Daniel Ganjaman rebate ideia de que ''só porcaria faz sucesso no Brasil''

O produtor defende a pluralidade musical brasileira e aposta na arte como antídoto à intolerância

por Ângela Faria 09/06/2017 08:00
Alexandre Gennari/divulgação
Aos 39 anos, ele é um dos produtores mais influentes na música brasileira (foto: Alexandre Gennari/divulgação)
Ângela Faria


Amanhã à noite, no Parque Municipal, Criolo apresentará aos mineiros seu disco Espiral de ilusão. No fundo do palco, um moço com jeitão de japonês vai monitorar todos os detalhes, cuidando para que nada atravesse o samba que o rapper abraçou com tanto esmero nesse novo projeto. Daniel Sanches Takara é engenheiro de áudio, tecladista, toca contrabaixo e guitarra. Também compõe e canta. “Operário” das mesas de gravação, não é apenas produtor de mão cheia. Ganjaman é um dos arquitetos da música popular feita atualmente no Brasil.


Esse paulistano, de 39 anos, produziu ao lado de outros jovens talentosos o clássico Rap é compromisso (2000), aclamado disco solo de Sabotage. Graças a ele e a Marcelo Cabral, Criolo desistiu da ideia de parar de cantar. Os dois produziram os quatro álbuns do artista (Nó na orelha, Convoque seu Buda, Ainda há tempo e Espiral de ilusão). Ganjaman também participou de Nada como um dia após o outro dia (2002), álbum icônico do Racionais MCs, e de A invasão do sagaz homem fumaça (2000), de Marcelo D2 e Planet Hemp. Ele produziu Do Oiapoque a Nova Iorque (2008), CD de estreia do rapper mineiro Flávio Renegado.

Ao contrário do que muita gente pensa, hip-hop não é a única praia dele. Ganjaman bate ponto na MPB e no rock. Garoto, participou da cena punk paulistana. Em 2001, lá estava ele entre os produtores de Samba esporte fino, que lançou Seu Jorge. Integrou o aclamado coletivo Instituto, que chacoalhou a música independente no início do século 21. Foi diretor musical do projeto de Criolo e Ivete Sangalo em homenagem a Tim Maia. Trabalhou com Nação Zumbi, Ratos do Porão, Otto, Clube do Balanço e Ivo Meirelles. Há 20 anos, sua família mantém o estúdio El Rocha em Pinheiros, na capital paulista, onde ele e os irmãos, Fernando Sanches e Mauricio Takara, “ralam” desde adolescentes.


Só em 2016, Ganja produziu – só de uma tacada – três CDs que fizeram parte das listas de melhores do ano: o álbum póstumo de Sabotage; Duas cidades, do grupo baiano BaianaSystem; e Coisas do meu imaginário, do rapper paulistano Rael. Modesto, postou nas redes sociais – onde exibe sua franqueza e não se furta, educadamente, a polemizar: “Fiquei feliz e honrado, mas que o disco do ano foi o da Mahmundi, disso não tenho dúvidas”.

STREAMING “A gente tem que se reinventar cem vezes”, afirma Daniel Ganjaman, referindo-se aos desafios impostos a produtores como ele pela revolução tecnológica, pois paradigmas se quebram freneticamente diante da sucessão de novidades no consumo de música. A chegada do MP3, o arraso da pirataria, a onda do streaming e o avanço de plataformas como o YouTube vieram chacoalhar o coreto da indústria fonográfica e, sobretudo, dos músicos.

Resumindo: todo mundo – astro, estrela ou indie – teve de se renovar. Ganja diz que o momento impõe novos paradigmas aos artistas, que por um bom tempo viveram numa espécie de “bolha” – de certa forma alienados, acomodados ao modelo baseado em leis de incentivo e patrocínios. “Agora, todos percebem a necessidade de se rearticular, empreender e se auto-organizar até de forma empresarial”, observa. “O grande mercado está totalmente bagunçado e nada indica que vá se estabilizar. Neste momento, temos o consumo de música via streaming e YouTube. Daqui a pouco, pode surgir algo diferente. Talvez o novo paradigma seja justamente a sucessão de metamorfoses”, especula.

Por outro lado, lembra ele, a derrocada da indústria fonográfica tradicional veio acompanhada de saudável democratização. Artistas já não dependem do aval de gravadoras: acessíveis, equipamentos cabem dentro de um quarto e dali saem discos incríveis. A música chega ao público pelas redes sociais – e não mais por decisão de manda-chuvas das majors. Com isso, ganharam visibilidade o rap, o funk carioca, o arrocha e outros ritmos que caíram no gosto do povão.

Ganjaman defende a pluralidade. Nas redes sociais, chamou a atenção para MC G-15, o autor do hit Deu onda – aquele do “meu pau te ama”. Diz que o funk carioca tem produzido batidas criativas, que vêm ganhando o mundo com as próprias pernas. “Já ouvi o Mr. Catra nas pistas alemãs”, lembra. Destaca o paulista Kondzilla, produtor da nova onda do funk nacional, que comanda o mais importante canal brasileiro do YouTube. Com seus vídeos, ele é um fenômeno mundial, com 7 bilhões de visualizações. Há talento e empreendedorismo aí, adverte Ganja. E rebate a “tese” de que só porcaria faz sucesso no Brasil, afirmando que é preciso respeitar o fato de milhares de pessoas se identificarem tanto com o funk carioca quanto com o sertanejo, por exemplo.


“A batida do funk é muito envolvente”, diz, lembrando que ela se insere no chamado global beat junto do kuduro, reggaeton e do afropop. “É a música moderna do gueto”. O experiente produtor reage a ataques a funkeiros e rappers, associados à cultura da violência e até do estupro. “Ali está o sintoma, não a causa. Tudo isso espelha este Brasil que despreza a educação, a cultura, a cidadania”, diz. Ganjaman destaca o papel do funk e do hip-hop como “expressão da realidade das quebradas”.

DEMONIZAÇÃO
Daniel chama a atenção para o perigo da intolerância que vem dominando tanto a política quanto a arte. A demonização de gêneros musicais é fato: há até projetos de lei em tramitação para proibir o funk. Articulador da manifestação em defesa das eleições diretas realizada em São Paulo no último fim de semana, com a participação de Criolo, Tulipa Ruiz, Emicida, Otto, Pitty, Mano Brown e Maria Gadú, ele acredita que o artista pode oferecer ao país um olhar construtivo, desarmando a cultura do ódio.


“O momento é de reestabelecer o diálogo perdido”, observa. “É esquerda apontando dedo para esquerda”, constata. Admirador do ex-presidente Lula, ele afirma que manifestações como as realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro transcendem a política tradicional.

“O Brasil está afogado nessa enxurrada de chorume, vive um momento triste de sua história. A arte, a música são uma força de esperança”, acredita. Porém ele pondera: esses showmícios são a contribuição de cantores para o diálogo, mas “com voz de comando”, sem ficar a reboque de ninguém. Ganja está convicto de que a música revitaliza a alma, sobretudo neste momento de crise e radicalização que só fazem alimentar a apatia e a descrença. “Ela é fundamental, trabalha o outro lado das pessoas. É preciso fazer algo para impedir que tanto pessimismo se alastre”, pondera. Com Espiral de ilusão, Criolo mergulha na tradição do samba para celebrar a esperança e a alegria.

“Esperavam da gente algo inovador, rap com música eletrônica, coisas assim. Pois fizemos o samba tradicional, que se vê pouco hoje em dia. Tem ali o samba caipira, a linguagem da Bahia, do Nordeste, o candomblé”, diz Ganja. “Eu não quero viver assim, mastigar desilusão/ Este abismo social requer atenção/ Foco, força e fé, já falou meu irmão/ Meninos mimados não podem reger a nação”, vai cantar Criolo no Parque Municipal.

Ganjaman diz que a reação do público a Espiral de ilusão tem sido impressionante. A estreia se deu no fim de maio em Porto Alegre. No Rio de Janeiro, dois shows tiveram ingressos esgotados no início deste mês. Hoje, Criolo volta ao Circo Voador para uma sessão extra. Depois de BH, o rapper, Ganjaman e banda seguem para Jundiaí (SP), São Paulo, Recife e Curitiba.

TRÊS MOMENTOS


CRIOLO
Lançamento do CD Espiral de ilusão. Parque Municipal. Av. Afonso Pena, 1.377, Centro, (31) 3277-1428. Amanhã, às 19h. Com Forró Muderno, Lagum e Bloco Volta Belchior. A partir de R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia).

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