Música para crianças ultrapassa benefício das habilidades motoras e alcança ganhos sociais e emocionais

Pais podem estimular o contato com as melodias antes mesmo do nascimento, afirmam especialistas

por Correio Braziliense 01/12/2013 14:00

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Quando o garoto Vinícius nasceu, já estava inscrito em aulas de musicalização. A mãe, Alessandra Torres, 37 anos, assistiu a uma reportagem sobre o tema e resolveu, ainda grávida, colocar o filho, hoje com 3 anos, na lista de espera do projeto Música Para Crianças (MPC), da Universidade de Brasília (UnB). “Fiquei interessada pela possibilidade de estimular, entre outras coisas, a expressão corporal e a musicalidade nele”, lembra a servidora pública. Quando o menino completou 9 meses, foi chamado para começar as aulas e, desde então, não saiu mais.

Casos de mães e pais como Alessandra, preocupados em propiciar mais estímulos e aprendizados musicais aos filhos, estão, a cada dia, mais comuns. Ricardo Freire, professor do Departamento de Música da UnB e fundador do projeto MPC, afirma que, de fato, a procura pelas aulas tem se tornado maior com o passar do tempo. “Temos uma lista de espera grande, e é comum os pais inscreverem os filhos mesmo antes de nascerem.”

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Vinícius frequenta aulas de musicalização desde os 9 meses: "São uma oportunidade para termos ainda mais proximidade", diz a mãe, Alessandra (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
O MPC foi o primeiro projeto a oferecer musicalização para bebês em Brasília. Fundado em 2002, surgiu depois que Freire terminou o doutorado nos Estados Unidos. “Lá, eu levava meus filhos para aulas de música e, quando voltei, criei o projeto.” Na iniciativa, as crianças são chamadas, em geral, a partir dos 6 meses, quando já conseguem se sentar e interagir com os outros. A princípio, o MPC atendia crianças de até 4 anos, mas, com o tempo, as idades disponíveis para participar se expandiram.

Nesses mais de dois anos de participação do filho no MPC, Alessandra percebeu que ele se tornou uma criança com boa capacidade de concentração. Para ela, o envolvimento com a música é um dos fatores responsáveis pelo benefício. A memória musical do garoto, segundo ela, foi muito estimulada, e hoje ele consegue rapidamente aprender uma canção e reconhecê-la depois, por exemplo. “Ele ganhou uma atenção grande. Mesmo muito novo ele consegue ir ao cinema ou ao teatro e assistir até o fim, sem se desviar do que está vendo”, explica a mãe. Outra habilidade desenvolvida pelo garoto foi a capacidade de fazer relações; como ligar um autor à determinada obra. “Se ele ouve uma música de Vinícius de Moraes, já sabe reconhecer quem é o compositor.”

O interesse de Vinícius é evidente. Sempre quer ir às aulas e gosta de cantar e de interpretar. Alessandra acredita que a música tem também um papel agregador na relação do menino com outras crianças. “Ele e os amiguinhos da escola formam bandinhas motivados pela música.” Como, durante as aulas, é acompanhado pela mãe, Vinícius passou a associar atividades artísticas e musicais à Alessandra. “Sempre que algo envolve arte e música, é a mim a que ele se refere. As aulas são uma oportunidade também para termos ainda mais proximidade”, afirma.

Além da música
A musicalização para bebês representa o primeiro contato com o ritmo e as melodias. Além do desenvolvimento da cultura musical, as aulas podem ser o momento de ampliar também o conhecimento dos pais que os acompanham. “Além disso, fazer música é uma oportunidade prazerosa para facilitar a interação social dos bebês e estreitar as relações afetivas entre mães e filhos”, explica a professora de musicalização para bebês e mestre em educação musical pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Janaína Condessa.

Ricardo Borba/CB/D.A Press
No projeto da UnB, bebês podem participar a partir dos 6 meses, com o acompanhamento dos pais (foto: Ricardo Borba/CB/D.A Press)
Doutora em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Lilia Rosa acredita que o incentivo musical deve começar a acontecer até antes do nascimento. “A música pode e deve ser introduzida desde a vida intrauterina, pois o feto, aos 5 meses de gestação, ouve, arquiva e identifica músicas cantadas pela mãe, além de sons diversos do organismo”, afirma. Rosa explica que o processo de aprendizado musical para bebês em escolas estimula as crianças por meio de escutas, cantorias, brincadeiras, danças e dramatizações. A lista de benefícios não para por aí. “Eles desenvolvem a concentração, ouvindo histórias sonorizadas e tocando instrumentos; a livre expressão e a criatividade, com atividades espontâneas; e as habilidades psicomotoras, por meio de danças e outras atividades”, enumera Janaína Condessa.

A pediatra Renata Colaço Ribeiro, 38 anos, matriculou a filha Bianca, 1 ano e 5 meses, nas aulas de musicalização para bebês motivada justamente pelos benefícios extramusicais. “Devido à minha profissão, tenho noção da importância da música para as crianças. A vontade de estimular vários aspectos do desenvolvimento foi o gatilho para o interesse”, explica. Bianca começou a participar aos 9 meses, e a mãe conta que as aulas auxiliaram muito na socialização da garotinha. “Ela é filha única. Ajudou muito a ter contato com outras crianças. A socialização pela música fez uma grande diferença na vida dela.”

No cotidiano da família, as melodias passaram a estar presentes em várias atividades. “Nos momentos de lazer, na piscina, sempre cantamos e dançamos”, conta Renata. A possibilidade de estimular desde cedo a sensibilização é um dos principais benefícios, na opinião da mãe. “Estabelecer essa linha de estímulo voltada mais para a sensibilidade, para um lado mais abstrato e menos concreto, é importante para todas as crianças.”

	Bruno Peres/CB/D.A Press
Angélica, com os pais Lourival e Poliana: fala estimulada pelas canções (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)


Proximidade com os filhos

Uma das intenções das aulas de musicalização é, de fato, criar um vínculo maior entre pais e crianças, explica o professor e músico Ricardo Freire. “São os pais que estimulam os filhos durante as aulas. Nós ajudamos a mostrar que isso é possível, e a participação deles é fundamental.” A presença dos pais junto dos filhos é muito benéfica, segundo o professor, e, em geral, continua na formação da criança mesmo depois que as aulas não exigem mais o acompanhamento direto do responsável. Para a professora Lilia Rosa, é fundamental que os pais acompanhem com atenção o trabalho do educador e tire todas as dúvidas que tiverem. “É importante também estimular a musicalidade no ambiente familiar.”

Na opinião de Rosa, os pais têm compreendido como a musicalização pode ser benéfica. “Muitos veem melhora no comportamento da criança, que se torna mais sensível, equilibrada e alegre”, explica. Além disso, o contato dos bebês com os sons contribuirno tratamento de alguns problemas infantis. “Pode ajudar a tratar possíveis dificuldades de desenvolvimento infantil, quando são detectados e trabalhados ainda nos primeiros anos de vida.”

A vontade de que a filha Angélica, 1 ano e 7 meses, tivesse aulas de musicalização veio da proximidade que a mãe Poliana Naves, servidora pública de 36 anos, tinha com o mundo musical. Poliana canta e tem uma banda com amigos. “Como tenho uma relação forte com a música, assim que Angélica nasceu procurei colocá-la para fazer as aulas”, lembra. Essa foi a motivação maior, mas, segundo Poliana, os benefícios realmente ultrapassam apenas o aprendizado musical. Como é comum ouvir de outras mães, ela acredita que o processo trouxe uma aproximação mais forte com a filha. “É o momento de fazermos algo juntas, distante das obrigações”, afirma.

Acompanhar as canções e tentar cantá-las colaborou para que a menina tivesse mais facilidade para falar. “Melhorou a criatividade, a percepção de sons e a coordenação motora, com as brincadeiras de fazer barulhos com as mãos e com a boca”, conta Poliana, que tem total apoio do marido, Lourival, na iniciativa. Lúdicas e cheias de brincadeiras, as aulas são para as duas, mãe e filha, um momento de alegria. “Quando chega o sábado, que é o dia de aula, ela fica superanimada. Evitamos ao máximo faltar porque nós duas gostamos muito”, diz a servidora pública. Poliana torce para que a filha nunca se afaste dos sons. “Eu adoraria que ela continuasse mais tarde e tivesse um desenvolvimento na música.”

Segundo Lila Rosa, mesmo sem um curso formal, a música pode aproximar mães e bebês, antes mesmo do nascimento. “A mãe que canta ou conversa com o filho durante a gravidez, massageando a barriga, por exemplo, está estimulando o cérebro do bebê para a escuta, o movimento/ritmo, o despertar dos sentidos, o reconhecimento da voz materna. Nesse brincar, a mãe cria laços afetivos e energéticos entre ambos e também fica mais calma, relaxada e feliz.”

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