Pornografia amadora não consentida vira arma de vingança na rede

Fran, estudante de 19 anos de Goiânia, virou símbolo de humilhação em praça pública e virtual

por André Duarte 14/11/2013 09:01

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A versão consentida da pornografia doméstica também desencadeou um movimento de autonomia financeira para quem produz conteúdo amador, popularizando os classificados eróticos na internet. “Para a pornografia, quanto mais gente se envolver no negócio, melhor. A indústria não precisa restringir às cadeias de produção. Tecnologias que permitem que qualquer um produza sua pornografia podem gerar novas formas de negócio: sites como o Cam4 e o ISM (I Shot Myself) são soluções encontradas para capitalizar em cima da demanda de pessoas que desejam exercer sua sexualidade de forma livre.

Todos saem ganhando: quem criou a plataforma e recebe as assinaturas de usuários premium ou gold, as pessoas que se mostram e os que acessam os conteúdos”, contabiliza Guilherme Gatis, autor da dissertação de mestrado em comunicação Pornô amador – a busca do prazer real na internet, defendida na Universidade Federal de de Pernambuco (UFPE) no ano passado. Na lógica de exploração atual, basta uma webcam ligada e um site vinculado a um sistema de pagamento por cartão de crédito para garantir mais um dia produtivo de home office para strippers Brasil afora.

Roberto Guerra e Wolney Fernandes  (Arte / especial para o Diário de Pernambuco)
Pornografia não consentida é a faceta cruel dessa combinação entre as possibilidades de máxima visibilidade do sexo e as facilidades de compartilhamento na internet (foto: Roberto Guerra e Wolney Fernandes (Arte / especial para o Diário de Pernambuco))
Aos 25 anos, May Medeiros, é sócia da XPlastic, uma empresa de São Paulo que começou numa brincadeira de um clipe tosco para uma banda punk rock e reverberou na criação de uma produtora de conteúdo “AltPorn”, gênero alternativo popular nos Estados Unidos e Europa. “A gente não chama atores nem atrizes. Chamamos performers. São pessoas que têm outras atividades e se conectam com o que a gente está falando, que têm estilo de vida alternativo. Elas recebem um cachê, mas fazem basicamente por diversão”, conta ela.

Derivação da uma gama interna de serviços, o portal Xnet é uma espécie de Facebook pornô incubado no site da empresa, onde membros compartilham vídeos, fotos, informações e até vendem conteúdo feito em casa para a empresa-mãe. “Mais da metade do nosso conteúdo é amador. As pessoas reclamam quando colocamos gente que não está fora do padrão dos modelos tradicionais. A maioria são mulheres, e poucas são heterossexuais”. May não enxerga qualquer conflito entre as produções profissionais e as caseiras. Pelo contrário: “O que está acontecendo agora é que as duas coisas estão se confundindo, mas elas vão sempre existir”.

Guilherme Gatis, no entanto, alerta para o perigo da segunda seara da pornografia amadora, a não consentida, materializada em ações de má-fé, que vão da espionagem voyeur do vizinho ao compartilhamento de material íntimo de um celular. “A pornografia consentida é um exercício livre e genuíno da sexualidade, é o jogo de ver e ser visto, de desvelar, de forma consciente, assumindo os riscos e as responsabilidades, a própria intimidade. Casais que praticam trocas ou pessoas exibicionistas encontram nas facilidades de produção e circulação de conteúdos proporcionada pela internet um ambiente acolhedor para suas escolhas sexuais. A pornografia não consentida, no entanto, é a faceta cruel dessa combinação entre as possibilidades de máxima visibilidade do sexo e as facilidades de compartilhamento na internet”, afirma.

De artistas famosos a simples mortais que tiveram a intimidade devassada graças ao vazamento de imagens, casos de revenge porn — ou pornografia da vingança, quando o(a) parceiro(a) resolve espalhar vídeos após o fim do relacionamento — têm sido recorrentes e emblemáticos. Para esses episódios, o autor do estudo enumera uma série de implicações: “A opressão do conteúdo pornográfico não consentido, inclusive, está alcançando novos requintes de crueldade: além da exposição de sua intimidade, as vítimas de revenge porn sofrem outros tipos de humilhação geradas pelo compartilhamento de seus perfis em redes sociais”.

Reprodução / Facebook
Mensagem divulgada pela jovem em página de apoio pede a criação de uma 'Lei Maria da Penha virtual' (foto: Reprodução / Facebook)
Impulsionada pela praticidade de aplicativos para celular, as ofensivas contra a privacidade alheia via programas como WhatsApp têm feito vítimas de forma devastadora, como o caso de Fran, uma estudante de 19 anos de Goiânia (GO) que virou símbolo de humilhação em praça pública e virtual. Um vídeo íntimo feito no celular, supostamente divulgado por um jovem de 22 anos com quem ela se relacionava, varreu a rede virtual a ponto de um gesto feito pela estudante viralizar na forma de meme pejorativo no resto do país. Uma onda de linchamento moral acabou antecipando uma campanha de apoio à jovem, na qual o seu papel de vítima foi finalmente colocado, suscitando o debate em torno da atualização da legislação com punições específicas para crimes virtuais de foro íntimo.

A polícia ainda investiga o caso, mas uma eventual punição ao responsável não deve passar de uma acusação por difamação e, em caso extremo de condenação judicial, em uma pena que vai de três meses a um ano de prisão. De acordo com a Delegacia da Mulher de Goiás, o crime pode ser enquadrado na Lei Maria da Penha, uma vez que houve relação de afeto entre vítima e provável autor. O rapaz nega ter sido o autor do vazamento. “Quando um vídeo como o de Fran, ou de Paris Hilton, ou fotos de Scarlett Johansson, ou de Carolina Dieckmann tornam-se disponíveis na internet eles escancaram uma intimidade que não é a nossa, mas que nos torna mais próximos dessas pessoas, sejam elas anônimas ou famosas. Há um jogo de projeção latente, possibilitado por essa oferta visual de uma prática obscena (literalmente resguardada, fora de cena)”, pontua Guilherme Gatis.

 

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