RZO lança CD de inéditas e manda recado para o Brasil em crise

Pioneiro do rap nacional, grupo renova batidas e aposta em letras politizadas para conquistar os jovens

por Ângela Faria 27/06/2017 08:00

Levi Cruz/Divulgação
Calado, Nego Jam, Helião, DJ Cia e Sandrão: primeiro disco de inéditas em 14 anos. (foto: Levi Cruz/Divulgação)

Não tem essa de revival, muito menos de requentar ao vivo hits do passado para tentar conquistar a juventude do século 21, como tanto tiozão oitentista anda fazendo por aí. Depois de 14 anos sem apresentar disco de inéditas, o grupo paulista RZO, pioneiro do rap nacional, lança o álbum Quem tá no jogo. Contundentes, as letras batem pesado. Miram o país que articula o fim do Estatuto do Desarmamento enquanto a juventude negra é dizimada. Advertem que violência não é coisa só de favela, pois as manchetes não se cansam de mostrar ''casos conjugais que terminam em intrigas fatais''. Mais 2017 impossível: ''Um marido demente/ mata a esposa inocente/ com os filhos presentes'', versa Helião em As armas que matam.

 

A Rapaziada da Zona Oeste é meio fênix. Depois de 15 anos de bem-sucedida carreira, separou-se no auge, em 2004, para voltar em 2014 com as arestas devidamente acertadas. De lá para cá, o grupo burilou o repertório, fez shows e lançou singles, enquanto os integrantes desenvolveram projetos individuais.

''Quem tá no jogo é um disco voltado para o jovem, porque o jovem é o futuro do país'', resume o rapper Helião, de 48 anos, enfatizando que o compromisso do RZO é político, sobretudo nestes tempos de crise. ''É preciso levantar a voz, porque estão investindo pesado na desinformação, na ignorância social. O sistema está unido pra amassar a gente. Unidos, vamos bater de frente'', afirma.

Foi-se o tempo em que rap se limitava ao gueto. ''Acabou esse negócio de playboy de um lado, molecada da favela de outro. O nosso alvo é unificar os jovens independentes, estejam eles onde estiverem'', avisa Helião. Mas o RZO continua porta-voz das ''quebradas'' em suas 19 faixas. Já na introdução, ouve-se um manifesto contra a apatia: ''Confiar/ estudar/ combater/argumentar/ gritar, se for preciso''.

 

 

Algumas letras, mais antigas, foram adaptadas; outras surgiram recentemente. Ano passado, dois singles bombaram na internet: Jovens à frente do tempo (1,5 milhão de visualizações no YouTube) e Paz em meio ao caos (1,6 milhão de visualizações), esse último parceria com o Bone Thugs-N-Harmony, aclamado grupo de hip-hop norte-americano. À formação original – Helião, Sandrão e DJ Cia – juntaram-se Calado e Nego Jam. A cantora Negra Li, que participava do grupo nos anos 1990, faz participações especiais tanto no disco quanto em shows e clipes.

Quem tá no jogo é ''old school'', mas traz um rap revigorado por batidas contemporâneas. O trap, ritmo criado no Sul dos EUA, dá peso às rimas engajadas. Burilada pelo experiente DJ Cia, a sonoridade mescla coral, melodia e até percussionistas das escolas de samba Gaviões da Fiel e Camisa Verde e Branco.

De acordo com Helião, o RZO investe para valer na musicalidade. ''Rap tem que chegar redondo no ouvido das pessoas. Às vezes, ele é monótono'', admite o experiente MC e produtor, responsável pelo lançamento, na década de 1990, de ninguém menos que Sabotage (1973-2003) – ícone do hip-hop nacional.

EGO

Antes de tudo, reforça Helião, o grupo tem o compromisso de dialogar com o Brasil contemporâneo. ''A gente poderia estar se dando bem fazendo música de festinha, satisfazendo o nosso ego, mas o compromisso é com o nosso povo'', avisa o MC.


''Temos pressa/ Desarmamento não é comédia/ Sangue na tela/ Tiroteio, caixão e velas'', diz a letra de As armas que matam. Revolta dos humildes lista chacinas ocorridas em Perus, Jardim São Luís, Osasco, Carapicuíba, Itapevi, Campinas e Tucuruvi, entre outras ''quebradas'' brasileiras (''Os caras ligaram para o Samu/ Solicitaram logo o socorro/ Ouviram o pipoco/ Na calçada/ Adolescente morto''). Uma multidão denuncia a indiferença do brasileiro diante do genocídio de jovens pobres e pretos: ''A história vai mostrar/ que os piores momentos/ não foram as ações do cuzão violento/ mas sim dos bons que continuam vendo/ tudo assim/ com indiferença e silêncio''. Porém, há esperança. Maria Luiza, inspirada na reportagem que Helião leu sobre a ação de uma ONG, conta a história da ex-menina de rua e ex-prostituta que hoje dá aulas para garotos da Febem.

Um time de convidados especiais participa do disco: Criolo, Rael, Lino Krizz, Nino Cobra, Junior Dread, Srta Paola, Bassinsane, Billy SP e Gaudy, além do lendário Bone Thugs-N-Harmony. Helião diz que a ideia é lançar pontes. Ele próprio mantém conexões com expoentes do rap norte-americano e trabalha há anos com o Racionais. Sandrão se dedica ao cinema e desenvolve projetos na área audiovisual. DJ Cia, que toca com Seu Jorge e vários artistas, tem parcerias estrangeiras.

O hip-hop nacional tem dificuldade de aceitar novidades – e perde com isso, adverte o MC do RZO. Para Helião, são bem vindos os projetos de Mano Brown – que fez Boogie naipe, um disco solo romântico, dedicado à soul music – e de Criolo, que acaba de lançar Espiral de ilusão, CD totalmente voltado para o samba. ''Tem que abrir a mente e se libertar daquelas coisas 'da cartilha', tipo não pode fazer isso, não pode ir na televisão, não pode fazer parcerias para evoluir'', diz. O importante é a mensagem chegar ao público. ''Fui no Danilo Gentili, quero ir na Globo. Quero ir lá pra dizer o que precisa ser dito'', reitera.

LAJE

Não é exagero dizer que a laje da casa de Helião está para o hip-hop assim como a sala e o quintal de Tia Ciata estão para o samba. Na década de 1980, naquele ''andar de cima'' no bairro do Pirituba, Racionais, Dina Di, Sabotage, Dexter, Rapin Hood e tantos outros trocaram ideias e beats que deram origem a clássicos do rap.

 

Criolo, meninote de seus 15 anos, também bateu ponto naquela laje. ''Ouvi o rap dele, e disse: 'Já tá fazendo certinho. Tá acima da média. Só há uma coisa entre o sucesso e você: o tempo''', conta Helião, relembrando a visita que recebeu do autor de Não existe amor em SP. Recentemente, o Kléber (como o veterano se refere a ele) rememorou aquele papo. ''Aquelas cinco palavras decidiram a minha vida'', disse Criolo a Helião.

MATILHA

Helião leva o espírito de sua laje para as ruas. Em maio, bem antes dos showmícios promovidos recentemente por artistas no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, ele ajudou a organizar manifestação em favor das eleições diretas na Matilha Cultural, no Centro da capital paulista. ''Lotou, paramos a rua em plena quarta-feira'', orgulha-se. Ao fim da manifestação, previu: ''Isso aqui vai abrir caminho para uma (avenida) Paulista, uma São João, uma coisa grande. Aqui estão os excluídos, os caras que não são chamados pra nada, entendeu? É importante organizar essa parte do rap''.


Para Helião, neste momento histórico em que o povo desacredita da política, é preciso investir na união. ''O artista tem esperança para oferecer. Se ninguém fizer nada, ficamos no buraco negro. Se ficarmos parados, não vamos conseguir, ficaremos à mercê de falsos salvadores'', avisa.

 

Abaixo, confira o clipe de Jovens à frente do tempo: 


QUEM TÁ NO JOGO

• RZO
• Produção independente
• Disponível nas plataformas digitais

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