Biografia de Clementina de Jesus será lançada em BH neste sábado (11)

Livro escrito por quatro pesquisadores revela o papel singular de Quelé, neta de escravos, na música popular brasileira

por Ângela Faria 10/03/2017 13:20
Carlos Piccino/Arquivo O Cruzeiro/EM
'Quelé, a voz da cor %u2013 Biografia de Clementina de Jesus' será lançado neste sábado (11) em BH. (foto: Carlos Piccino/Arquivo O Cruzeiro/EM)

Neste sábado (11), o livro Quelé, a voz da cor – Biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira) será lançado às 11h, na Livraria Ouvidor (Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi). Escrita pelos pesquisadores Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz, a biografia descreve a trajetória de uma das cantoras mais importantes do país, o elo Brasil do século 20 com a África ancestral.
 
Nascida em Valença (RJ), em 1901, e neta de escravos bantos que viviam em Minas Gerais, Clementina de Jesus se tornou artista já sexagenária. Em 1964, o talento daquela senhora, empregada doméstica, foi descoberto pelo produtor cultural e compositor Hermínio Bello de Carvalho no bar carioca Taberna da Glória, onde ela costumava cantar.
 
Quelé, apelido que ganhou quando pequena, era a legítima mulúduri – figura encarregada de transmitir e perpetuar cantos ancestrais de matriz africana. Sabia cantos de trabalho de escravos de Diamantina, aprendidos com a mãe, curimas, lundus e temas do candomblé.
 
Jovem, frequentou a lendária casa de Tia Ciata, berço do samba carioca, assim como a mítica Praça Onze. Era amiga de Heitor dos Prazeres e de Paulo da Portela. Moça, foi craque no partido-alto. Clementina tinha voz rouca e forte, bem diferente das intérpretes de seu tempo.
 
Quando iniciou a carreira artística, Quelé era acompanhada pelo grupo Cinco Crioulos, formado pelos bambas Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Nelson Sargento. Foi a estrela do mítico show Rosa de ouro, resgate do samba de raiz no Brasil pós-bossa nova. A partir dos anos 1970, gravou com Milton Nascimento, ganhou de Caetano Veloso Marinheiro só e deslumbrou o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos.
 
Quelé, a voz da cor... mostra que a grande artista não escapou da sina do brasileiro pobre: sustentou o marido doente por vários anos, bancou filha e netos. Octogenária, lutava para pôr feijão e remédio em casa em meio a sucessivos derrames e isquemias. Fazia shows, apesar de a cabeça falhar e de esquecer as letras. Em 1987, Clementina morreu no Rio de Janeiro, depois de sofrer o quinto derrame.

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