inserido por meio de um catéter na região abdominal e se comunica a um dispositivo computadorizado do tamanho de um smartphone, que tenta ‘imitar’ o funcionamento do pâncreas. Para isso, ela deve ser programada de acordo com a necessidade de cada pessoa, para que as doses sejam liberadas de acordo com o relógico biológico e o perfil de cada um, a exemplo da alimentação e da carga de atividade física.

O aparelho fornece insulina de duas maneiras. A primeira é a liberação contínua, que mantém a glicose no sangue estável entre as refeições e durante o sono; e uma dose maior comandada pelo usuário, quando ele percebe que a glicemia está muito elevada, ou mesmo antes das refeições, para compensar determinados alimentos.

Entretanto, a bomba exige, da mesma maneira que o tratamento tradicional, um compromisso com a verificação de glicose no sangue ao longo do dia; a disciplina na contagem de carboidratos e o ajuste das doses com base nos níveis de glicose no sangue, na quantidade ingerida de carboidratos e na atividade física. Tudo isso depende da pessoa com diabetes. Com orientação médica, é claro, mas no fim da cadeia é ela que vai tomar as decisões cotidianas.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Incorporação da tecnologia ao cotidiano da pessoa com diabetes vai depender do perfil, dos hábitos de vida, da idade, e também do momento de vida em que a pessoa está (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Por isso, uma das grandes esperanças para o futuro próximo do tratamento de diabetes é o pâncreas artificial. Embora de funcionamento semelhante ao da bomba de insulina, o aparelho, também de uso externo, será capaz de realizar os cálculos e liberar a dose automaticamente, sem a necessidade de intervenção do usuário. Segundo Lamounier, já há exemplos bem sucedidos, principalmente para funcionar durante a noite, e seguem os estudos para o funcionamento pleno com o indivíduo acordado.

 

Em setembro deste ano, a Administração de Remédios e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos aprovou o uso da primeira bomba do tipo. Chamado MiniMed, o aparelho produzido pela companhia Medtronic inclui um sensor que envia um alerta se os níveis estão muito baixos e, se a pessoa está dormindo, inconsciente ou incapaz de reagir, a bomba desliga durante duas horas. Um sistema similar já teve o uso aprovado na Europa. O MiniMed foi aprovado para uso em pessoas portadoras de diabetes maiores de 16 anos, embora os próximos estudos possam permitir o uso a partir dos 2 anos de idade.

Pessoas diferentes precisam de métodos diferentes
O médico desfaz um mito comum entre as pessoas que recebem o diagnóstico do diabetes: se você tem que aplicar muitas doses de insulina ao longo do dia, é porque sua doença é mais grave. “Não é. Na verdade, a doença estará muito mais bem tratada com a aplicação de vária doses precisas ao longo do dia”, esclarece o especialista.

O endocrinologista lembra que a incorporação da tecnologia ao cotidiano da pessoa com diabetes vai depender do perfil, dos hábitos de vida, da idade, e também do momento de vida em que a pessoa está – se pretende engravidar, se viaja muito, por exemplo - e outras questões de saúde enfrentadas por ela. “Existem bombas – ainda não no Brasil, mas isso é questão de tempo – que permitem até a prática de natação sem a necessidade de retirar o aparelho. Outros modelos permitem o acionamento por controle remoto, ou seja, sem a necessidade de levantar a camisa para apertar o botão. O ajuste do dispositivo para cada paciente é praticamente artesanal, individualizado, mas a alma central desse processo continua sendo o processo de educação e capacitação da pessoa”, destaca Lamounier.

Divulgacão
Em setembro deste ano, a Administração de Remédios e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos aprovou o uso do primeiro pâncreas artificial (foto: Divulgacão)
Gerir bem a glicose é um dos grande desafios para a pessoa com diabetes. “Ainda que possamos contar com a contínua evolução da tecnologia nos próximos anos, essa motivação é fundamental. A pessoa em tratamento deve estar aberta a aprender e buscar conhecimento. Há pessoas que não têm acesso à bomba de insulina e medidor contínuo que têm ótimo controle da glicose; e há outras que utilizam aparelhos sofisticados mas não conseguiram ainda alcançar essa boa gestão da própria vida. O mais importante é aprender a fazer do limão, uma limonada”, brinca o doutor em Endocrinologia.

Para Lamounier, outra evolução em curso na incorporação da tecnologia no tratamento do diabetes é a ampliação do acesso. A barreira do custo ainda existe, principalmente nos países emergentes, mas existe também a barreira da informação. “Aos poucos a tecnologia pode ser incoporada por todos. Enquanto em muitos países as canetas são utilizadas por cerca de 80% das pessoas com diabetes, no Brasil o método mais comum ainda é o frasco e a seringa. Entretanto, é possível a aquisição da caneta por meio do Programa Farmácia Popular, mas muitos não sabem disso ou enfrentam dificuldades com a reposição do estoque”, explica Lamounier. A esperança é que, com a evolução contínua, alguns métodos possam se tornar mais baratos e acessíveis.

Três em cada dez brasileiros têm smartphones
Mas a matéria não era sobre tratamento de diabetes? Sim, e a informação acima tem tudo a ver com a nossa conversa – a tecnologia que traz mais qualidade de vida para quem tem a doença metabólica. Existem hoje vários aplicativos para a ‘gestão da glicemia’, que facilitam a contagem de carboidratos e o registro das taxas de glicemia. Esses aplicativos tornam mais fácil o processo de compreensão e interpretação das variações da glicose. “Se a pessoa tiver ferramentas que facilitem esse registro, mais disciplinada ela será, mais informações serão passadas ao médico e melhor será o controle do diabetes”, explica Rodrigo Lamounier.

Entre os aplicativos recomendados pelo médico, existem dois em português:
-O Gliconline, que oferece controle glicêmico; cálculo de calorias, carboidratos, gorduras e proteínas; lembrete de medicamentos e cálculo de doses de insulina. Disponível para Apple iOS e Android, é um app pago: custa R$53,03.

-O Glicocare, que oferece diário glicêmico e diário alimentar, além de lembretes de medicamentos, diário da atividade física e anotações. Além de disponível para Apple iOS e Android, é gratuito.

E há ainda várias opções gratuitas em inglês, como o Glucose Buddy, que permite registrar, além das taxas glicêmicas, o peso, a pressão arterial e montar gráficos para visualizar melhor o comportamento das taxas. O site Healthline.com, um dos mais populares nos Estados Unidos, listou os 13 melhores aplicativos para controle do diabetes de 2013. Clique aqui para conferir a lista: www.healthline.com

Carolina Fernandes/Divulgacao
Volta monitorada da Pampulha: experiência mineira na avaliação de atletas com diabetes é caso único no mundo (foto: Carolina Fernandes/Divulgacao )

E vem mais novidade por aí
Em fevereiro de 2014, será realizada a 7ª Conferência Internacional de Tecnologias Avançadas e Tratamento para Diabetes. Rodrigo Lamounier representará Minas Gerais no evento com dois trabalhos, sendo o primeiro sobre monitoração contínua de glicose e seus efeitos na redução de episódios ‘surpresa’ de hipoglicemia; e o segundo sobre uma experiência única do mundo – o monitoramento de 67 atletas com diabetes em corrida de longa distância – no caso, a Volta da Pampulha, com 18 quilômetros de extensão. “É o maior estudo desse tipo do mundo”, afirma o especialista.

O estudo avalia o efeito da variabilidade da glicose em atletas com diabetes durante a corrida, comparando o sensor de monitoramento contínuo com a glicemia capilar. A análise aconteceu dentro do Projeto Volta Monitorada de Belo Horizonte, ação pioneira e gratuita lançada em 2009 e que busca a inserção de pessoas com diabetes no ambiente esportivo. “Nosso principal objetivo é aumentar a saúde e diminuir os preconceitos”, afirma Lamounier, idealizador da ação.

Para este trabalho, foi feita uma comparação entre atletas que mediram sua glicemia de forma contínua – a monitoração contínua é feita no interstício das células – e atletas que utilizaram a glicemia capilar, ou seja, colheram a gotinha de sangue na ponta do dedo. “Podemos dizer que são compartimentos biológicos diferentes, e conseguimos comprovar que a atividade física intensa tem efeito nessa relação. Entretanto, este efeito não é suficiente para induzir um erro grave no tratamento”, explica o endocrinologista.

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