Morte de Belchior é último ciclo de um artista grande e incompleto

Obra do cantor e compositor "é de uma grandeza que poucos artistas atingiram no Brasil"

por Eduardo Murta 01/05/2017 13:37
Arquivo EM
(foto: Arquivo EM)
Gênios costumam ter um quê de incompletude. Alguns com a estranha capacidade de transformar até a dor num gesto elegante. O cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes e sua obra são um pouco essa síntese. Marcantes, às vezes insondáveis, mas acima de tudo instigantes. Foi com charmosa provocação que o cantor de voz anasalada e poética cortante se apresentou ao país em meados da década de 1970.

Dos festivais da canção ao primeiro disco que tornaram o ex-seminarista (além do latim, a melhor coisa que aprendera com os padres foi fazer vinho, gostava de declarar) em figura que inaugurava estilos. Dali para o Sul Maravilha não tardaria. Nada foi por acaso. Havia virtude de sobra em sua lírica e na junção de letras que uniam o simples à universalidade. Num tempo em que ainda havia tempo para reflexões.

Viria aí a segunda ruptura de Belchior. Primeiro, com a religião. Em seguida, com a medicina, cujos estudos simplesmente abandonou. Mais tarde, Belchior romperia sabe-se lá com o quê. Como se tivesse literalmente soltado o volante. Como se houvesse buscado refúgio contra seus demônios.

Como ele, sua obra, densa, genial, tem um quê de incompletude. O que dele se salvou, porém, é de uma grandeza que poucos artistas atingiram no Brasil. O compositor que passeia pela erudição sem ar blasé. Visita o simples sem jamais resvalar no simplismo.

Em suas tantas andanças, Belchior tinha público cativo em Belo Horizonte. Fãs de carteirinha. Que mesmo em sua fase descendente, em que já pouco inovava (a partir do início dos anos 1980), ou em que se repetia (a partir dos anos 1990), estavam na plateia. A capital mineira, como outras cidades, figura numa de suas canções emblemáticas, Pequeno mapa do tempo. “Eu tenho medo que Belo Horizonte/Eu tenho medo que Minas Gerais/Eu tenho medo que Natal, Vitória/Eu tenho medo Goiânia, Goiás”.

SERTÃO Era lá que Belchior dizia: “Eu tenho de abrir a porta que dá pro Sertão da minha solidão”. Antes que abrisse esse portal, o artista bebeu na lucidez cristalina capaz de dar ao país obras-primas como Alucinação (1976), Coração selvagem (1977), Todos os sentidos (1978) e Era uma vez um homem e seu tempo (1979).

A partir dali, estacionou, com Objeto direto (1980), Paraíso (1982), para mais à frente fazer discos em que se pinçava uma ou outra canção. Nos seguintes, deu de se repetir e se revisitar, em releituras que representavam resultados sofríveis.

Numa das oportunidades em que nos revimos, no início dos anos 2000, tinha os mesmos olhos vivos e brilhantes e o sorriso inconfundível margeado pelo denso bigode. Exalava otimismo num dos lançamentos em Belo Horizonte. Reagiu com naturalidade à crítica sobre o uso desmedido de eletrônica numa de suas coletâneas. “É para dialogar com as novas gerações.” Não só falharia nesse desafio, como colocaria velhos fãs em incômoda desconfiança.

Mas talvez buscasse ali um reencontro. Quase toda a grandeza de seu trabalho estava representada no CD Um concerto a palo seco, em que é acompanhado pelo violonista mineiro Gilvan de Oliveira. E ele saudava aquilo como uma espécie de retorno. Pena não ter passado de um suspiro. O Belchior que gentilmente recebera um grupo de estudantes de jornalismo para uma extensa e descontraída entrevista na capital mineira na segunda metade da década de 1980 (tomou vinho branco de quinta categoria com extremo bom humor) já não estava mais ali.

O que dele fica é, sobretudo, poesia. Uma obra rica, sensível, que teve poder transformador sobre a música brasileira. Mais do que isso: sobre a vida de tantos brasileiros. E que delicadamente apaga o quê de incompletude que o marcou. Em Belchior, o ciclo agora se completa.

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