Documentário sobre Sepultura traz retrato sincero dos 33 anos da banda

Max e Iggor Cavalera se recusaram a participar do longa, que chega aos cinemas nesta quarta-feira, 14

por Mariana Peixoto 14/06/2017 08:19
O2 Play/Divulgação
Eloy Casagrande, terceiro baterista a integrar a banda, ensaia em estúdio. (foto: O2 Play/Divulgação)
No ônibus da turnê que percorre os Estados Unidos, uma DR se passa com o Sepultura. Enquanto o baixista Paulo Jr. e o vocalista Derrick Green permanecem calados, o guitarrista Andreas Kisser tenta convencer o baterista Jean Dolabella de que a melhor decisão é ficar na banda.

Dolabella sabe que está no auge da carreira. Mas não está conseguindo mais. São meses e meses na estrada longe da família. A distância e o ritmo intenso estão minando suas forças.

A conversa é amigável e franca, mas parece definitiva. Kisser e Dolabella só percebem que estão sendo filmados quando dão o assunto por encerrado. No fim de 2011, pouco tempo depois desta conversa, o baterista deixa o grupo, sendo substituído pelo menino prodígio Eloy Casagrande.

Sepultura endurance, documentário de Otávio Juliano que tem pré-estreia nesta quarta-feira, 14, e chega quinta, 15, ao circuito comercial, tem seus melhores momentos em registros como este. Quando está só com sua câmera e filma algo que não está previsto, o realizador consegue instantes absolutamente sinceros.

Outra parte do filme traz um registro um tanto convencional de uma banda que nunca se ateu a convenções. Mas, a despeito das ausências de Max e Iggor Cavalera, que se negaram a participar do projeto, o longa consegue mostrar como é ser uma força do metal por mais de 30 anos.

Projeto que consumiu sete anos, Endurance nasceu da vontade de Otávio Juliano. Até então ele havia dirigido A árvore da música (2009), documentário que mostra a história do pau-brasil através de sua relação com a música. Por cinco anos o realizador fez todas as captações sozinho e sem verba (conseguiu patrocínio apenas para a finalização).

O diretor acompanhou a turnê americana de 2011, a gravação do álbum Kairos (2012) e a turnê de 30 anos do grupo, que serve como espinha dorsal do documentário. Recheando estes registros, estão entrevistas com os integrantes da banda (Kisser atua como fio condutor da história), com pessoas próximas do grupo (João Gordo um deles) e ainda com estrelas do metal (Lars Ulrich do Metallica; Dave Lombardo, ex-Slayer, atual Suicidal Tendencies; e Corey Taylor, do Slipknot, entre outros, que se desdobram em palavras elogiosas).

CAVALERA
Há ainda forte documentação, com registros em vídeo e fotos do início da banda, e material inédito, como imagens do Sepultura com os índios Xavantes durante a gravação de Roots (1996).

As dificuldades de patrocínio, atrasaram o projeto, inicialmente programado para comemorar os 25 anos de banda, ele sai agora com o grupo se aproximando dos 34 anos. No entanto, o documentário ainda viveu outro impasse. Max e Iggor, que aparecem em imagens históricas, não permitiram o uso de suas músicas executadas pela atual formação. Estas aparecem em trechos.
 
''Há sete anos os dois foram convidados. Vários e-mails foram trocados, mas há três anos ficou claro para nós que eles não participariam. O filme não pode mostrar as músicas em sua integralidade. Só que as músicas não são só deles (os Cavalera), elas foram coescritas (com os outros integrantes)'', afirma o diretor.

Ainda que a trajetória do Sepultura seja definitivamente marcada pela saída de Max em 1996 (Iggor deixou o grupo uma década mais tarde), a opção do documentário não é colocar mais água na fogueira. Kisser fala sobre o ocorrido apontando Gloria Cavalera, mulher do vocalista e empresária do grupo na época, como a responsável pela crise interna. ''Ela atrapalhou tudo que estava acontecendo, colocando o Max em ônibus e camarim separado. Foi em Roots que a banda acabou'', diz Kisser a certa altura do filme. A história não vai muito além deste fato. A morte não esclarecida de Dana, filho de Gloria, ocorrida no período da saída do vocalista, é sequer citada no filme.

Sobre a saída de Iggor, o filme tenta deixar claro que não havia grandes desavenças. O baterista estaria cansado do ritmo de turnês constantes e quis dar um tempo, ao contrário dos outros integrantes. A entrada de Derrick Green é contada pela própria banda. O gigante negro de voz grave teve que enfrentar poucas e boas para entrar no grupo, pois nem a gravadora da banda (Roadrunner) o queria no lugar de Max.

COGUMELO
Para o público de Belo Horizonte, há passagens bastante saborosas. A melhor delas registra Paulo Jr. e Kisser indo até a Cogumelo Records. Os dois vão até o imóvel onde funcionavam a loja e o selo que lançou os primeiros discos do Sepultura. Hoje, o imóvel é ocupado por uma financeira. De lá, eles vão até o novo endereço da Cogumelo. Sem avisar, chegam ao local e se encontram com o antigo produtor, João Eduardo. Avesso a entrevistas, ele, pego de surpresa, tem uma conversa amigável (e saudosista) com os músicos.

Outro bom depoimento é o de Jairo Guedz, o guitarrista original do Sepultura, que deixou a banda por pura e espontânea vontade. Sem recalque ou qualquer arrependimento, ele fala do início do grupo em Santa Tereza e da escassez de recursos da época.

Mais de um entrevistado elege a química entre Max e Kisser (algo como Jagger e Richards do metal) como a responsável pela sonoridade do Sepultura. O guitarrista, que é uma figura de liderança no grupo, desmonta, na frente das câmeras, qualquer tentativa de ser protagonista. Endurance tenta reforçar a mesma tese. No documentário, o Sepultura é apresentado como um dos grandes do metal ainda hoje por causa da força de seus quatro integrantes. Sejam eles quem forem.

Três perguntas para...

Paulo Jr., Baixista do Sepultura

Como foi o processo de filmagem, ter a seu lado o tempo inteiro uma pessoa filmando o que se passava com a banda?
A gente se dispôs a isto, então eu, pessoalmente, tive que ligar o botão do foda-se, já que a ideia não era censurar nada. Conversamos bastante com o Otávio e, como o processo foi muito longo, acabamos ficando amigos. Foi ficando mais fácil com o tempo e ele respeitou muita coisa da nossa parte. Quando estou gravando, gosto de ficar sozinho. Não gosto nem dos caras da banda perto de mim. O Otávio teve que virar um homem invisível nessas horas.

Acha que o filme perdeu muito com a negativa de Max e Iggor de fazerem parte?
De alguma forma, a gente já estava preparado. Não foi surpresa quando eles falaram que não iriam participar. E acho que isso acaba até ajudando a gente a divulgar o filme. Querendo ou não, o mundo gosta de fofoca. Ou seja, a negativa acabou não atrapalhando.

Teve algum momento complicado em ver 33 anos de história na tela?
Primeiro, é que não gosto de me ver falando, não acho que fico bonito na tela. Mas quanto ao enredo, o diretor foi bem feliz. Foi direto ao assunto, não fica lavando roupa suja... Agora, o corte que vai para o cinema é bem um resumão de tudo. Não dá para resumir 33 anos em duas horas.
 
Abaixo, confira o trailer do filme:
 
SEPULTURA ENDURANCE
O documentário de Otávio Juliano tem pré-estreia nesta quarta-feira, 14, às 20h30, no Pátio 1; às 20h40, no Cidade 1; e às 21h, no Estação 6. Quinta-feira, 15, o filme chega ao circuito comercial.

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