Mulheres mostram que resistir à violência doméstica é possível; conheça histórias de resiliência

Para romper o ciclo de violência a que são submetidas no próprio lar, as mulheres precisam ultrapassar diversas barreiras: medo, vergonha e preconceito. Não raro, perdem a casa e a dignidade. Recomeçar é difícil, mas não impossível

por Gláucia Chaves 05/12/2013 09:00

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REUTERS/Ulises Rodriguez
A salvadorenha Evelyn Hernandez Sanchez, de 30 anos, é uma das raras sobreviventes da violência doméstica na América Latina que não tem medo de mostrar o rosto. No último dia 25/11, milhares delas foram às ruas para protestar no 'Dia Internacional para acabar com a violência contra a mulher' (foto: REUTERS/Ulises Rodriguez )
O que leva uma mulher que apanha do marido a continuar com ele? Como é possível para uma mãe assistir a seu filho apanhar até quase perder a consciência sem fazer nada? O tema violência doméstica é cheio de tabus e condenações. Inúmeros estudos tentam entender por que vítimas dessa natureza, por vezes, não conseguem sair da condição de agredidas. Um deles, feito pela enfermeira Liliana Maria Labronici, fala sobre resiliência. Na física e na engenharia, o termo refere-se à resistência dos materiais. Seria, grosso modo, a quantidade de trabalho necessária para deformar um corpo até seu limite elástico. Há cerca de três décadas, a noção de resiliência passou a ser foco de estudo de psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde. Haverá um limite da violência para o corpo e para a mente humana?

Quando analisada sob a ótica da violência doméstica, especificamente contra a mulher, a resiliência passa a ser uma ferramenta importante para entender como alguém pode se constituir ou reconstituir, de maneira positiva, diante de uma situação adversa, ainda que o ambiente seja desfavorável. Desde 2004, Liliana Labronici, ex-professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná, estuda o impacto da violência na saúde da mulher. Em sua mais recente pesquisa, apresentada no XXXI Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em outubro, ela chegou à conclusão de que a capacidade de superação não é inerente ao ser humano. Diante de uma situação de trauma, o sujeito pode ou não se recuperar com facilidade. A boa notícia é que a característica pode ser estimulada.


Ela explica que o conceito já é amplamente usado na oncologia, mas, quando o tema é mulheres que sofrem violência, a literatura ainda é esparsa. “Não há estudos suficientes, mas já sabemos que a violência é um trauma que deixa marcas além das físicas.” Transtornos psíquicos, por exemplo, são comuns entre as vítimas. Contudo, ela enfatiza que ser resiliente não quer dizer que a pessoa está bem o tempo inteiro. “É um processo dinâmico, com altos e baixos”, completa.

Fernando Lopes/CB/D.A.Press
Cristine Gentil, editora da Revista do Correio, pediu-me um pequeno texto de apresentação sobre os desenhos escolhidos para ilustrar esta matéria. O mais antigo foi publicado em 25/11/2000, o mais recente, em fevereiro de 2012. Eles fazem parte, portanto, de uma longa série dedicada ao triste tema da violência contra mulheres. Infelizmente, muitos desenhos ainda serão feitos para acompanhar outras sofridas, terríveis notícias. Arte serve para alguma coisa? Não tenho certeza. Mas tenho, sim, a certeza de que precisamos juntar vida e beleza, juventude e velhice, homem e mulher, cidade e natureza. Basta de diferenças e preconceitos, de separação. Isso é nosso atraso, nossa infelicidade. - Fernando Lopes (foto: Fernando Lopes/CB/D.A.Press)
A tentativa de estimular a resiliência reside, basicamente, na análise do contexto em que a vítima está inserida, como o familiar, o social e o cultural. Uma vez identificado o núcleo mais carente, é feito o trabalho para suprir os elementos ligados às necessidades humanas básicas. Por exemplo: se a violência está afetando a capacidade de a mulher se alimentar ou dormir, trabalha-se primeiro esses problemas. “Todos esses elementos vão repercutir na saúde dela como um todo”, explica Labronici.

Manter contato com entes queridos, segundo a pesquisadora, é outra estratégia-chave para que um trauma dessa magnitude seja superado. A aproximação, muitas vezes impedida pelo agressor, precisa ser estimulada. O processo de mobilização interna, ela explica, precisa começar o quanto antes. No estudo que fez, Liliana conta que acompanhou cinco mulheres em processo de superação. Assim como ela, a Revista do CB procurou exemplos de ex-mulheres, ex-namoradas ou garotas violentadas (às vezes, sexualmente) pelo pai em situação de risco.

Resiliência
A noção de resiliência emergiu nos países anglo-saxões nos anos de 1950, nos trabalhos de psicologia clínica e psicopatologia. Nos Estados Unidos, os estudiosos que verdadeiramente abriram caminho para a sua utilização foram os psicólogos americanos Emmy Werner e, posteriormente, Norman Garmezy e Michael Rutter.
Na psicologia, a resiliência tem sido foco de interesse na pesquisa há mais de 20 anos, e as publicações que surgiram no fim da década de 1990, relacionavam-se com populações em situações de risco como vítimas de violência, crianças e adolescentes em situação de rua, entre outras adversidades. Atualmente, essa tendência continua, porém, com menor intensidade.

Fonte: Processo de resiliência nas mulheres vítimas de violência doméstica: um olhar fenomenológico, de Liliana Maria Labronici


Rede de apoio
Buscar ajuda é fundamental para escapar da violência. Há opções de redes de amparo que vão além da denúncia pura e simples. No âmbito governamental, há a Casa Abrigo, espaço de acolhimento criado em 1993 para mulheres vítimas de violência e seus dependentes (meninos de até 12 anos e meninas sem limite de idade). O endereço é sigiloso e o local é vigiado por policiais 24 horas por dia. Karla Valente, coordenadora do programa de abrigamento da Secretaria de Estado da Mulher, explica que o encaminhamento acontece depois da denúncia. A mulher segue para a casa e os agentes buscam seus pertences, caso ela não possa ir sozinha.

Na maioria das vezes, as mulheres são encaminhadas à noite, período em que as ocorrências são mais comuns. Normalmente, elas ficam com os filhos em um quarto separado. Há oito quartos na casa. Há o acolhimento de assistentes sociais e psicólogos, que realizam uma espécie de diagnóstico, para identificar o nível de risco que ela está sofrendo. Atendimento médico, transferência da escola dos filhos para uma mais próxima da Casa e novos documentos, caso os antigos tenham sido destruídos pelo ex-companheiros, são as primeiras providências. “Lá, atualmente, há trabalhos como aulas de canto, música, artesanais e arte terapia”, detalha Valente.

As abrigadas ainda recebem informações sobre a dinâmica da casa. “Há uma escala de serviços dentro da casa”, explica. “Isso também é terapêutico. É importante que a casa seja como outra qualquer.” Logo, cada uma é responsável por lavar as próprias roupas e manter o quarto limpo, como fariam em suas próprias casas. As mulheres e seus filhos recebem seis refeições por dia. Depois, há a limpeza da cozinha, decidida por escala, toda segunda-feira.

Voltado especificamente para vítimas de abuso sexual, o projeto ViraVida também é uma opção para vítimas de violência. Jair Meneguelli, presidente do Conselho Nacional do Sesi e idealizador, diz que a ideia é dar mais que atendimentos superficiais, como apenas cama, comida e chuveiro. “Queremos dar oportunidade para quem quer mudar de vida”, resume. As atividades começaram em 2008 e têm como principal mote dar cursos de formação profissional às jovens.

Por ano, a carga horária de aulas chega a 900, contando com atendimento psicossocial, da família, médico e odontológico, e uma ajuda de custo de R$ 500 por mês. “Depois que os jovens se formam, nos encarregamos de correr atrás de empresas públicas e privadas para garantir que tenham emprego.” Meneguelli diz ainda que os jovens são acompanhados por mais um ano. Caso precisem de cursos extras, ganham bolsa novamente. Contando o auxílio, o transporte, a alimentação, gastos com professores, psicólogos e com a equipe do conselho nacional, ele estima gastar cerca de R$ 1.500 por jovem. Gastar, não: investir. “Na Fundação Casa, a antiga Febem, se gasta R$ 7mil por menor infrator. E nem adianta. Nós resgatamos dignidade.”

O projeto acontece em todo o Brasil. Além do sistema “S” — formado por Senai, Sesc, Sesi e Sebrae —, Meneguelli convida toda uma rede de enfrentamento, formada por conselhos tutelares, igrejas, Ministério Público, Centro de Referência e quem mais puder ajudar. A partir dessa rede, entra em contato com crianças exploradas sexualmente e os cursos são oferecidos. “Eles chegam muito machucados, são anos de rua”, comenta. “Mas é perceptível que a cara fechada e a desconfiança desaparecem assim que passam a receber instrução, informação.” Os que aceitam participar não desistem. Segundo Meneguelli, a taxa de evasão é em torno de 11% — contra 20% das pessoas que fazem os cursos pagos do Senai, por exemplo.

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