Rodrigo Amarante prepara o segundo disco solo

Depois de rodar o mundo divulgando o álbum Cavalo, novo disco será fruto da vida nômade do compositor, que mora nos EUA há oito anos

por Estado de Minas 05/02/2017 12:00
Luis Martins/divulgação
O compositor carioca Rodrigo Amarante diz que aprendeu com o pai a não ter medo de arriscar (foto: Luis Martins/divulgação)

A migração está no sangue de Rodrigo Amarante. Desde criança, ele viveu de despedidas e rupturas. E viverá mais uma. O músico do Los Hermanos – a maior banda do indie brasileiro deste século 21, que faz turnês esporádicas desde 2007 – vai deixar o Brasil mais uma vez para voltar a Los Angeles, onde mora desde 2008. Ele chegou ao Rio de Janeiro em 28 de janeiro, apresentou-se em São Paulo na quinta-feira, na celebração dos 50 anos de carreira do guitarrista Lanny Gordin, e hoje faz show de voz e violão, no Sesc Pinheiros, para marcar a despedida do disco Cavalo, sua estreia solo.

Elogiado pela crítica brasileira, o álbum saiu em 2013, mas demorou para pegar no tranco no exterior. Quatro anos depois, Amarante ainda segue com turnês pela Europa e Estados Unidos. A atenção sobre seu trabalho cresceu com Tuyo, canção de abertura da série Narcos, com a qual ganhou uma indicação ao Emmy em 2016.

Tuyo foi um pedido de José Padilha, que assina a produção executiva de Narcos. “Ele não me deu um direcionamento. É claro, conversamos bastante a respeito, pensei bastante. O Padilha me disse: ‘Quero a sua visão, quero o que você acha que a música deva ser’”. Cantada em espanhol, a faixa versa sobre a obsessão. “É uma letra que se faz parecer com uma canção de amor bem latina, mas, se prestar atenção naquele contexto da série, é algo político. É uma perspectiva bem narcisista com relação ao amor. Ela poderia ser cantada por Donald Trump”, diz Amarante.

No ponto de vista do eu-lírico, é dele tudo aquilo que alguém precisa. No contexto de Narcos, que narra a ascensão e queda do traficante colombiano Pablo Escobar, os versos sobre controlar alguém falam de ganância, da sede de poder. “É a cocaína, é o dinheiro, é sobre algo que se torna o motivo de tudo”, observa.

ESPELHO Cavalo é um tratado de Rodrigo sobre si mesmo. Um olhar diante do espelho. Por isso, soa minimalista. Os versos são confessionais, sem medo. “Era inevitável que o primeiro disco fosse um autorretrato”, avalia o autor. A extensão da turnê o ajudou a ter perspectiva diferente de algumas canções – o tempo ajuda a entender o que ele queria dizer, de forma inconsciente, ao compô-las.

Irene, por exemplo, se transformou para o próprio autor. “Quando a escrevi, tinha a perspectiva das minhas relações recentes. Com o passar do tempo, percebi que a música tinha mais conexão com a minha infância e adolescência do que com a vida adulta. Ela reflete o percurso que fiz, de me mudar a cada três anos, dizer adeus aos amigos de escola e às namoradinhas. Gosto de imaginar que cada disco pode ser um capítulo”, revela.

Cavalo, portanto, é quando o personagem ganha vida, somos introduzidos a seus anseios, medos e lembranças. “Agora que essa figura já está definida, quero que o segundo disco seja voltado mais para fora do que para dentro.” O plano é lançá-lo ainda este ano. A proposta é cair no mundo – e isso Amarante já fez. Cavalo rodou bastante. Na última turnê europeia, ele cantou na Holanda e na França. Viajou só, com o violão nas costas, percorrendo teatros com o show.

Medo A experiência nômade nunca lhe foi estranha. Nascido no Rio de Janeiro, filho de funcionário de uma empresa de tecnologia, Amarante deixou a capital fluminense rumo a São Paulo aos 6 anos. Voltou para o Rio aos 9, mudou-se para Fortaleza quando tinha 13, foi para os Estados Unidos em intercâmbio escolar.

“Aprendi com o meu pai. A oportunidade aparecia e ele abraçava. Ele me deu o exemplo de encarar o desconhecido, de não ter medo de arriscar”, conta. Amarante se estabeleceu em Los Angeles a partir de 2008. “Nunca foi muito planejado. Se pudesse apostar comigo mesmo, há 15 anos, onde iria morar, nunca seria Los Angeles.” E ri da ironia. Passou a frequentar a cidade para gravar com Devendra Banhart e foi chamado por Fabrizio Moretti (baterista do The Strokes) para formar a banda Little Joy. Acabou ficando.

Mas nada com Rodrigo Amarante é fixo demais. “Já está me dando uma coceira para ir para outro lugar, falar outra língua. Não sei, estou em Los Angeles, meu barco está ancorado, mas é só desfazer o nó”, conclui. (Estadão Conteúdo)


LOS HERMANOS


Criada em 1997 por estudantes da PUC-Rio , a banda Los Hermanos conquistou os jovens com seu pop indie, mesclando hardcore, samba e pitadas de melancolia. Gravou o hit-chicletes Anna Julia e lançou os discos Los Hermanos, Bloco do eu sozinho, Ventura e 4. Em 2007, anunciou recesso por tempo indeterminado e voltou a tocar esporadicamente em turnês realizadas em 2012 (foto) e 2015, quando Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina se apresentaram em BH.

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