Sangue do paciente pode tratar lesões e acelerar recuperação de atletas

A terapia foi usada em atletas para acelerar a recuperação de problemas nos principais ligamentos da perna. Em menos de um mês, a melhora foi de 90%, mas especialistas alertam que falta um controle sobre o efeito geral da técnica no corpo

por Flávia Franco 06/12/2013 10:30

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As lesões fazem parte do cotidiano tanto de atletas amadores e profissionais quanto de sedentários. Em alguns casos, a solução do problema envolve tratamentos longos, como no rompimento ou na lesão de tendões. Uma equipe de cientistas italianos propõe o uso do PRP (plasma rico em plaquetas) para reduzir o tempo de recuperação e ainda melhorar a funcionalidade do tecido lesionado. Mesmo com as vantagens apontadas, a terapia gera polêmica entre especialistas.

Prática comum no esporte de alto rendimento — o golfista Tiger Woods, o tenista Rafael Nadal e o astro do basquete Kobe Bryant são exemplos de esportistas que fazem uso do tratamento —, o PRP usa o sangue do próprio paciente para acelerar a recuperação. Em uma centrífuga, é separado o plasma rico em plaquetas dos demais componentes do sangue coletado. No caso da terapia proposta pelos cientistas da Universidade de L’Anquila, o PRP é injetado no tendão comprometido e as plaquetas começam a estimular o crescimento de células e a cicatrização.

Anderson Araujo / CB / DA Press
Clique para ampliar e entender como funciona a autoterapia (foto: Anderson Araujo / CB / DA Press)
De acordo com o ortopedista Weldson Muniz, o tendão — que une músculo e ossos — fica lesionado quando as fibras de colágeno que fazem parte da sua composição têm um potencial elástico menor que o do tecido muscular. “O tecido dos tendões é um pouco mais rígido. Então, pode romper por algum evento traumático ou por excesso de impulsão”, afirma o médico do Hospital Santa Luzia.

Os tratamentos para rupturas normalmente são cirúrgicos, mas, em caso de lesões mais leves, segue-se o método mais conservador de imobilização e repouso por cerca de seis semanas. Foi justamente em busca de um tratamento menos demorado para atletas que Alice La Marra começou o estudo com PRP na Itália. “Estamos trabalhando em uma cidade onde muitas pessoas praticam esportes. Os médicos da equipe nos enviam atletas com dor e incapacidade funcional”, conta.

La Marra realizou procedimentos em 80 atletas com tendinoses (o tipo mais grave de lesão), sendo que 50 tinham o problema no tendão de Aquiles e 30 no ligamento patelar. A pesquisadora afirma que as áreas selecionadas são aquelas onde há comprometimentos com maior gravidade. Segundo Arnaldo Hernandez, especialista em medicina esportiva do Hospital Sírio-Libanês, isso acontece porque esses tendões são os mais usados no corpo. “Qualquer movimento que se faça com os membros inferiores, utilizam-se muito os dois.”

Os voluntários foram submetidos a três sessões de PRP em um intervalo de 21 dias. Ressonâncias magnéticas — realizadas 30 dias e um ano após o último procedimento — indicaram as vantagens. Os pacientes com problemas no tendão calcâneo apresentaram uma melhora de 80% da dor e de 53% da funcionalidade. Já os pacientes com lesões no ligamento patelar apresentaram melhoras de 75% e 50% em relação à dor e à funcionalidade, respectivamente. A pesquisadora também constatou que houve uma recuperação de 90% da integridade dos tecidos lesionados. “O PRP permite a regeneração dos tendões e a redução da dor graças a seu poder regenerativo e às propriedades anti-inflamatórias. Comparado a outras terapias, ele permite uma recuperação mais rápida e mais eficiente”, garante.

Controverso
Segundo Arnaldo Hernandez, o tratamento é polêmico justamente pela falta de um controle exato de como ele funciona. O médico acredita que o PRP não faz nada que os tratamentos tradicionais não façam.

O caso do ex-jogador Ronaldo o Fenômeno, que sofreu uma ruptura do ligamento patelar, foi citado por Hernandez como exemplo de que os tratamentos convencionais podem ter bons resultados. Segundo o médico, quem tem uma lesão desse tipo dificilmente consegue recuperar o nível de desempenho. “O Ronaldo conseguiu, e isso é tanto mérito dele, que se empenhou, quanto de quem tratou e criou condições para que esse tendão pudesse se recuperar.”

De acordo com o especialista, nas intervenções tradicionais, é preciso diminuir o ritmo de atividades físicas. Como não querem fazer isso, atletas acabam optando pelo PRP. “Eles arriscam para evitar uma lesão maior. Aparentemente, o tratamento não traz prejuízos. Então, o atleta não sai prejudicado”, diz.

Hernandez alerta que, no PRP, as plaquetas estimulam o crescimento de tecidos — como o colágeno, que forma os tendões —, nervos, pele e vaso, uma das razões do receio de especialistas. “Não tem como separar o fator de crescimento específico do colágeno para realizar o tratamento adequado com PRP.” Segundo o médico, não há impedimentos legais para a prática no Brasil.

Para saber mais: Não é doping
Outro tratamento polêmico que envolve a retirada de sangue do paciente é o EPO (eritropoietina), um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais. A injeção da versão sintética desse hormônio faz com que a medula óssea libere mais glóbulos vermelhos na corrente sanguínea, aumentando a quantidade de oxigênio no sangue e, consequentemente, a capacidade de energia para exercícios aeróbicos. Essa foi uma das técnicas usada pelo ciclista Lance Armstrong, banido do esporte no ano passado. O ex-atleta também recorria à transfusão de sangue para melhorar o desempenho nas competições. Cerca de 500ml de sangue eram retirados dele e armazenados em bolsas refrigeradas para serem reintroduzidos na véspera das competições, aumentando a oxigenação. As duas práticas são consideradas ilegais, sendo classificadas como doping. Já o PRP, por não causar aumento de desempenho, não entra nessa categoria.

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