Filarmônica comemora os 60 anos do violoncelista Antonio Meneses e do maestro Fabio Mechetti

Peça de Hans Gál, perseguido pelo nazismo, celebra a vitória da esperança sobre o horror e a morte

por Ana Clara Brant 02/08/2017 08:30

Eugênio Sávio/Divulgação
Antônio Menezes e Fábio Mechetti durante ensaio na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. (foto: Eugênio Sávio/Divulgação)

Fabio Mechetti nasceu no fim de agosto de 1957, na capital paulista. Hoje, vive na ponte aérea Belo Horizonte-Jacksonville (EUA). Antonio Meneses nasceu no final de agosto de 1957, no Recife, foi criado no Rio de Janeiro e mora na Suíça. Além de completar 60 anos este mês e dividir o mesmo signo – virgem –, a dupla tem em comum uma paixão: a música erudita.

Enquanto Mechetti, diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, é um dos maestros mais conceituados do país, Meneses é o violoncelista brasileiro mais aclamado do mundo. Nesta quinta, 03, e sexta-feira, 04, os dois dividirão o palco da Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. Os concertos celebrarão os 60 anos da dupla.

O momento será especial. Pela primeira vez, Meneses interpretará ao vivo o Concerto para violoncelo, composto pelo austríaco Hans Gál, já gravado por ele. ''A peça foi escrita por um judeu que sofreu com o nazismo, teve a família levada para campos de concentração. O filho dele se matou com 18 anos e logo depois Hans foi pai novamente. Tem uma nostalgia, uma tristeza, mas também renovação. A gente ouve e sente isso quando a música é executada'', revela o violoncelista.

O primeiro contato do pernambucano com o Concerto se deu por meio do neto do compositor, o violoncelista Simon Gál, produtor de seus últimos discos. ''Confesso que eu mesmo não conhecia essa peça. O Antonio Meneses sugeriu e fiquei encantado. Embora não seja muito conhecida, é muito melódica e bonita. Vai ser uma boa surpresa'', adianta Mechetti.

O repertório traz também O beijo da fada: Divertimento, do compositor russo Igor Stravinsky, peça encomendada pela atriz e dançarina ucraniana Ida Rubinstein para lembrar o 35º aniversário da morte de Tchaikovsky (1840-1893). O argumento veio de A dama das geleiras, conto de Hans Christian Andersen.

Um ato de fé foi composta pelo brasileiro Levy Oliveira, finalista do Festival Tinta Fresca em 2016. O concurso é promovido pela Filarmônica para estimular autores de música sinfônica. Oliveira se inspirou em A música das almas, de Vinicius de Moraes. Assim como o poema, a peça destaca a oposição entre tormenta e calmaria, em jogo de episódios camerísticos.

Fabio Mechetti diz que não é fã de festas de aniversário, mas está feliz em comemorar seus 60 anos junto de Meneses. ''É uma coincidência a gente ter nascido tão próximo, no mesmo ano. Ele é apenas quatro dias mais velho do que eu. Não sou muito de comemorar e nem fã de festas, mas seja lá o que estejam preparando, acho que vai ser bacana'', diz o maestro.

A relação dos dois vem de longa data. A primeira vez em que se apresentaram juntos foi há cerca de 20 anos, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Antonio Meneses fazia parte do Beaux Arts Trio, uma das mais prestigiosas formações de câmara do mundo, enquanto Mechetti regia a orquestra do Municipal. ''Era uma peça de Beethoven. Desde então, passamos a nos esbarrar em várias ocasiões em concertos dentro e fora do Brasil'', recorda o violoncelista.

Com a Filarmônica, criada em 2008, Meneses já fez 13 concertos, inclusive na turnê realizada na Argentina e no Uruguai, há cinco anos. A última vez foi em 2015, justamente na inauguração da Sala Minas Gerais, sede da orquestra.

''Grandes músicos sempre têm lugar cativo em nossa orquestra. Esse é o caso do Antonio Meneses'', afirma Mechetti. ''É uma das orquestras do meu coração. Sempre gostei de tocar em BH, porque sei que vou encontrar a mais alta qualidade de trabalho, performances de alto nível. Depois da inauguração da Sala Minas Gerais, tudo ficou mais especial'', ressalta o violoncelista.

DUO Além dos concertos com a Filarmônica, Antonio Meneses vai se apresentar este mês em duo com a pianista Celina Szrvinsk, professora da Universidade Federal de Minas Gerais. A agenda dos dois começa em 24 de agosto, em Goiânia, e segue em Belo Horizonte (29/8, no Teatro Bradesco) e Congonhas (dia 30/8, no Museu de Congonhas). No dia 22, véspera do aniversário do violoncelista, haverá um recital fechado.

''Todos esses eventos são para celebrar os meus 60 anos. Inclusive, no dia 23, estarei em Belo Horizonte. Aliás, foi em BH que conheci o André Mehmari (pianista, compositor e arranjador), quando me apresentei com a Filarmônica da última vez. Vamos lançar um disco reunindo temas clássicos e populares, que vai se chamar AM 60 e AM 40, para marcar os meus 60 anos e os 40 dele'', conclui.

ORQUESTRA FILARMÔNICA DE MINAS GERAIS E ANTONIO MENESES
Quinta-feira (3/8) e sexta-feira (4/8), às 20h30. Sala Minas Gerais, Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto. Regência: Fabio Mechetti. Ingressos: R$ 40 (balcão palco e coro), R$ 50 (mezanino), R$ 62 (balcão lateral), R$ 85 (plateia central) e R$ 105 (balcão principal). Meia-entrada de acordo com a legislação. Informações: (31) 3219-9000 e www.filarmonica.art.br


PROGRAMA

L. OLIVEIRA
Um ato de fé

STRAVINSKY
O beijo da fada: Divertimento

Hans GÁL
Concerto para violoncelo, op. 67

Saiba mais
Hans Gál
Compositor e professor, Hans Gál (1890-1987) nasceu num vilarejo perto de Viena, na Áustria. Em 1929, passou a dirigir o Conservatório de Mainz, na Alemanha. Quando Hitler subiu ao poder, Gál se mudou para a Escócia e deu aulas na Universidade de Edimburgo. Quando Mussolini declarou guerra à Grã-Bretanha e à França, Churchill, primeiro-ministro britânico, determinou que alemães, austríacos e italianos que viviam no país fossem isolados, sob suspeita de serem ''inimigos''. Separado da mulher e dos filhos, o músico foi enviado para os acampamentos de Huyton e Douglas. A tragédia estava só começando. Ao saber que seriam confinadas no campo de concentração polonês de Auschwitz, a irmã e a tia dele se suicidaram. O caçula de Gal também se matou, aos 18 anos. Em 1944, Eva, filha do músico e de sua mulher, Hanna, ajudou-os a superar os traumas de guerra. Gál, então, compôs o Concerto para violoncelo, que será executado em BH.

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