Biografias não são exclusividade de famosos e, entre parentes, reforçam laços afetivos e a identidade familiar

Contar histórias, reforçar as relações de amor e amizade e guardar um documento para toda a vida fazem da biografia um brinde à família

03/11/2013 09:23

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Maria Eugênia Terra da Silveira preparou uma surpresa para José Alberto, seu companheiro por mais de 60 anos: um livro de memórias recheado com detalhes (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Deixar registradas as conquistas, momentos de dificuldade, luta e superação não é privilégio de celebridades que hoje levantam a polêmica se devem autorizar suas biografias. Colocar no papel a origem da família, dos hábitos, costumes e tradições está ao alcance de todos.

É o caso da aposentada Maria Eugênia Terra da Silveira, de 78 anos, que encontrou uma forma carinhosa e única para presentear o companheiro José Alberto da Silveira, que faria, em maio de 2012, 80 anos. A história de vida do homem, amigo e cúmplice que a acompanhara durante mais de 60 anos era digna de um livro recheado de memórias e enriquecido pelos detalhes de sua longa caminhada. A biografia do cardiologista e um dos fundadores do Hospital Socor marcaria suas oito décadas de vida e eternizaria seus passos.

Mas José Alberto não chegou a ver o livro pronto. A um mês da grande festa, foi vencido por um câncer no cérebro contra o qual lutava há dois anos. Em vez de ser o grande homenageado naquele maio de 2012, quem deixava o presente para Maria Eugênia e a família era ele. Aliás, já tinha sido dado há pelo menos oito meses, quando ele consentiu, já num estágio avançado da doença, a produção da obra. “Ele gostou da ideia e começamos a ver os retratos, os bilhetinhos que trocamos quando ainda éramos namorados. Relembramos nossa vida juntos e tivemos muitos momentos de alegria”, conta Maria Eugênia.

Durante os meses de relato ela descobriu detalhes da história dele que só havia ouvido por alto, da boca de parentes. Foi preenchida por momentos de emoção e reviveu histórias que ganharam vida novamente. “Tinha que ter essa memória porque a vida dele foi muito rica e agora os netos e bisnetos vão saber quem ele foi.”

Para resgatar memórias e dar um novo significado às histórias de vida, empresas de Belo Horizonte se especializaram em colher relatos, fotos, cartas e documentos e transformá-los em publicações dignas das noites de autógrafo.

“Nada tem a hierarquia de um livro. É um objeto que inspira respeito, uma chancela e prova de que aquela pessoa esteve aqui e fez tudo aquilo”, afirma a diretora de conteúdo da Biografa, Clarice Trindade Laender. Muitas vezes produzidas para comemorar uma data de peso, as biografias dão significado às celebrações que vão muito além da festa. Reforçam os laços de união, aproximam e enaltecem. Riqueza que antes estaria fadada ao esquecimento com a passagem das gerações.

Entre sorrisos e lágrimas
Famílias que encomendam a biografia sentem conforto espiritual ao se deparar com o trabalho pronto. Biógrafos se dizem realizados ao aproximar entes queridos

Beto Novaes/EM/D.A Press
"Recordar foi muito bom. Quando se volta ao passado, muita coisa que não lembramos no cotidiano surge" - Carlos Muzzi Filho, engenheiro, ao lado da esposa Ângela Muzzi (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
“Sua vida dá um livro.” Vira e mexe o engenheiro Carlos Muzzi Filho, de 76 anos, ouvia a máxima de amigos e até da professora de francês. Mas foi num momento delicado de sua vida que o fundador da Construservice resolveu que era hora de contar como havia chegado até ali. “A produção do livro foi, para mim, um conforto espiritual e me ajudou a tratar uma depressão”, conta. Para Ângela Muzzi, há 47 anos ao lado de Carlos, a atitude do marido surpreendeu todos e foi recebida como um grande presente. “Ele deixa um exemplo de homem e de dedicação ao trabalho muito bonito”, afirma.

Ao reviver o passado, Muzzi se lembrou das constantes viagens que fazia com os pais, funcionários públicos, que sempre eram transferidos de um canto a outro do país. “Aos 9 anos, morei em Ituiutaba. Lembro-me de que ficamos hospedados em um hotel e eu engraxava os sapatos dos novos hóspedes.” Também canta a melodia entoada pelos fuzileiros durante o período da guerra. “Recordar foi muito bom. Quando se volta ao passado, muita coisa que não lembramos no cotidiano surge”, explica. Para ele, todos deveriam ter esse momento de reflexão. “Refletindo, os caminhos podem ser mudados para melhor”, garante.

Ao contar como construiu o patrimônio que hoje deixa para os filhos, ele dá uma lição que certamente será perpetuada. “Na vida é preciso querer querendo. Querer simplesmente não leva a nada.” E Muzzi dá várias provas de que conquistou o que sempre quis com o coração. “Na minha trajetória tudo começou de baixo. Mas sempre gostei de desafio. Se era difícil, era o que eu queria. Acho que isso serve de inspiração para os meus filhos e netos”, espera.

Mas não são só eles os inspirados pelo exemplo dado por Muzzi. Há dois anos como biógrafa, Clarice Trindade Laender é outra grande beneficiada não apenas com as provas de persistência e superação do engenheiro, mas com os ensinamentos de amor de Maria Eugênia Terra da Silveira e José Alberto da Silveira e com tantos outros exemplos de vida retratados em mais de 30 histórias que ajudou a eternizar.

APRENDIZADO

“Pego um pouco de cada uma das características dessas pessoas que passam por minha vida e incorporo. Com isso, fiz as mudanças que queria. Buscava ser mais humana, mais flexível, mais tolerante e alegre”, conta Clarice. “Sinto que me torno mais aquilo que a pessoa é, mais virtuosa naquilo que ela tem”, completa. Entre lágrimas e gargalhadas compartilhadas com os entrevistados, ela reconhece que ficou mais fraterna. “Compreendi que ninguém erra de propósito e que todo mundo tem suas angústias.”

Em dois anos como diretora de conteúdo da Biografa, ela viu as biografias se transformarem em instrumento de gratidão, ajudar a aproximar parentes e promover a reunião familiar. “Acontece de resolver problemas sem a necessidade de discuti-los, simplesmente pela compreensão dos pontos de vista”, afirma. São, acima de tudo, motivo de celebração, orgulho e sensação de pertencer a uma história da qual se é responsável por dar sequência.

Nove meses de envolvimento

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
"Hoje, a maior parte da nossa demanda é para menos de 100 exemplares" - Clarice Trindade Laender, diretora de conteúdo da Biografa (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Para se dedicar a uma biografia é preciso envolvimento por, pelo menos, nove meses. “Tem biografias que levam menos tempo para ser escritas, mas, em média, esse é o prazo até a publicação”, estima o escritor Osias Ribeiro Neves, fundador do Escritório de Histórias, com 15 anos de experiência nesses registros. Entre os mais de 50 livros produzidos, Osias garante que as entrevistas e pesquisas sobre o contexto histórico são a base do trabalho.

Para distribuir entre amigos e parentes, a tiragem média parte de 300 exemplares, podendo superar os 1 mil. Com escala maior, Osias estima que os custos superem os R$ 25 mil. “Mas isso vai variar muito. Cada caso precisa ser avaliado”, antecipa. Com capacidade para tiragens menores, a Biografa tem caso de apenas um livro publicado. “Hoje, a maior parte da nossa demanda é para menos de 100 exemplares”, afirma a diretora de conteúdo, Clarice Trindade Laender.

Para fechar o orçamento, todo o processo de execução deve ser avaliado. “Serão feitas entrevistas ou o texto já existe? Em que cidade estão os entrevistados? Esses fatores influem para compor o valor, que vai de R$ 6 mil a R$ 35 mil, com média entre R$ 15 mil e R$ 25 mil”, calcula Clarice. Para quem já se encarregou da pesquisa, entrevistas e levantamento do conteúdo e, além disso, já tem os manuscritos prontos, há opção de gráficas especializadas na impressão de livros.

A Bellas Artes Gráfica e Editora ainda oferece o serviço de diagramação, montagem das páginas e leiaute da capa. “Estou fazendo um projeto de 174 páginas com custo de pouco mais de R$ 5,5 mil para impressão de 400 exemplares. Mas esses valores variam muito”, observa o proprietário da empresa, José Ademir Mendes de Almeida. Até o número de fotos e a qualidade desse material interferem no valor final. “Fotos antigas, que precisam ser tratadas para melhorar a impressão, dão mais trabalho. Tudo isso pesa”, lembra José Ademir.

Visita ao passado
Por meio da biografia é possível reviver momentos até então esquecidos e fazer novas avaliações sobre a vida

Marcos Michelin/EM/D.A Press
"Jamais me imaginei capaz de escrever sobre minha mãe. Senti-me mais fortalecida e considero que tenha sido o ponto alto da minha vida" - Maria do Carmo Braga, aposentada (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
Encantada com as proezas que a centenária Delfina Passos Vieira contava entre uma xícara de café e outra, a aposentada Maria do Carmo Lopes de Oliveira Braga, de 62 anos, resolveu colocar tudo em um caderninho de bolso. “Ela se lembrou do dia em que um índio bateu em sua porta pedindo uma caneca de leite. Sem muitas condições na época, ela só tinha leite suficiente para a filha”, lembra Maria do Carmo. “Dona Delfina então colocou água no leite e deu metade para o índio, deixando o restante para alimentar a filha. Ele ficou tão agradecido que tirou de dentro de um jornal uma imagem de Santo Antônio e falou que, daquele dia em diante, nunca mais faltaria leite na casa dela”, detalha Maria do Carmo.

Dito e feito. Pouco tempo depois, um cunhado comprou algumas vacas e começou a produzir leite. “A partir daí passou a dar um litro para Delfina todos os dias. Depois que ele morreu, o sobrinho dela, que também tem uma fazenda, deu sequência à tradição”, conta Maria do Carmo. A visita inesperada do índio já tem mais de 60 anos e foi a primeira a ser registrada no bloquinho de Maria do Carmo.

Sempre próxima à vizinha do Balneário de Águas Santas, em São João del-Rei, a aposentada tinha à mão uma história tão rica que resolveu publicar por conta própria. “Comecei a pincelar o livro em 2008 e finalizei em 2010, ano em que Delfina fez 105 anos”, conta. Os 200 exemplares foram distribuídos para a comunidade, que acompanha de perto a vida da centenária, hoje com 108 anos.

A experiência acendeu na família de Maria do Carmo o interesse em colocar no papel a saga da matriarca Anna da Fonseca Braga. “No Natal de 2010, mostrei para todos o livro da dona Delfina. Foi aí que surgiu a ideia de fazer o mesmo para a minha mãe como forma de comemorar o centenário que, se estivesse viva, completaria em outubro do ano passado.” E assim ela fez com a ajuda de parentes e amigos, mas principalmente de uma tia, grande conhecedora da história.

Revirando baús e documentos, Maria do Carmo encontrou fotos e até provas que sua mãe fez na época de estudante. “Tudo que eu tinha, coloquei”, afirma. Ao destrinchar o passado, Maria do Carmo conheceu a própria história e acabou trazendo à tona uma mistura de sentimentos e emoções que fez questão de imprimir em cada palavra.

Ela conta que durante um ano e meio de produção chorou, lágrimas que a tornaram mais forte. “Jamais me imaginei capaz de escrever sobre minha mãe. Senti-me mais fortalecida e considero que tenha sido o ponto alto da minha vida”, avalia. O livro Anita, uma vida a serviço do amor teve tiragem de 600 exemplares, entregues a parentes e amigos próximos na data em que ela comemoraria seus 100 anos.

NOVO SIGNIFICADO

Jair Amaral/EM/D.A Press
A psicóloga Sylvia Flores diz que a biografia permite que as pessoas resgatem a história e a identidade familiar (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Para a psicóloga e professora da Newton Paiva Sylvia Flores, recorrer à biografia é uma forma de preencher lacunas deixadas pela mudança dos hábitos familiares. “Antigamente, as pessoas tinham mais tempo para se reunir à mesa. Com isso, os acontecimentos eram passados oralmente, o que se desfez com o tempo”, explica. “Quando alguém se propõe a registrar isso em livro, permite um resgate da história e da identidade familiar, revelando a importância de cada um e do todo”, acrescenta.

O mecanismo de escrita permite ainda uma catarse e dá a chance para os participantes do processo de recuperação da memória de ressignificar o passado. “Situações que no momento no qual ocorreram proporcionaram um sentimento traumático e de raiva podem ser vistas sob uma nova ótica”, avalia Sylvia.

Para a especialista, os relatos permitem uma visita ao passado e abrem brecha para novas avaliações e a compreensão de decisões tomadas naquele momento. “É a chance para perdoar e curar feridas. O fato continua o mesmo, mas o que se tem a chance de mudar neste processo é o seu significado”, afirma Sylvia. O registro e a passagem para gerações seguintes ainda mantêm viva a identidade familiar. “Perpetua-se o espírito de coesão familiar, reforçando normas, valores e princípios”, observa a psicóloga. (PT)

PALAVRA DE ESPECIALISTA

História passada a limpo
Marízia Frattezi - Psicóloga especialista em terapia de família

“Hoje atendo principalmente mulheres acima dos 80 anos que buscam alguém capaz de escutar as coisas que elas vivenciaram. Elas já não contam mais porque ninguém quer ouvir. Com um trabalho de resgate da memória e a provocação que faço, é possível avaliar a vida, passar a história a limpo com detalhes. Isso traz uma grande satisfação e elas saem mais em paz com os acontecimentos. Isso porque têm a possibilidade de fazer novas interpretações do passado. O meu conselho é que os parentes dediquem mais tempo para ouvir essas pessoas, porque conhecendo a história dos ancestrais é uma forma de saber a sua própria. Muitos desconhecem como os pais se conheceram, como foi o casamento, a lua de mel, a infância e detalhes pitorescos da vida. É importante e faz um grande bem.”

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA