Escola de Princesas estimula debate sobre questão de gênero e o lugar da mulher na sociedade

Ouvimos a opinião de especialistas em educação, psicologia, pedagogia e estudos de gênero que são unânimes em apontar a importância de promover o diálogo sobre a escola exclusiva para meninas que se vale do universo de princesa

por Letícia Orlandi Valéria Mendes 30/08/2013 09:01

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Reprodução / dinagoldstein.com
A dupla jornada nem sempre vem acompanhada da ajuda do 'príncipe'. Colocação da mulher como 'rainha do lar' é um estereótipo condenado pela psicologia, educação e pelas ciências sociais. A foto acima faz parte do projeto 'Princesas Decadentes', de Dina Goldstein. Clique para ver mais (foto: Reprodução / dinagoldstein.com)
A discussão acalorada sobre a reportagem ‘Fundada há apenas seis meses, Escola de Princesas tem alunas na fila de espera’ não ficou restrita ao mundo virtual e foi parar na sala de aula. Professora da PUC Minas, a psicóloga especialista em educação Maria de Fátima Boschi conta que debateu com seus alunos os pontos mais polêmicos da proposta pedagógica de Nathália Mesquita, fundadora da instituição.

Diante da importância dessa discussão, o ‘Saúde Plena’ ouviu a opinião de especialistas em educação, psicologia, pedagogia e estudos de gênero que são unânimes em apontar a importância de promover o diálogo sobre a escola exclusiva para meninas que se vale do universo de princesa para ensiná-las a organizar o quarto e os objetos pessoais, fazer almoço, lavar roupa, costurar, manter uma geladeira limpa e funcional, além de noções de boas maneiras, etiqueta e educação sexual.

Criadora da Escola de Princesas rebate críticas em entrevista. Clique e leia


É um retrocesso? Que expectativas as famílias dessas garotas colocam sobre elas? O que está por trás da valorização de aspectos do ambiente privado como exclusivamente femininos? Por que é importante romper com papéis sociais pré-definidos? De onde vem a violência doméstica? Quais os desafios para uma sociedade menos sexista?

Submissão e violência
A psicóloga e professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFMG, Marlise Matos, considera que a Escola, conforme descrita pela reportagem, reflete a cultura patriarcal que não deixou de ser dominante no Brasil. “Esse pensamento tradicional permeia desde os comportamentos mais simples até os mais complexos”, define Marlise, que coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem - UFMG).

Reprodução / Facebook Escola de Princesas
Peça de divulgação da Escola de Princesas: divisão de tarefas entre homens e mulheres (foto: Reprodução / Facebook Escola de Princesas)
Marlise participou de diversos estudos que ajudaram a compor um índice de tradicionalismo de gênero no Brasil e também as dificuldades em romper com os papéis tradicionais. Apesar de sua trajetória de militante das questões raciais, de gênero e LGBT, Marlise não vê com surpresa ou susto que uma mulher com formação superior tenha fundado a 'Escola de Princesas' e que tenha obtido sucesso comercial com isso. “A ligação da mulher ao mundo privado – o mundo da casa, da estética, dos cuidados, do 'aguardar o príncipe' é uma das formas mais tradicionais de se perceber o feminino na sociedade. Por mais avanços que já tenham sido obtidos, ainda estamos em processo de transição”, observa a coordenadora do Nepem.

A pesquisadora comenta também alguns conceitos presentes nos comentários da matéria sobre a Escola de Princesas. Lá, estão muitas críticas, de homens e mulheres, que consideram um 'feminismo exagerado, que quer transformar mulheres em homens que usam cueca'. “O feminismo é entendido, ainda, de forma muito deslegitimadora – como coisa de mulher mal amada e feia. Na visão de muitos, o feminismo quer tirar os homens do poder e colocar as mulheres no lugar, à força”, alerta Marlise.

A pesquisadora vai além. “A cada 5 minutos, temos um episódio de violência – socos, chutes, estupros – contra uma dessas 'princesinhas'. A luta não é para que o mundo seja dominado pelas mulheres, a luta difícil que travamos é para discutir essa visão tradicionalista, que favorece a injustiça e a violência”, defende. “As mulheres, há muito, abandonaram seu papel de princesa. Elas são 45% da população economicamente ativa e 60% das pessoas que concluem a graduação em universidade brasileiras”, completa Marlise.

Segundo a professora, o sucesso do empreendimento pode estar ligado à nostalgia e a um nicho de mercado muito bem analisado e articulado com estratégia de marketing. “A nostalgia existe, sim, porque vivemos em uma sociedade conservadora, em que o processo de destradicionalização está em curso há relativamente pouco tempo. Até 1985, nosso país viveu poucos períodos democráticos contínuos e a discussão sobre os valores referentes aos papéis de gênero encontram espaço para frutificar dentro do sistema democrático. Ainda temos uma longa estrada a percorrer para que as mudanças, que se intensificaram nos últimos 30 anos, atinjam com plenitude a vida cotidiana”, prevê a pesquisadora.

Reprodução / dinagoldstein.com
O uso da autoestima e do mundo de conto de fadas para vender o curso é apontado pela psicóloga e professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFMG, Marlise Matos, como perverso (foto: Reprodução / dinagoldstein.com)
Um outro aspecto que Marlise aponta é o da relação de consumo. “Acredito que uma pessoa que faz essa opção para a filha sofre de alienação pelo consumo. Os cursos oferecidos não são baratos. O público não é a classe menos abastada – quem está preocupado com a sobrevivência tem outras prioridades”, defende. E, mais uma vez, esse raciocínio reforça a ideia de conservadorismo. “As elites dominantes do Brasil sempre buscaram conservar valores para preservar sua posição – tradição, família e propriedade. Ou seja, existe um nicho de mercado que consome e valoriza esses elementos”, lamenta.

O uso da autoestima e do mundo de conto de fadas para vender o produto é apontado por Marlise como perverso. Mas não considera que a ideia seja um fato isolado. “Até hoje, temos escola de etiqueta para moças e universidade federais aqui em Minas que oferecem o curso de economia doméstica, perpetuando a ideia de ocupação para a esposa que espera o marido. São posturas anacrônicas”, exemplifica. “O que me preocupa não é tanto o conteúdo dos cursos oferecidos, mas principalmente a faixa etária – é um período da vida da menina em que esses valores estão sendo internalizados”, pondera.

Marlise Matos trabalha com cursos de educação a distância para professores da rede pública brasileira, discutindo, entre outros temas, as questões de gênero. “Os professores são carentes de orientação sobre como desconstruir esses estereótipos, como enfrentar as pressões racistas e machistas e gerar um dissenso entre os próprios alunos, para que eles reflitam sobre isso”, relata.

Para suprir um pouco dessa demanda, foi criada com apoio do Ministério da Educação a Rede de Educação para a Diversidade (Rede) e cursos dentro da Univesidade Aberta do Brasil. “A escola é o espaço onde o Estado laico pode contribuir para a discussão. Cada mãe ou pai educa seus filhos da maneira como achar melhor, mas na escola é possível abrir a reflexão para outros aspectos”, explica.

Para Marlise, a Escola de Princesas presta um desfavor à cidadania das mulheres e à habilidade de elas fazerem uma escolha livre. “A democracia não é apenas um sistema de governo, ela está nas relações interpessoais. A escola reproduz formas de dominação que favorecem a violência doméstica, que perpetuam o raciocínio de que a vítima é a culpada, por 'não se dar o devido valor'. Daqui a pouco, além dos vestidinhos de princesa, poderemos propor o uso da burca”, aponta a pesquisadora. “Este é o registro mais conservador, tradicional e machista que pode existir, mas apresentado com roupagem de encanto, maravilha. É a volta do disciplinamento do corpo das mulheres”, resume. “Gostaria de saber se um dia teremos uma escola para os meninos aprenderem que não podem agredir uma moça que esteja usando roupa curta. Temos que quebrar esses laços do conservadorismo, e não reforçá-los”, conclui Marlise Matos.

Escola de Princesas/Divulgação
"Como essas meninas vão lidar com o mundo real que exigem delas tantas outras coisas?" - Maria de Fátima Boschi, psicóloga especialista em educação e professora da PUC Minas (foto: Escola de Princesas/Divulgação)
Fracasso na vida real
Psicóloga especialista em educação, professora da PUC Minas e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, Maria de Fátima Boschi explica por que, apesar de a Escola de Princesas abarcar a faixa etária de 4 a 15 anos, ter 80% de alunas entre 6 e 8. “A brincadeira é para todas as idades, mas as crianças desejam permanecer mais tempo no mundo imaginário e não fazem uma distinção tão clara do que é brincar e do que está fora do universo da fantasia. Uma pré-adolescente já não quer mais ficar brincando de princesa, sabe que não é tão verdade assim e tem outras demandas de satisfação”, diz.

Apesar disso, a especialista afirma que - respeitando as diferenças culturais - as crianças têm entrado mais cedo no processo coletivo das relações sociais. “A criança distingue pela própria vivência o que não é real. Ela pode simplesmente brincar de princesa e depois voltar à realidade. O que me chamou a atenção nessa escola é afirmar que isso [a vida de princesa] é possível”, observa. Para ela, o que a Escola de Princesas está dizendo às suas alunas é que é papel da mulher ter todas essas funções do cotidiano. “Nós ainda estamos lutando para que as funções domésticas não sejam vistas apenas como de mulher. Por que essa escola não poderia ser mista se são tarefas do dia a dia de todos nós? Por que trazer de volta um imaginário que tem ficado mais distante? Essa realidade é um retrocesso de colocar de novo, somente no gênero feminino, a responsabilidade de dar conta de tudo isso”, analisa.

Para ela, a ideia de princesa é, no mínimo, constrangedora. “Até por que, as que existem na vida real não ocupam esse lugar de tarefas”, observa. Sobre algum prejuízo para essas meninas, Maria de Fátima diz que não é um fato isolado que causa um transtorno na vida adulta. “Se as famílias dessas garotas têm esse tipo de expectativa em relação a elas, essa filhas vão ficar em um lugar complicado. Como elas vão lidar com o mundo real que exigem delas tantas outras coisas?”, pontua. “Não saber organizar um quarto não significa que uma menina não tenha futuro. Os homens provaram isso pra gente ao longo de todo esse tempo”, resume.

A psicóloga vê com preocupação o que a Escola de Princesas e os pais dessas meninas querem transmitir a elas. “É preciso redividir essa forma social de viver”, fala. Para ela, é no próprio cotidiano de uma casa que é possível atrair meninos e meninas para as tarefas domésticas. “Não sei se precisa de uma escola para isso”, afirma.

Outro agravante, segundo ela, está nas aulas de educação sexual oferecidas na instituição. “Parece que lá, tudo tem consequência na maternidade, mas estamos em um momento em que a mulher está discutindo se quer ou não ter filhos, que quer engravidar sozinha... É lógico que a gravidez na adolescência é uma preocupação nossa, mas precisamos educar essas meninas para terem autonomia sobre o próprio corpo, conhecer as consequências e não ficar submetida aos príncipes”, reforça.

A especialista informa que as pesquisas mostram que as adolescentes engravidam não é por falta de informação, mas para manter o namorado por perto. “Não é colocando a adolescente na condição de obediência que vamos mudar isso”, declara. “Eu realmente não sei com que noção essas meninas estão saindo de lá. Porque se o mundo em volta delas está dizendo que essa mulher - que tem que dar conta de tanta coisa – é possível, e se essa menina não conseguir? Quando a gente tem sucesso é todo mundo, quando não tem, o fracasso é só nosso”, encerra.

Complexo de Cinderela
Garth Vaughan/Disney via Getty Images/AFP
Cinderella e Bela (da Fera) posam para fotos com fãs na Disney: o complexo que fica quando a mulher busca inconscientemente o 'príncipe' e a vida perfeitos pode causar problemas na autoestima (foto: Garth Vaughan/Disney via Getty Images/AFP)
A linha de raciocínio é compartilhada pela psicanalista e psicopedagoga Cristina Silveira. “Minha geração, que hoje tem 50 anos, ainda foi criada para casar. As meninas realmente eram educadas para ser princesas, preparar lindos pratos e estar sempre bem arrumada e bonita para o marido. Se uma menina resolvesse brincar com carrinho, era o fim do mundo. Dentro desse modelo, só havia a opção de fazer magistério. Atualmente, isso ainda acontece, mas com frequência bem menor”, descreve. “Mas, até hoje, muitas meninas são criadas para esperar o príncipe – têm que fazer o cabelo, as unhas, apresentar bons modos para namorar, noivar, casar. E pode ser que elas não queiram nada disso, e sim viajar, trabalhar, estudar, fazer engenharia, medicina ou ser uma atleta”, aponta.

Cristina diz ainda que o argumento de valorizar o conteúdo dos cursos – afinal, quem poderia condenar o ensino de boas maneiras e de autoestima? - é falso. “O que uma escola como essa ensina não são boas maneiras. Gentileza é algo que aprendemos com a vida, com os exemplos que temos, e não em um curso de três horas ou três meses. Faz parte da construção do caráter. Não adianta aprender modos da realeza com uma coroa na cabeça, se o processo de formação se restringe a uma sala decorada com cores de princesa. Ela está maquiando uma situação que não vai impedir essas meninas de maltratar uma pessoa idosa ou um professor, caso não tenham bons exemplos em casa”, diz, taxativa.

A especialista critica a estratégia de marketing, muito eficiente, mas questionável. “Sabemos da importância dos contos de fadas para as crianças na elaboração dos conflitos, na construção da criatividade e de suas fantasias. No entanto, quando se utiliza a princesa para transformá-la em foco de mercado bem aquecido e lucrativo, a situação é preocupante. Vivemos numa sociedade em que tudo parece ter sido mercantilizado, inclusive o universo infantil”, afirma a psicanalista.

Cristina completa que o produto vendido pode ser considerado uma “propaganda enganosa, já que dificilmente essas meninas se tornarão princesas e elas não atrelam a ideia de princesa à de uma personagem que realiza trabalhos domésticos. Ou seja, essa escola vende uma falsa ideia de realeza”. Ela critica a missão estampada no site da instituição: “oferecer serviços de excelência, que propiciem experiências de natureza intelectual, comportamental e vivencial do dia a dia da realeza para meninas, com idades entre 4 e 15 anos, que sonham em se tornar princesas, e fazê-las resgatar a essência feminina que existe em seus corações”.

A especialista critica o que essa escola entende por essência feminina. “Esses valores incluem joias, tiaras, vestidos cor-de-rosa, saltos e atitudes de princesas para serem aceitas e amadas numa sociedade, que na verdade, apresenta outra realidade para a mulher. Tudo isso lembra o já conhecido 'complexo de cinderela', que teve origem na educação, na cultura e nas sociedades essencialmente ocidentais”, defende.

A psicanalista relaciona o caso da escola de Uberlândia a um 'complexo de cinderela'. Ela explica que, durante muito tempo, o papel da mulher era ficar em casa. Com a mudança que se instensificou nas últimas décadas, o complexo da Cinderela surge quando existe um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes. “Neste fenômeno, existe uma crença da menina, ou 'princesa', de que ela terá para sempre alguém que a proteja e a sustente. Independentemente da idade, dentro dessas mulheres há uma criança que assombra todos os níveis da sua vida e que ambiciona ter um 'príncipe perfeito'. Consequência disso: ela torna-se insegura em vários níveis da vida, assombrada por todas as espécies de medos e dúvidas. Quando esse príncipe nunca chega, as mulheres que sofrem desse complexo subestimam-se, sabotam-se e menosprezam-se”, conclui Cristina Silveira, criticando também o culto à ostentação e à riqueza material.

Montagem: Salomé, de Franz Von Stuck e A Virgem do Cravo, de Leonardo da Vinci
"A mulher nasce sob o signo da ambiguidade com mitos associados à polaridade: a virgem e a messalina, por exemplo. Uma mulher que quer ser princesa esconde e reposiciona o feminino no interior dessa ambiguidade: ela tem que ser sedutora, mas não pode seduzir" - Paulo Henrique de Queiroz Nogueira, professor da Faculdade de Educação da UFMG (foto: Montagem: Salomé, de Franz Von Stuck e A Virgem do Cravo, de Leonardo da Vinci)
Educação não-sexista é tarefa para vida toda
Paulo Henrique de Queiroz Nogueira, professor da Faculdade de Educação da UFMG, afirma que do ponto de vista dos imaginários sobre o feminino sempre pesa muito o duplo sentido. “A mulher nasce sob o signo da ambiguidade com mitos associados à polaridade: a virgem e a messalina, por exemplo”. Ele explica que apesar de a sedução da mulher passar pelo corpo, pelo desejo e pela sexualidade, ela é transmutada em algo inocente como preparar uma bela mesa ou se vestir com elegância. “Uma mulher que quer ser princesa esconde e reposiciona o feminino no interior dessa ambiguidade: ela tem que ser sedutora, mas não pode seduzir. Ela até pode mostrar suas potencialidades, mas dentro de um limite - na comida, na boa mesa, anunciando que será uma boa esposa”, exemplifica. Para ele, o lugar de submissão muitas vezes é marcado pela violência doméstica. “Ao homem compete dizer a que veio, a ela compete amparar. É isso que é ser a princesa? É isso que se espera dessas meninas?”, questiona.

O professor da UFMG lembra que, no Brasil, até a década de 60, as escolas de meninos e meninas eram separadas. “Escola unisex é algo muito recente”, afirma. Para ele, o desafio nesses poucos mais de 50 anos tem sido aprender a lidar com a convivência dessas crianças e adolescentes. “A escola trata esses corpos como assexuados, trata a todos como alunos e alunas e não como meninos e meninas. A escola tenta apagar essas dimensões corporais mais marcantes que diferenciam os gêneros”, explica.

No entanto, segundo ele, não consegue. “O desejo fura a ideia de impessoalidade e aí entramos no debate: a escola deve referendar ou não essas dimensões dentro dela?”, pergunta. O especialista afirma que o comportamento social sexista e machista é traduzido dentro das instituições de ensino. “O contexto social perpassa todo o universo escolar”, diz. Paulo cita o fato de existirem poucos homens na educação infantil. “Quando há, esses profissionais são impedidos de estarem sozinhos com as crianças”, fala.

Para Paulo Henrique, não há possibilidade de a escola não transmitir alguma expectativa de gênero. “O temor da sociedade influencia nas políticas de educação que avançam em alguns casos e em outros, nem tanto. O que a sociedade precisa discutir é: o que queremos para as escolas?”, sugere.

Sobre a Escola de Princesas em Uberlândia, o educador conta que a antiga escola normal – exclusiva para mulheres – também formava esposas, mas com o pretexto de ensiná-las a tarefa de professora. “Era necessário uma base científica para a instituição existir enquanto escola. O retorno dessa experiência sob outros contornos e roupagens coloca esse tema em debate de novo. É esse tipo de conotação ao feminino que se espera dessas meninas? O que se espera dos meninos? Não dá para julgar a experiência em si, mas é importante provocar a discussão”, completa.

O professor gosta de frisar que os próprios pais já carregam esses mecanismos de gênero ao escolher as roupas e brinquedos que se oferecem a meninos e meninas. Para ele, nas brincadeiras já se percebem quem tem que enfrentar o perigo e quem tem que ficar mais temeroso, lidando com detalhes. “É bom questionar esse modelo. A educação não-sexista é tarefa para a vida inteira. As pessoas precisam se propor a escutar, a dialogar. Por que é algo tão temerário perder lugares naturalizados?”, provoca.

Algumas imagens que ilustram esta matéria fazem parte do projeto 'Princesas da Disney decadentes', da fotógrafa canadense Dina Goldstein. Clique para ver a galeria de fotos

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