Eficácia de simpatias depende de complexidade do ritual, diz estudo

Estudo da Universidade do Texas, com participação de brasileiro, investiga o uso de simpatias e constata que, quanto mais passos a fórmula mágica possuir, mais credibilidade ela inspira. Apelo a esse tipo de recurso é comum em várias culturas

por Paloma Oliveto 05/11/2013 13:00

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Gustavo Moreno/CB/D.A Press
Maria Beatriz conhece simpatias que podem ajudar a afastar pessoas negativas ou reconquistar a pessoa amada: passos a serem seguidos à risca (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Maria Beatriz Aguiar de Melo garante que é só fazer e esperar. Depois de nove dias, o resultado aparece. Mas, para dar certo, a receita que ela anota em uma folha tem de ser seguida à risca. Começa com a purificação do corpo, da mente e do espírito; passa pela limpeza energética da casa e se alonga por mais nove dias. Durante esse período, sempre no mesmo horário, deve-se acender nove velas roxas, rezar para o anjo da guarda, escrever o nome num papelzinho, queimá-lo e jogar as cinzas na água. O conteúdo do copo é, então, despejado no vaso de planta. Vale para alcançar qualquer graça: desde afastar pessoas negativas a reconquistar o amor perdido.

Não é de hoje que o homem busca no divino a solução para problemas diversos, sobre os quais tem pouco ou nenhum controle. Usa, para intermediar, rituais como o ensinado por Maria Beatriz, 65 anos. Nem é preciso ser religioso para recorrer a uma força superior e inexplicável: é o caso, por exemplo, de quem veste a camisa da sorte nas partidas do time de coração. A fé naquilo que foge a qualquer explicação lógica fascina a psicóloga americana Cristine Legare, que pesquisa em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, a crença no sobrenatural.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Irene participa de novenas desde criança: "Para mim, é um ato poderoso" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Com o colega brasileiro André Souza, que fez doutorado na Universidade do Texas em Austin, Legare investigou, em Minas Gerais, as tradicionais simpatias, fórmulas mágicas receitadas em todo o país e voltadas aos mais diversos propósitos. Os pesquisadores constataram que o que dá credibilidade a um ritual é a sua complexidade. Mesmo aos olhos daqueles que não acreditam em simpatias, aquelas mais repletas de passos são as que inspiram maior confiança.

Para chegar a essa conclusão, Legare e Souza recolheram amostras de simpatias tradicionais, reescreveram as fórmulas e as levaram para os Estados Unidos, onde as apresentaram a estudantes universitários. De forma intuitiva, eles tinham de apontar quais pareciam funcionar. Na falta de uma relação de causa e efeito lógica, a complexidade do ritual, como número de repetições e variedade de procedimentos, foi o critério escolhido pela maioria dos participantes para julgar a eficácia de uma simpatia.

Pesquisador da Universidade de Oxford e autor de diversos artigos científicos sobre crenças religiosas, o psicólogo Miguel Farias explica que, assim como um truque de mágica benfeito precisa impressionar todos os sentidos, quanto mais elaborada a estrutura de um ritual, mais ele parece instigante e envolvente. “Os antropólogos costumam dizer que as crenças surgem como necessidade de dar sentido ao mundo. Há outra corrente, defendida pela psicologia, de que primeiro surge a necessidade do ritual, e depois vem a crença”, afirma. O estudo da Universidade do Texas, para Farias, reforça essa ideia, pois indica a importância que os indivíduos atribuem à forma do rito, independentemente de acreditarem na sua eficácia.

André Souza, coautor da pesquisa americana, explica que os rituais e o pensamento religioso tentam compensar a falta de controle sobre as coisas que cercam o homem. “Suponhamos que a pessoa tenha uma doença grave, fez tudo que pôde, recorreu aos meios médicos e não se curou. Aquilo é complicado de entender. Então, ela recorre a outros meios, porque vai conseguir compensar essa falta de controle. Ela vai apelar para a oração, a promessa, a novena, para retirar a doença. É um processo cognitivo intuitivo. E, mesmo sem entender por quê, quanto mais complexo for esse ritual, mais a pessoa vai achar que ele pode funcionar”, diz.

Ato poderoso
Até onde Sebastiana Jesus de Lima, 75 anos, consegue recordar, sua família recorre às orações, seja para proteção, seja para cura de doenças. “Meus bisavós já rezavam muito. Quando eu era mocinha, uma senhora me ensinou a benzer criança de quebranto e dor de dente. Benzia lá fora, tinha de ser debaixo da lua”, conta. Hoje, ela se dedica a outro ofício religioso: a rezadeira puxa os hinos da novena de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um dos principais acontecimentos festivos da comunidade da Rua do Mato, na região administrativa da Fercal. O evento, que tem início em 23 de novembro, é marcado por um ritual complexo. Os nove dias de celebração começam com o terço, ao qual se seguem a ladainha, o hino e, por fim, a missa.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Na família de Sebastiana, as orações sempre serviram para pedir proteção (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A crença de dona Sebastianinha passeia entre o rito solene e o popular. Conta ela que, no tempo dos revoltosos, que marcharam sobre Goiás em 1926, seu pai viu a aproximação dos homens de Luís Carlos Prestes e, temendo a tropa armada, enfiou-se em uma moita, com duas crianças nas costas. “Eles passaram, mas não viram nada: pensaram que meu pai era um toco de árvore”, relata a devota de Nossa Senhora da Conceição. Essa foi só uma das ocasiões em que o sertanejo enganou magicamente o perigo. Acontece que, dentro do bolso, ele guardava um papelzinho com uma oração que, diz o folclore local, o salvou de poucas e boas. João prometeu passar para a filha o ritual de proteção, mas morreu e, com ele, foi-se o segredo.

Também moradora da Rua do Mato, Irene da Silva, 56 anos, é noveneira. Recebe os devotos em um dos nove dias da festa religiosa. “Para mim, a novena é um ato poderoso. Participo desde que nasci”, conta. Além dos cantos e das orações, a homenagem a Nossa Senhora da Imaculada Conceição inclui, tradicionalmente, a feitura de bolos para os devotos. Irene leva o ofício tão a sério que construiu um forno no quintal de casa apenas para preparar os quitutes da novena. “Nossa Senhora é muito poderosa, nunca me deixou na mão nem vai deixar”, justifica.

Atemporal

O psicólogo André Souza explica que a crença no poder dos rituais é algo que independe de nível cultural e de escolaridade. Ele próprio cresceu em uma casa onde as simpatias eram utilizadas até para tirar nota boa na prova. A mãe de Souza, fã das receitas mágicas do astrólogo João Bidu, chegou a cortar as unhas do filho dentro de um dicionário, por acreditar que, dessa forma, estaria garantindo a inteligência dele. E o psicólogo confessa que, quando ia ao Estádio Mineirão ver Atlético e Cruzeiro jogarem, tinha de se sentar no mesmo lugar. “Se eu não me sentasse ali, meu time perdia.” Souza ressalta que os rituais não têm relação apenas com religião: assim como ele vinculava o assento no estádio ao sucesso do time, há pessoas que, por exemplo, apertam o botão do elevador diversas vezes, mesmo sabendo que isso não vai apressar a máquina.

Cristina Legare destaca, ainda, o caráter atemporal e transcultural dos rituais mágicos. Ela compara uma receita registrada pelo Papiro Ebers, tratado médico que data de 1550 a.C., a uma simpatia ainda em uso no Brasil. A primeira, para curar cegueira, mandava esmagar dois olhos de porco, até virarem pó, misturar com óleos, mel e um mineral, e depois injetar o remédio no olho do paciente, logo no nascer do dia. Ao mesmo tempo, era preciso repetir duas vezes a frase: “Eu trouxe essa coisa e a coloquei em seu lugar. O crocodilo (deus Sobek) é fraco e sem poder”. Já a simpatia brasileira, para arrumar namorado, tem de ser feita na madrugada de 12 de junho, véspera do Dia de Santo Antônio. A moça casadoira precisa retirar a seiva de uma bananeira (furada quatro vezes com uma faca) e pingar o líquido em um papel dobrado ao meio. À noite, será formada a primeira letra do nome do futuro parceiro.

“Na superfície, há muitas diferenças entre esses rituais. Eles envolvem diferentes substâncias, diferentes práticas e tratam de problemas diferentes”, diz Legare. “Mas também há muitas semelhanças. Eles envolvem repetição de procedimento, um grande número de passos e a presença de agentes sobrenaturais. Então, a forma dos rituais varia dramaticamente entre as culturas, mas sua estrutura essencial é notavelmente consistente.” (leia Três perguntas para).



Cristine Legare, pesquisadora da Universidade do Texas em Austin

Na era da informação, por que as pessoas ainda acreditam em fórmulas mágicas, como as simpatias?
Os rituais são usados de formas diversas, embora previsíveis, em várias culturas. Por exemplo, são usados para aumentar a percepção de controle (como em eventos esportivos e competições), para lidar com problemas (remédios ritualísticos, como simpatias) e para aumentar a afiliação de grupos (como cerimônias religiosas e ritos de iniciação). Considerando que os rituais fazem o mundo parecer mais compreensível e controlável, eles são valorosos, de uma perspectiva psicológica. Muito do que nos acontece na vida está fora de nosso controle, e os rituais fornecem a experiência psicológica de exercer controle sobre nossas próprias vidas.

A essência dos rituais é a mesma, não importa o quão diferentes eles aparentem?
Apesar de haver documentação escrita sobre rituais usados para resolver problemas diversos datando do antigo Egito, o uso de rituais para tratar de questões tão diferentes quanto asma e desemprego ainda é disseminado em contextos culturais contemporâneos, como Inglaterra, Estados Unidos, Brasil e África do Sul. A forma dos rituais varia dramaticamente entre as culturas, mas sua estrutura essencial é notavelmente consistente.

Antes de vir ao Brasil, a senhora já havia ouvido falar em simpatias? Por que decidiu estudar esse tipo de ritual?
Meu colega e coautor brasileiro, André Souza, me apresentou às simpatias. Elas são fascinantes do ponto de vista psicológico, porque, apesar do fato de serem amplamente aplicadas para resolver problemas, não há conexões intuitivas entre a ação e o resultado. Isso levanta questões interessantes sobre como as pessoas avaliam se elas funcionam, quando não há informações causais disponíveis. As simpatias fornecem uma oportunidade de responder a essa questão de maneira experimental.

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