Especialistas tentam desvendar o medo para tratar doenças como a síndrome do pânico

Especialistas tentam desvendar o que acontece no cérebro antes da percepção real do perigo para desvendar problemas psicológicos

por Paloma Oliveto 11/11/2013 14:00

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Anderson Araújo / CB / DA Press
Clique para ampliar e entender a pesquisa sobre o medo (foto: Anderson Araújo / CB / DA Press)
Pode ser o barulho seco de um galho quebrando ou o som ritmado do arrastar de passos. Às vezes, é um vulto que passa sorrateiro. Outras, uma sombra que brinca nas paredes. Os sentidos se aguçam, as pupilas se dilatam, os pelos eriçam, o coração dispara. Orquestrado pela mente, o corpo todo reage. Por cada poro, brota o medo, uma das mais primitivas emoções do homem.

Entender o que se passa no cérebro antes mesmo que a razão perceba o perigo é um dos desafios da ciência. Já se sabe bastante sobre uma sensação tanto temida quanto buscada — quando se vai a uma montanha-russa, por exemplo, não é outra coisa senão o medo que as pessoas querem encontrar. Mas ainda há muito o que se descobrir, principalmente porque aí pode estar a chave para o tratamento de condições desafiadoras, como a síndrome do pânico e o transtorno da ansiedade generalizada.

De uma coisa não restam dúvidas: o medo é essencial para a preservação das espécies. Temer o perigo é a condição básica para driblar os predadores e escapar de situações com risco em potencial. Testes com animais revelam um padrão praticamente universal diante de ameaças. Fuja ou lute, parece dizer o cérebro. O que vai definir a escolha é um duplo processo iniciado pelo tálamo, a região que capta os estímulos externos e os passa adiante.

“O corpo é extremamente sensível à possibilidade de uma ameaça e, então, há múltiplos caminhos que levam a informação do medo para o cérebro”, explica Abigail Marsh, professora de psicologia da Universidade de Georgetown. “Imagine estar passeando na floresta e, de repente, algo se mover no chão. Para que não haja risco de ser surpreendido, simultaneamente seu cérebro vai agir de duas maneiras”, exemplifica Marsh. Uma delas é tão rápida que se manifesta antes mesmo de a possível ameaça ser notada conscientemente. “Seu coração vai disparar, você vai suar frio e congelar”, exemplifica. Um segundo depois de congelar, a pessoa poderá perceber que se tratava apenas de folhas secas movidas pelo vento. Nesse caso, foi apenas um susto. Mas, se o cérebro identificasse que o movimento no solo era o de uma cobra, o corpo inteiro seria avisado para reagir. Esse é o caminho longo, que identifica o perigo com mais precisão e permite tomar decisões.

Um coquetel de hormônios bombardeia o organismo, desencadeando as reações típicas do medo: pupilas dilatadas, pelos do braço arrepiados, sensação de frio no estômago, respiração ofegante, boca seca, batimentos cardíacos acelerados. Tudo isso para preparar o corpo no caso de um ataque. Em segundos, processos fisiológicos não fundamentais, como a digestão, são interrompidos, para que todos os órgãos concentrem-se na reação à ameaça. O sangue é dirigido aos músculos, glicose e oxigênio garantem mais energia, aumenta-se a produção de plaquetas e leucócitos para combater possíveis ferimentos. Pelo mesmo motivo, a bexiga e o intestino podem esvaziar. Os olhos ficam estatelados: são as pupilas prontas para enviar ao tálamo qualquer estímulo visual que represente um risco.

“Felizmente, nosso corpo também sabem como reverter essa resposta ao medo, e bem rápido também”, conta Abigail Marsh. “O sistema nervoso parassimpático tem a habilidade de normalizar os batimentos cardíacos e de baixar o fluxo de adrenalina”, esclarece. É por isso que, depois de levar um susto, tremer da cabeça aos pés e sentir que o coração vai sair pela boca, ao perceber que, em vez de uma cobra, trata-se de um monte de folhas secas sendo levadas pelo vento, em poucos segundos a pessoa volta a caminhar normalmente pela floresta, como se nada tivesse acontecido.

Pavor
Por outro lado, há indivíduos que, mesmo sem ameaças externas, não só experimentam a sensação de medo como são acompanhados por ela o tempo todo. Alguns cientistas acreditam que a síndrome do pânico e o transtorno da ansiedade generalizada podem estar relacionados com a ativação do sistema fuja ou lute diante de acontecimentos estressantes do dia-a-dia. Nesses casos, o tálamo identificaria no estresse uma ameaça e, como no caminho curto, enviaria essa informação diretamente para a amígdala, sem dar tempo para o córtex sensorial avaliar racionalmente o estímulo.

O neuropsicólogo Justin Feinstein, da Universidade de Iowa, acredita, porém, que os distúrbios do medo passam longe da amígdala, o que evidenciaria a participação de outras regiões do cérebro na formação da sensação de pânico. Ele chegou a essa conclusão ao estudar o curioso caso de uma mulher de 47 anos, conhecida como S.M., que sofre de uma raríssima condição genética, a doença de Urbach-Wiethe, caracterizada pela ausência de temor. Na adolescência, as amígdalas de S.M. foram praticamente destruídas e, com elas, qualquer resquício de medo. A paciente, uma bem-sucedida artista plástica, revelou que dar voltas em montanhas-russas, por exemplo, é algo divertido e engraçado, mas que não consegue sentir nem um friozinho na barriga.

'O corpo é extremamente sensível à possibilidade de uma ameaça e, então, há múltiplos caminhos que levam a informação do medo para o cérebro' - Abigail Marsh, professora de psicologia da Universidade de Georgetown
Em uma das muitas pesquisas científicas das quais participou como voluntária, S.M. foi levada a uma loja de animais exóticos. Mesmo dizendo que não gosta de cobras, quis brincar e tocar nas mais perigosas, demonstrando que, de fato, é incapaz de sentir medo diante de um estímulo externo. Contudo, em um teste desenvolvido pela equipe de Feinstein, a mulher experimentou uma sensação que há décadas desconhecia: o pavor.

Para estimular a artista plástica a sentir medo, os médicos da Universidade de Iowa deram uma dose de CO2 para ela inalar. Entre 30 segundos a um minuto, o gás, que provoca o engasgo, costuma induzir pessoas normais ao estado de terror, pois a sensação é de falta de ar. Pouco depois do início do teste, S.M. gritou, pedindo por ajuda. A artista descreveu aos médicos um estado mental terrível, “completamente novo”, que descreveu como sendo pânico. “Ela procurava por ar, seus batimentos cardíacos elevaram; ela estava completamente estressada, temendo por sua vida. Isso nos indica que o pânico, ou seja, o medo ao extremo, é induzido em algum lugar fora das amígdalas”, afirma Feinstein.

De acordo com o psicólogo, enquanto informações do mundo externo são filtradas pelas pequenas estruturas esféricas antes de o medo ser produzido fisiologicamente, os sinais de terror originados dentro do indivíduo seguem por uma rota diferente. “É uma descoberta que pode ser fundamental para explicar por que as pessoas têm ataques de pânico”, avalia.

O psicólogo Wil Cunningham, da Universidade Estadual de Ohio, concorda com Feinstein sobre a necessidade de se buscar novas regiões cerebrais associadas ao medo. “Quase todo estudo sobre o assunto mostra que, em situações de medo, as amígdalas ficam ativas. Mas, no estudo das emoções, não podemos nos fixar em uma parte específica do cérebro porque, ao que parece, elas estão distribuídas por todo o órgão”, defende.

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