Estudo demonstra que música brasileira perdeu qualidade

Analista Leonardo Sales cita três razões para o fato: a absorção da música brasileira pelo rock, a popularização do rap e do hip-hop e a guerra televisiva dos anos 1990, que influenciou a linha de criação de hits

por Adriana Izel 16/07/2017 10:00
Robert Schwenck/divulgação
Chico Buarque criou os acordes mais raros da música brasileira, de acordo com estudo (foto: Robert Schwenck/divulgação)

A música brasileira é bastante diversificada – vai da bossa nova ao rap, da MPB ao sertanejo, do samba ao axé. Porém, críticos e parte do público têm contestado sua qualidade, apontando o empobrecimento dessa importante manifestação cultural do país. Estudo publicado pelo analista Leonardo Sales na internet demonstra verdade nessa premissa.

Em Análise da música brasileira, Sales estudou acordes e letras. Um dos parâmetros adotados foi a evolução temporal da produção nacional, considerando todos os ritmos. Segundo ele, houve declínio da complexidade da música criada no Brasil, quando se leva em conta os acordes (quantidade, tamanho e raridade).


A primeira “queda” nesse quesito se deu nos anos 1960. Depois, a tendência se fortaleceu no fim dos anos 1980 e início dos 1990, permanecendo constante até hoje.


O analista cita três razões para o fato: a absorção da música brasileira pelo rock – primeiramente, com a Jovem Guarda, na década de 1960, quando houve a primeira queda no quesito acordes –; a popularização do rap e do hip-hop, com harmonias mais simples nos anos 1980; e a guerra televisiva dos anos 1990, que influenciou a linha de criação de hits. “A produção de música de prateleira foi o golpe final na complexidade das composições brasileiras”, diz Sales.

LETRAS Por outro lado, o pesquisador aponta artistas e estilos mais complexos da cena brasileira. O ranking geral, que considera variáveis relacionadas a acordes e letras (raridade, quantidade, percentual e tamanho), é encabeçado por Chico Buarque. O autor de Construção lidera o índice de raridade de acordes e ocupa a terceira posição no quesito quantidade de palavras.


O segundo colocado nesse ranking da complexidade é Djavan. O alagoano se destacou nas categorias raridade de acordes e quantidade de harmonias diferenciadas. O ranking dos 10 mais tem ainda Ivan Lins, João Bosco, Ed Motta, Caetano Veloso, Lenine, Vinicius de Moraes e Gilberto Gil.


O estudo destaca Ed Motta e Lenine, que tiveram bons índices relativos a acordes de suas composições. Lenine é o autor que mais usa harmonias desconhecidas, enquanto Ed Motta se destaca na área de acordes únicos.
De acordo com Sales, a MPB é o estilo mais completo em relação a harmonias, seguida por bossa nova, samba e pagode (analisados como gênero único) e gospel.


Quando se fala de amplitude de vocabulário, o campeão é o rap, seguido por MPB e música regional. “Alguns resultados me surpreenderam. Outros eu já esperava. O protagonismo da MPB já era previsto, com sua música muito complexa. Sabia também que as letras do rap teriam destaque, apesar de o gênero trazer harmonia mais simples”, comenta Leonardo Sales.


De acordo com ele, o grupo Facção Central apresentou mais variações de letras. Nos anos 1990, essa banda de rap se tornou famosa com versos fortes que denunciam as mazelas do país. Destacam-se ainda Apocalipse 16, Chico Buarque e Caetano Veloso.

ACORDES Levando em consideração a similaridade de acordes, Leonardo Sales chegou a cinco classificações relativas à musica brasileira, batizadas de Feijoada clássica, Mistureba, Leve seu filho pro bom caminho, Ouça com seus pais e Pra ninguém reclamar.


Mistureba engloba rock oitentista, axé, forró atual e sertanejo atual, reunindo Legião Urbana, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Asa de Águia, Babado Novo, Cheiro de Amor, Fernando & Sorocaba, Falamansa e Calcinha Preta. Polêmico? Leonardo explica: “A impensável junção da Legião e Asa de Águia ocorre no Mistureba porque ali se juntaram os acordários mais enxutos, como é próprio da Legião, dadas as influências do rock inglês e do punk. A axé music também investe em harmonias simples.”


Em Pra ninguém reclamar (MPB atual, axé, pagode, reggae e funk melódico), o pesquisador reuniu Lenine, Chico César, Cássia Eller, Claudinho e Buchecha, Perlla, Netinho, Banda Eva, Natiruts e Armandinho. As demais classificações são menos surpreendentes. Leve seu filho pro bom caminho, por exemplo, mescla rock dos anos 1990 e punk (Raimundos, Charlie Brown Jr., Tianastácia, Mamonas Assassinas e Planet Hemp).


Ouça com seus pais tem MPB e samba (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maysa, Herivelto Martins, Baden Powell, Toquinho, Cartola, Arlindo Cruz e Exaltasamba), enquanto Feijoada clássica juntou brega, sertanejos antigos e Jovem Guarda. A íntegra do estudo Análise da música brasileira está disponível em https://leosalesblog.wordpress.com/

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