Rappers brasileiros apostam na diversidade para criar próprio mercado

De olho em novos públicos, o hip-hop aderiu ao carnaval e adotou o empreendedorismo como lema para conquistar espaço no mercado

por Ângela Faria 07/03/2017 08:22

Boogie Naipe/divulgação
Renam Samam diz que o rap empodera jovem brasileiro (foto: Boogie Naipe/divulgação)
O primeiro bloco carnavalesco de rap estreou no sábado de folia, no fim de fevereiro, arrastando multidão animada pelo Centro de São Paulo. MCs e DJs de várias gerações subiram no trio elétrico, que trocou a cuíca por beats e flows. Estavam lá os veteranos KL Jay, Helião e Edi Rock ao lado dos jovens do grupo 5 pra 1 e de Rincon Sapiência. Sucesso no YouTube com o “rap-batuque” Ponta de lança, que bateu 3,2 milhões de visualizações, Rincon compôs Meu bloco especialmente para a folia.


“Foi histórico. Fizemos aquele show na rua, que é a nossa casa, com todo mundo cantando e ‘pulando’ rap”, comemora Renan Samam, de 27 anos. Integrante do coletivo 5 pra 1, o paulistano é considerado um dos produtores mais talentosos da nova geração do hip-hop nacional – trabalhou com Criolo, Emicida e Marcelo D2, entre outros. Comandado pelo respeitado DJ Cia, o bloco Beat Loko só veio comprovar: o rap abrasileirou de vez.

“Ele está cada vez mais forte aqui, o jovem se sente empoderado ao ouvir a nossa música”, diz Samam. Poderoso na cena internacional – sobretudo norte-americana –, o gênero tem tudo para ser a nova onda nacional, acredita Renan. E aposta: a próxima “febre” será o encontro do funk carioca com o trap, subgênero do rap criado em Atlanta, nos EUA, marcado pelos graves e a eletrônica. As duas linguagens, aliás, já têm se dado muito bem nas pistas brasileiras, reforça Samam.

COSMOPOLITA Há alguns dias, o 5 pra 1 mandou para as redes o clipe Traps band$, single marcado pela sonoridade de Atlanta. Dirigido por Victor Adelino, o vídeo remete a metrópoles, com ruas tensas, bares enfumaçados e o perigo à espreita. Pioneiros do rap nacional, KL Kay, o DJ do Racionais, e Xis participam. No início de fevereiro, o grupo divulgou o single Inbraza, que fala de garotas e bailes. Ambos fazem parte do EP Fábrica de papéis, com oito faixas, cujo lançamento está previsto para o primeiro semestre. Será o terceiro trabalho do grupo, depois dos CDs Kush e garotas (2014) e GoodFellaz (2015).

A diversidade é a marca do 5 para 1, formado também pelos rappers William, Filiph Neo e Dee. Além de trap, estão lá R&B, soul, funk, samba e MPB. “As letras falam de problemas sociais, do cotidiano da quebrada, que é a nossa vivência, do ‘corre’ da cidade e também de amor. Nosso disco é eclético, assim como os outros dois”, explica Samam.

O ecletismo, aliás, vem marcando o rap nacional. O veterano Racionais experimentou a sonoridade contemporânea do trap em seu último disco de inéditas, Cores & valores (2014). Estrela das pistas, Karol Conka explora novidades da música eletrônica em parceria com o duo Tropkillaz. Criolo flerta com o samba e a MPB. Mano Brown, no projeto solo Boogie naipe, bebeu na fonte do soul, R&B, samba-rock à Jorge Ben Jor e do funk das antigas. Fã de jazz, Tássia Reis celebra o empoderamento feminino e a negritude com R&B e eletrônica.

Projota, que aposta na veia pop, bateu 5,6 milhões de visualizações no YouTube com Oh meu Deus, parceria com Renan Samam lançada há um mês. O paulista Rashid, que passou a adolescência no interior de Minas, flerta com samba, Clube da Esquina, reggae e rock. Emicida mergulhou nas batidas africanas em seu último álbum. O mineiro Matéria Prima acaba de lançar 2 atos, produzido pelo paulista Gui Amabis, nome de ponta da MPB contemporânea.

Samam garante: “O rap brasileiro tá no game”. Ou seja, luta por seu lugar no mercado e cria estratégias para conquistar novos públicos. O “ritmo e poesia”, canto falado que veio dos Estados Unidos nos anos 1980, virou porta-voz das favelas e dos negros brasileiros, diversificou sua temática e vai deixando para trás a pecha de “música de bandido”, carimbo que ganhou por dar voz a segmentos da população empurrados para o crime pela exclusão social.

“O gueto é o berço”, explica Samam, convicto de que o hip-hop sempre estará presente ali. Mas ele se expande tanto esteticamente (flertando com samba, forró, MPB e até sertanejo) quanto em termos de público. Para o produtor, a contribuição de sua geração ao rap brasileiro está na liberdade, fruto das facilidades oferecidas pela internet. A revolução tecnológica, além de pôr os jovens em contato com tudo o que é lançado no mundo, democratizou a gravação de singles, EPs e discos.

Porém, o “game” é mais ousado do que isso, afirma Samam. Os jovens rappers vêm aprendendo (e ensinando aos veteranos) a estruturar a própria carreira – da agenda de shows ao lançamento de clipes, EPs e CDs. Vendem camisetas e bonés com a própria marca, influenciando o visual dos jovens. Organizam-se coletivamente para gerenciar o negócio, de forma a tirar o sustento de sua arte. “Trouxemos o pensamento empreendedor para o rap”, resume. O bloco carnavalesco de DJ Cia, inclusive, é prova disso, ao articular apoio de patrocinadores à iniciativa.

IMPROVISO Acabaram-se os tempos da improvisação. Racionais MCs montou a própria empresa, a Boogie Naipe, que também cuida da carreira solo de Mano Brown, do RZO e do 5 pra 1. Rashid toca a produtora Foco na Missão. Emicida não se limita a gerenciar a Laboratório Fantasma, sua produtora e selo fonográfico – um case do empreendedorismo –, em parceria com o irmão, Evandro Fióti. Ano passado, a dupla e o estilista João Pimenta lançaram coleção de roupas da grife LAB, que bombou na São Paulo Fashion Week. Desfilaram jovens negros empoderados, com seus cabelos black power, modelos gordas e portadores de vitiligo.

“Fiz com a passarela o que eles fizeram com a cadeia e com a favela. Enchi de preto”, declarou Emicida aos jornalistas. À sua maneira, o rap abrasileirou o fechadíssimo game do mundinho fashion.

BOY KILLA Jovem revelação do rap paulista, Boy Killa está concluindo as gravações de Vários relatos, EP produzido por Beatz Blood com participação especial de Rincon Sapiência e Coruja BC1. Integrante do grupo de MCs que se apresenta com o Racionais, Killa mandou para as redes o single No corre. Com batidas pesadas, ele fala da realidade das favelas: racismo, drogas e a determinação de superar a exclusão social.

LUXÚRIA E POLÊMICA O mineiro Flávio Renegado é outro rapper que incorpora pop, samba e MPB a suas batidas. Ele acaba de mandar para as redes o clipe de Luxo só, parceria com Jana Lourenço. A picardia do funk carioca e o refrão “ai/ tá gostozim” marcam a canção, que simboliza a luxúria no disco Outono selvagem, cujas faixas são dedicadas aos pecados capitais. No vídeo, Flávio é o homem-objeto quase “devorado” por garotas. Fãs e feministas criticaram o trabalho e o acusaram de “objetificar a mulher negra”.

 

Veja o clipe Luxo só

O elenco do clipe integra o coletivo Batekoo, que reúne mulheres negras e promove festas em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Uma delas, Amanda Coelho, diz ter gostado de “sensualizar”, lembrando que é gorda e mãe de dois filhos. Para ela, Luxo só valoriza a estética da periferia e o empoderamento feminista.

Nesta segunda (6), o rapper postou mensagem no Facebook argumentando que o Batekoo é “um novo e instigante capítulo do movimento negro, que está crescendo em vários estados do Brasil”. Explicou que a proposta do clipe é falar de sexo de forma natural, “festejando os corpos como força de liberdade e de ação política, sem moralismos”. Para ele, o vídeo não objetifica mulheres.

Maíra Colares manifestou sua indignação na página do artista. “Respeite as mulheres. As mulheres negras. Ainda dá tempo, volte atrás, reconheça o erro e retire do ar. Se retrate. Na sua história não cabe esse tipo de preconceito. E vc não é do tipo ‘ostentação’. ‘Acabou o amor’... Vc não deve nos decepcionar tanto! Essa não é sua história”, criticou ela.

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