Infâncias roubadas: mulheres que resistiram ao abuso físico, sexual e psicológico

A resiliência foi fundamental para essas mulheres que tiveram de superar inimigos dentro do próprio lar

por Gláucia Chaves 05/12/2013 09:03

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Os seis primeiros anos de vida, a chamada primeira infância, são cruciais para o desenvolvimento. Esse período é o momento em que devem ser criadas condições para que a pessoa possa se desenvolver física, emocional e psicologicamente. Um ambiente saudável, com amor e atividades estimulantes, é indispensável para que a criança se torne uma adulta com relações sociais satisfatórias, habilidades motoras normais, linguagem bem desenvolvida e capaz de contribuir positivamente para a sociedade. Sandra, Rita e Luana não tiveram a sorte de nascer em uma família que desse à primeira infância o valor merecido. As três têm histórias de vida parecidas: mãe falecida, pai alcoólatra, falta de condições de estudo, violência física, sexual e psicológica. Ter encarado o lado perverso do ser humano, porém, não é a única coisa que as une. Em comum, há também a tão sonhada resiliência, que, mais cedo ou mais tarde, chegou para todas.

Quando morava com os pais, Sandra não sabia ler nem escrever. Era impedida de estudar. Passou a viver apenas com o pai, que a espancou diversas vezes. Fugiu de casa, mas não encontrou uma sorte melhor nas ruas: além de mais violência, conheceu as drogas e o álcool. Acabou engravidando. Sua filha tinha apenas três dias de nascida quando sua paciência chegou ao fim. “Olhei para ela, pensei ‘estou morando na rua’ e procurei um abrigo”, conta. A ideia de que seria uma mãe que não teria o que dividir com a filha quando esta estivesse em idade escolar, a assustou sobremaneira. O momento de se levantar e mudar a situação precária que havia se tornado sua vida havia chegado.


A recepção nos primeiros abrigos que procurou, contudo, não foi muito amigável. “Muitos viram a cara. Veem uma pessoa de aba reta, bermuda, e já a excluem da sociedade. Isso é chato, você ser uma pessoa e a sociedade te ver de maneira diferente”, desabafa. Quando encontrou um que a aceitou, foi encaminhada para o Projeto ViraVida. Assim como Sandra, muitas mulheres violentadas têm nos filhos um fôlego a mais para lutar.

Fernando Lopes/CB/D.A. Press
Um ambiente saudável, com amor e atividades estimulantes, é indispensável para que a criança se torne uma adulta com relações sociais satisfatórias, habilidades motoras normais, linguagem bem desenvolvida e capaz de contribuir positivamente para a sociedade (foto: Fernando Lopes/CB/D.A. Press)
O nascimento da menina fez com que a jovem conseguisse vislumbrar algo além de pancadas, socos e chutes gratuitos. “Este ano, consegui superar minha dependência do álcool, consegui meu cantinho para nós duas”, orgulha-se. “Não quero que ela tenha a vida que eu tive.” Sandra está quase no primeiro ano do ensino médio. Com a bolsa que recebe do programa, aluga uma quitinete em São Sebastião. “Ainda me dói falar, vem aquela raiva, mas estou aprendendo a lidar com meus sentimentos. Não tenho vergonha do meu passado. É uma superação para mim.”

Rita não é de muitas palavras. Em menos de 10 minutos, conta sua história: tinha 8 anos quando os pais se separaram. Quando a mãe morreu, em 2009, ela e as duas irmãs passaram a morar com o pai. Ele, alcoólatra, agredia as filhas sem dó. Apesar de não ter consumado o ato sexual com a filha, o patriarca protagonizava cenas obscenas e gostava de fazê-la de plateia. Aos 15 anos, fugiu de casa. Foi para a casa de uma pessoa da escola. Não deu certo. Passava temporadas nas casas de “colegas de farra”. Relações pouco profundas e a vida desregrada e ilusoriamente livre resultaram no vício em drogas e em álcool. Rita, além de usar, também traficava.

Aos 16 anos, engravidou. A ideia de ter um filho a assustou, mas serviu como um estalo. Parou de beber e de usar drogas. Dois anos depois da descoberta, conheceu o ViraVida, por meio de um pastor. “Estou aqui há um ano, voltei a estudar”, conta. “Só depois que tive meu filho, acordei para a vida.” Deixar os vícios adquiridos não está sendo fácil, ela admite. Porém, a fé, o filho e a vontade de estudar a impulsionam. Hoje, ela tem até planos — luxo a que não se permitia quando não sabia nem onde ia passar a noite. “Quero fazer faculdade, inglês. Às vezes, quero ser bombeira; outras, professora de educação física”.

Luana é mais falante. Depois que a mãe morreu, ela e os irmãos iam para as ruas pedir dinheiro. O pai raspava sua cabeça, para que ela se parecesse com um menino. Para garantir o dinheiro do Bolsa-Família, ia para a escola só de vez em quando. O pai era contra: para ele, estudar era “coisa de vagabundo”.

Na verdade, o medo do pai era que alguém descobrisse que ele a estuprava. “Ele dizia que, se eu contasse para alguém, as pessoas me chamariam de prostituta”, relembra. Após os abusos, o pai a espancava. Luana gostava de estudar. Quando podia, fugia e ia para as aulas. Uma professora estranhou o comportamento da menina, sempre machucada, agressiva e arredia. Luana contou como era sua rotina e a docente se horrorizou. “Ela me disse que isso não estava certo, mas meu pai sempre me disse que era normal primo se casar com prima e pai ser avô também, ao mesmo tempo.” Luana passou por abrigos e casas de acolhimento, mas eles só podiam ajudar com a denúncia formalizada, o que só aconteceu quando o irmão quase perdeu a consciência de tanto apanhar.

A vida no abrigo foi o que deu novos sonhos aos irmãos. Além de tratamento psicológico, os dois conseguiram estudar. “Eu tinha muito medo e raiva das pessoas, porque eu achava que elas me olhavam diferente”, confessa Luana. O pai agressor não tem mais a guarda de Luana e de seu irmão. Luana mora sozinha. Apesar de se sentir triste por não ter mais família em Brasília além do irmão, que ainda está no abrigo, por não ter 18 anos completos, a vida ainda a anima. “As pessoas que estão ao meu redor são a minha nova família. Hoje, eu sei que tomei essa decisão não só por meu irmão, mas por mim.”

“Comecei a apanhar quando tinha 2 anos”
Maria está desde o começo de novembro na casa abrigo. O caminho foi longo até lá e começou cedo. O resultado é uma mulher de fala embargada, olhos colados no chão. Desde a infância, ela sabe muito bem o significado literal de violência. “Comecei a apanhar quando tinha 2 anos”, conta. O pai, autor das agressões, abusava sexualmente da filha. Aos 13 anos, ela tentou se matar. As duas primeiras tentativas foram com a ingestão de água sanitária. Na terceira, ela tomou 40 comprimidos de uma vez. “Era muita coisa na minha cabeça”, completa.

Revoltada e frustrada, ela fugiu de casa. Na rua, foi estuprada por dois homens. Conheceu o pai da primeira filha e sentiu que a vida poderia melhorar. O marido, contudo, passou a bater nela. “Faltou pouco para ele me matar”, relembra. “Cheguei ao hospital com a cara toda inchada, encheu de gente para me olhar.” No meio disso tudo, a filha, já adolescente, também se casou com um homem violento. Morreu assassinada por ele, depois de uma surra.

Alguns anos mais tarde, Maria conheceu o segundo marido. A essa altura, morava nos fundos da casa da mãe. A violência, agora, não era mais física, mas psicológica. Xingamentos eram constantes. Assim como o primeiro companheiro, ele era usuário de drogas e alcoólatra. O casal se separou após 13 anos de casamento. “Eu estava sempre dando chance, para ver se ele faria um tratamento para largar as drogas”, conta. Em 2010, ela levou o primeiro tapa. Fez a denúncia, mas acabou aceitando reatar.

Um ano depois, o marido tornou-se possessivo e a pressão psicológica aumentou. Maria tornou-se uma prisioneira dentro de casa. Ninguém da família tinha permissão para visitá-la. Quando já não aguentava mais, ela esperou o marido sair para o trabalho, chamou um caminhão de mudanças e foi para a casa do irmão. Uma semana depois, a irmã do marido entrou em contato. “Ela me disse para fazer um Boletim de Ocorrência, porque ele estava falando que me mataria.”

Maria já tinha conhecimento da casa abrigo, mas nunca se imaginou lá. O marido sempre descobria onde ela se escondia. Nem mesmo a medida protetiva o fez recuar. Ela resolveu ceder. “Aceitei ir, mas quero ir para longe. Perdi todo o amor.” O processo de cura ainda está no início, mas ela ainda espera pelo homem que a fará feliz. “Achei que seria para o resto da vida, mas ele só me humilhou. Algumas palavras são piores que apanhar. Não vejo a hora de ser feliz.”

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