Neta do famoso tenor italiano Giulio Crimi comanda escola em Belo Horizonte

A soprano Gabriella Crimi diz ter a missão de manter a tradição de seu clã

por Ana Clara Brant 16/07/2017 11:00

Acervo de família
O cantor lírico Giulio Crimi e o filho, Nino, que ensinou canto em Belo Horizonte nos anos 1980/1990 (foto: Acervo de família)
A história dos Crimi, tradicional família musical da Itália, começou em Paternò, na região da Sicília. Percorreu os Estados Unidos, a Colômbia e veio parar em Belo Horizonte, depois de passar por Rio de Janeiro, Recife e Natal.
Nascido em 1885, o patriarca Giulio iniciou a carreira de cantor lírico em 1911. Seis anos depois, convidado por seu empresário – o mesmo de Enrico Caruso (1873-1921), considerado o maior tenor de todos os tempos –, ele se mudou para Nova York. Fez parte do casting do Metropolitan até 1926.

“Meu avô Giulio se mudou com a minha avó, de quem herdei o nome, para os Estados Unidos, deixando os dois filhos, incluindo meu pai, na Itália. Vovó não queria perder o marido, por isso foi junto com ele. Sempre que podiam, voltavam para rever os filhos e os parentes. A viagem de navio levava um mês”, conta a neta de Giulio, a cantora Gabriella Crimi, de 51 anos.


Diego, o terceiro filho do tenor, nasceu nos Estados Unidos e foi batizado por Caruso. Em 1926, quando teve um derrame ocular, Giulio voltou para Roma e passou a ensinar canto. Foi professor do famoso barítono italiano Tito Gobbi e do astro do cinema Gary Cooper. Apesar de não cantar, o ator norte-americano fazia aulas devido à transição do cinema mudo para o falado, que exigia impostação vocal dos artistas.

“Meu avô foi um grande tenor, mas morreu cedo, em 1939, com apenas 54 anos, devido a um infarto fulminante”, diz Gabriella. Soprano dramática, a neta de Giulio comanda a Escola Italiana de Canto, em BH. Desde 2006, ela ensina técnicas de canto lírico e popular, preparando e selecionando cantores para a Companhia Lírica Nino Crimi, criada em homenagem ao pai. A sede de ambas fica no Bairro da Serra.

Nino Crimi estreou ainda criança, cantando no Coral da Capela Sistina, no Vaticano, e se apresentou na Europa e na África. “Um dos espetáculos mais marcantes de meu pai foi a ópera Aída durante as celebrações do aniversário do Cairo, no Egito. O cenário foi montado ao lado das famosas pirâmides. Ele sempre se emocionava ao se lembrar dessa apresentação”, conta Gabriella.


GUERRA Durante a Segunda Guerra Mundial, Nino foi convocado pela Cruz Vermelha para atuar como enfermeiro. Naquela época, cantou para Adolf Hitler. “Papai sempre ficava nervoso, pois nunca imaginava qual seria a reação do Hitler. Porém, o führer sempre o cumprimentava”, relata Gabriella. Nino atuou no filme O elixir do amor (1947) ao lado das estrelas Gina Lollobrigida e Silvana Mangano. Depois da guerra, com a Itália destruída, o tenor veio para a América. No Brasil, foi convidado para trabalhar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Durante uma das turnês com a companhia carioca, ele se apresentou em Cáli, na Colômbia, onde conheceu a segunda mulher, Delly, 24 anos mais nova. “Foi amor à primeira vista. Papai já estava separado e acabou trazendo a mamãe para morar no Brasil. Ele rodou o país e chegou a se apresentar em São Paulo com Maria Callas. Nasci no Recife durante uma temporada de La Traviata”, conta Gabriella.

BH Nino Crimi deu aula na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, onde Gabriella foi criada. “Estudei nessa escola, meu pai foi meu professor. Tudo o que sei aprendi com ele, seja em casa ou na universidade”, diz a soprano. Em 1984, Nino se mudou para a capital mineira, onde tinha amigos – entre eles, o bailarino e coreógrafo Klauss Vianna.

“Papai adorava BH. Começou a dar aulas de canto e preparação vocal para várias personalidades, como Fernando Brant (compositor), Tadeu Franco (cantor) e Murilo Badaró (político e advogado)”, diz Gabriella. Quando o pai faleceu, em 1995, Gabriella passou a ensinar. Foi assim que surgiram a Escola Italiana de Canto e a Companhia Lírica Nino Crimi. O grupo reúne as sopranos Lourdes Nassif e Luana Dourado, a contralto Fátima Masieiro, o tenor Danilo Alvim e o barítono Luiz Eduardo Pacheco.

Em junho, a companhia se apresentou na Associação Médica de Minas Gerais e, em novembro, haverá um concerto especial no Teatro Bradesco. “Todo mundo que está na companhia passou pela escola. As aulas são particulares e temos alunos de 10 a 90 anos. Qualquer pessoa pode aprender a cantar. Tenho muito orgulho da minha família, por isso faço questão de continuar perpetuando essa história”, diz Gabriella Crimi.

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