Diversidade e luta LGBT tomam conta de BH na festa Divina Maravilhosa

Entre as atrações, Elza Soares e Linn da Quebrada, que sobem ao palco na Serraria Souza Pinto para debater sobre liberdade de gênero, feminismo e tolerância

por Francelle Marzano 12/05/2017 09:00

Stephane Munnier/Divulgação
Elza Soares se apresenta ao lado de Marcelo Veronez. (foto: Stephane Munnier/Divulgação)

''Sim, nós somos resistentes, estamos firmes, fortes e juntas, mas precisamos falar sobre a homofobia generalizada, precisamos lutar por uma lei que torne crime essa rejeição e falta de respeito com o outro. É horrível pensar que a nossa questão mais urgente é a sobrevivência.'' A convocação é do cantor mineiro Marcelo Veronez, que hoje divide o palco com Elza Soares, Mc Carol, Linn da Quebrada, bloco do Alô Abacaxi e outros artistas, na quarta edição da festa Divina Maravilhosa. Em comum, a luta pelas mesmas causas: liberdade de gênero, feminismo, diversidade, tolerância e respeito.



A Divina Maravilhosa, realizada na Serraria Souza Pinto, chega de uma maneira diferente para trazer à tona questões que precisam ser debatidas e respeitadas. A ideia da produção é criar a festa mais queer (expressão usada para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero) de Belo Horizonte, com um ambiente livre de tabus, onde as pessoas possam ser o que quiser e se sintam à vontade.

 

No line-up, música boa e vozes que cantam temas como representatividade negra, de gênero, LGBTs e até mesmo violência doméstica, como o sucesso Maria da Vila Matilde, faixa do álbum A mulher do fim do mundo, de Elza Soares. A cantora veterana é enfática ao dizer que se sente feliz em dividir o palco com ''pessoas tão novas e talentosíssimas''. ''Sempre que me chamar, eu vou'', afirma.

Na festa, Veronez faz também o pré-lançamento do seu primeiro disco, Narciso deu um grito, que elaborou em parceria com músicos locais, como Thiago Delegado, Di Souza e Milena Torres. Sobre a expectativa de dividir o palco com uma das maiores divas da música brasileira, o cantor não poupa elogios. ''Ainda estou começando a trilhar meu caminho e dividir o palco com Elza vai ser maravilhoso. Ela é uma artista completa e a intérprete mais ligada a questões sociais e temas polêmicos. Elza assume isso com muita propriedade e levanta a bandeira mesmo. Se não fosse a coragem que tem, talvez não tivesse sobrevivido. A história dela está muito ligada a essas questões. E isso é importante para a gente.''

 

PROVOCAÇÕES

Uma festa que se tornou uma luta ou vice-versa. O evento busca acompanhar criações artísticas que falem de demandas sociais urgentes, associando o entretenimento aos propósitos da geração. Além das atrações musicais que focam em questões sociais, performances e exposições também vão levar ao espaço provocações pertinentes ao tema, como, por exemplo, Carô Renó e Sérgio Anders,  que exibem performance lírica; e Karen Corrêa e Ana Luiza Gonçalves, que apresentam Corpos poéticos. Além disso, duas exposições fotográficas completam a programação: o porn art em República zero, de Randolpho Lamonier, e as personagens da Guaicurus em Aparecidas, de Bianca Aun.

 

 

Artistas e produtores que fazem parte da programação afirmam que a Divina Maravilhosa é a oportunidade de dar o grito e abarcar a história de luta com propriedade. ''A festa surgiu quando feminismo, liberdade de gênero e temas como estes ainda eram pouco debatidos na sociedade. A nossa intenção é mesmo promover essa luta, criar pessoas resistentes e representatividade em uma sociedade mais justa'', afirma a produtora cultural e idealizadora da festa, Gigi Favacho. Já Marcelo Veronez fala sobre a responsabilidade de levantar bandeiras de luta e diz que ''é uma oportunidade de o público sair do limite da teoria e ir para a prática, em uma festa onde o corpo está solto, mas não está disponível ao toque, onde temos banheiros compartilhados e corpos nus e as pessoas vão ter que aprender a lidar com esses conceitos''.


A festa pode durar até as sete da manhã e, para fechar com chave de ouro, Veronez ainda divide o palco com Toda Deseo e o grupo Lá da Favelinha, numa disputa de passinhos. MC Carol, que é reconhecida como um símbolo feminista e da luta contra o racismo velado, e o bloco Alô Abacaxi, que fez estreia este ano no carnaval de Belo Horizonte, resgatando o repertório tropicalista de Caetano, Gil e Tom Zé misturado ao som dos repiques e tamborins, também cantam com o músico. E, por último, sobe ao palco aquela que se identifica como bicha, trans, preta e periférica, atroz (nem atriz, nem ator), bailarinx, performer e terrorista de gênero, Linn da Quebrada, com o funk que mostra a luta pela quebra de paradigmas sexuais, de gênero e corpo. 

 

TRÊS PERGUNTAS PARA ELZA SOARES

Você vem se aproximando de muitos artistas e produtores de uma geração mais nova. Como surgiu esse movimento? 

Sempre estive muito ligada a essa juventude que produz coisas novas. Quero estar sempre aqui e agora, por isso sempre digo ‘Meu nome é now!’. Eu sou o agora. Quero estar atenta ao que está sendo produzido e criado por essa nova geração que não está de brincadeira. Esse movimento do novo para mim surgiu com muita naturalidade. Fazia saraus em minha casa para conhecer e me envolver com os novos artistas. O meu encontro com essa turma de paulistanos no novo álbum foi uma catarse, porque juntou a fome com a vontade de comer, deu nisso, disco e show premiadíssimo.

Como se sente dividindo o palco com Marcelo Veronez, um artista novo, que trabalha para lançar seu primeiro disco?
Feliz e sempre que me chamar eu vou. É importante estar junto e fazer parte do sonho do outro, contribuir com a luta do outro. Tenho conhecido artistas como o Marcelo, muito talentosos, como o Jhonny Hooker, a Liniker é maravilhosa. A Karol Conka é uma menina talentosíssima. Conheci recentemente Mc Linn e gostei demais da sua coragem, tem também a Larissa Luz, sem falar em Criolo e Emicida, que são minhas paixões. Estamos bem representados, não é não?

Seu trabalho traz letras muito autênticas sobre racismo, empoderamento feminino, mensagens de luta. Em termos de liberdade de gênero, feminismo, tolerância, o que ainda precisa avançar na sociedade?

Sempre me senti livre para lutar por questões que acredito, nunca tive medo de nada, olhe o que já passei. Se eu tivesse medo, não chegava até aqui. Sempre vou gritar e lutar por meus ideais. Acho que temos que mudar, não podemos aceitar nada calados, e nem combina comigo. Precisamos avançar tanto ainda. Nos últimos tempos, temos regredido assustadoramente. Precisamos principalmente aceitar e respeitar o outro.

 

Divina Maravilhosa

Hoje, das 21h às 7h
Local: Serraria Souza Pinto (Avenida Assis Chateaubriand, 809 – Centro)
Ingressos: sympla.com.br
1º LOTE: Meia – R$ 30/ Solidário – R$ 35*/ Inteira – R$ 60
2º LOTE:  Meia – R$ 40/ Solidário – R$ 45*/ Inteira – R$ 80
3º LOTE: Meia – R$ 50/ Solidário – R$55*/ Inteira – R$100
*Na doação de R$ 5 para o projeto Lá da Favelinha, paga-se meia-entrada

Informações: www.divinamaravilhosa.com.br 

 

INGRESSO SOLIDÁRIO

Envolvida com questões sociais, a Divina Maravilhosa vai promover o ingresso solidário. Uma parte do valor pago pela entrada será convertida em doação para a manutenção do Lá Da Favelinha. O projeto é iniciativa do Mc Kdu dos Anjos, que atende a comunidade do Aglomerado da Serra desde 2015, com oficinas, dança, grupos de estudo da cultura hip-hop, aulas de línguas, empreendedorismo e outros. Além da campanha de doação, a Divina coordenará, em parceria com o Lá da Favelinha, um projeto ao longo de 2017 de acolhimento e debates com a comunidade sobre gênero e sexualidade. 

 

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA