Três gerações de bambas fazem shows em BH

Moacyr Luz, Noca da Portela e Alfredo del-Penho celebram a tradição e a renovação do samba

por Márcia Maria Cruz 17/02/2017 07:00
Leo Aversa/divulgação
Alfredo Del-Penho lança o disco 'Samba sujo', no Museu de Arte da Pampulha (foto: Leo Aversa/divulgação)
No fim de semana que antecede o carnaval, bambas desembarcam em Belo Horizonte para celebrar a força do samba. Hoje à noite, será a vez de Moacyr Luz, de 58 anos, abrir a roda no Music Hall. Amanhã, Noca da Portela, de 84, apresenta o álbum Homenagens. Domingo, Alfredo Del-Penho, de 35, vai mostrar o repertório de seu novo disco.

Os três se apresentam no formato show, mas sem perder a espontaneidade das rodas que reúnem sambistas no Rio de Janeiro. “Ali, as pessoas ficam em torno da gente. Todos se esquecem das classificações sociais. Costumo dizer que quando o pessoal chega no Renascença, deixa o dinheiro e o poder da porta para fora. Na roda, todos são uma coisa só”, afirma Moacyr Luz, referindo-se ao projeto Samba do trabalhador, realizado no Clube Renascença, em Vila Isabel.

Moacyr é convidado do Samba bate outra vez, que traz à capital nomes de outros estados e da cena mineira, como o Grupo Tradição, atração desta noite no Music Hall. O partido-alto ganha destaque. “A roda de samba se estende por três horas lá no Rio, e o show não muda muito. Samba é interação. Se for acadêmico demais, vai perder o tempo. Tem que correr frouxo, um samba chama o outro. Começa a tocar um autor, aí você se lembra de outra música, muda o tom e puxa outras naquele tom. O tempo passa sem você perceber”, diz Moacyr.

O carioca já se apresentou com João Nogueira, Luiz Carlos da Vila e Jards Macalé. Mas não esconde que um de seus orgulhos é ter cantado com Zeca Pagodinho. “Chego a ficar mudo perto dele”, diz o idealizador do Samba do trabalhador. O projeto foi criado para reunir artistas que dão duro nos fins de semana. Realizada às segundas-feiras, a roda se tornou celeiro de talentos.

MODERNISMO
Alfredo Del-Penho terá um patrimônio cultural da humanidade, o Museu de Arte da Pampulha (MAP), como cenário do show Samba sujo. “É uma honra muito grande poder, finalmente, levar meu disco para Belo Horizonte, lugar de que gosto muito”, diz. Filho de mineiro, ele conta que grande parte da família mora na capital.

“Minha presença nas rodas sempre foi muito forte, desde que comecei a ouvir samba em Niterói. Apaixonei-me por tudo o que ocorria ali: a relação entre as pessoas, os códigos criados entre elas e, principalmente, a percepção do que era o movimento da roda”, diz Del-Penho, frequentador do Candongueiro, em Niterói, e do Samba do trabalhador, em Vila Isabel. Samba sujo traz essa vivência. O título, aliás, refere-se à riqueza da sonoridade das rodas, que às vezes some nos estúdios de gravação.

“Hoje em dia, usam muitos recursos de computador para tirar o som do dedo na corda do violão ou o esbarrão da baqueta no aro do surdo, por exemplo. Costuma-se afinar a voz no computador para deixá-la perfeita. Procurei abrir mão disso. Por mais que pareça bem-cuidado, não pusemos o foco aí a ponto de tirar o que a gente chama de ‘calor do tocar conjunto’.”

Amigo de Moacyr Luz, Del-Penho explica que o Samba do trabalhador é importante por tocar clássicos e abrir espaço para a produção contemporânea. “Todos os artistas que chegam são bem-vindos, podem cantar suas músicas e participar daquele momento”, observa.

Entrevista - Noca da Portela, cantor e compositor

“O samba é de um poder descomunal”


Maior vencedor de concursos de samba-enredo da azul-e-branco de Madureira, Noca da Portela vem amanhã a BH divulgar o disco Homenagens, que reúne parcerias com Nelson Cavaquinho, Riachão e Dona Ivone Lara. Com 62 anos de carreira, o portelense nascido em Leopoldina pergunta: “Quando Minas Gerais reverenciará este mineiro que bate no peito de orgulho de sua terra?”. Com composições interpretadas por Paulinho da Viola e Maria Bethânia, ele revela que não desfilará este ano na Portela.

Você é um bamba da música brasileira. Como foi dedicar seis décadas ao samba?

Estou com 84 anos, 62 de carreira. O samba me deu o direito de conhecer o Brasil e outros países. Onde chego, sou reverenciado e faço questão de falar da minha terra, Minas Gerais, que está acima do bem e do mal. Minha sabedoria, o poder de criatividade vêm do chão de Minas. Saí de Minas aos 5 anos e não fiz feio: tenho 480 sambas gravados. O samba é de um poder descomunal. Minha família não tinha posses, mas me deu educação, o que me permitiu ser secretário de estado da Cultura do Rio de Janeiro e receber a medalha de comendador da República.

Homenagens traz composições engavetadas? Como o disco foi produzido?

Tem Coração vadio, que fiz com Nelson Cavaquinho há 45 anos, os dois de porre na Praça Tiradentes. Tem Basta papai, feita com Ivone Lara há 40. No aniversário de 54 anos dela, fui lhe dar um abraço e fizemos três músicas – uma gravei agora. Eh, eh, eh, Minas Gerais é homenagem a meu estado. Fiz com o Colombo – ele e Paulinho da Viola me levaram para o Trio ABC, na Portela. Tem um samba em homenagem à Bahia, Maravilhado, que compus há 62 anos. Fiz quando tinha 22, mas me lembrei dele todinho. Meu produtor brinca que tenho memória de elefante. Não tinha nada escrito nem gravado para este disco. Tudo de memória. Tenho a recordação muito clara de uma roda de samba no Mercado Modelo, em Salvador, com Riachão, Batatinha e Paulinho Camafeu, por exemplo. Coração vadio cheguei a gravar naqueles gravadores de rolo. Ela se perdeu, só que tenho memória de elefante...

Você vai a rodas de samba?
Até ano passado, fazia parte da Velha Guarda da Portela. Saí por causa de uma briga em relação a um samba-enredo. Depois de 50 anos, não estarei na avenida neste fevereiro. Mas assim que sair a atual diretoria, volto para a minha escola.


MOACYR LUZ
Com Samba do Trabalhador, Grupo Tradição, Pirulito da Vila e DJ Renatito. Projeto O samba bate outra vez. Hoje, às 22h. Music Hall. Avenida do Contorno, 3.239, Santa Efigênia. R$ 30 (inteira) e
R$ 15 (meia-entrada)

NOCA DA PORTELA

Lançamento CD Homenagens. Amanhã, às 16h. Contemporâneo Gastro Show. Rua Rio Grande do Norte, 4, Santa Efigênia. Ingressos a partir de R$ 25

ALFREDO DEL-PENHO
Lançamento do disco Samba sujo. Domingo, às 11h. Museu de Arte da Pampulha. Avenida Otacílio Negrão de Lima, 16.585, Pampulha. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

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