No dia em que se comemora 90 anos de Tom Jobim, sua relação com Minas é lembrada

Ligação do maestro com a literatura e a música mineira foi determinante para o amadurecimento do compositor e começa a despertar a atenção de pesquisadores

por Mariana Peixoto 24/01/2017 20:03
Não fosse Guimarães Rosa, não haveria Matita perê. Tom Jobim tentou, até se cansar, ler Grande sertão: veredas. Só conseguiu chegar à escrita rosiana ao ler o romance em voz alta. “Tem hora que o ritmo acelera, parece um carro de boi. Quando o Tom descobriu isso, ele entendeu e se apaixonou. Foi aí que ‘chegou’ a Minas Gerais”, comenta a historiadora Heloísa Starling, relembrando conversa que teve com o compositor. Nestes 90 anos de nascimento do maestro, lançamentos e análises sobre sua obra estão vindo a público. Um deles, ainda em preparação, busca justamente fazer uma leitura sobre a relação de Tom Jobim com Minas Gerais.

Paulo Namorado/O Cruzeiro/D.A. Press
Tom Jobim nasceu no dia 25 de janeiro de 1927 no Rio de Janeiro (foto: Paulo Namorado/O Cruzeiro/D.A. Press)

O italiano Luca Bacchini, pesquisador da música popular brasileira (com tese de doutorado sobre o período em que Chico Buarque viveu na Itália), trabalha em Tom mineiro, projeto que deve virar livro pela Editora UFMG. “Quero destacar a importância de Minas Gerais na formação de Jobim, mas sem cair na retórica das reivindicações regionalistas. Ele foi muitas coisas ao mesmo tempo: carioca e paulista, urbano e interiorano, brasileiro e cidadão do mundo, provinciano e cosmopolita. Minas Gerais foi decisiva para Tom na medida em que lhe ofereceu uma perspectiva local a partir da qual olhar para o mundo.”

Antes desse projeto, Bacchini lança, em abril, também pela Editora UFMG, Maestro soberano – Ensaios sobre Antonio Carlos Jobim, que reúne 10 artigos, um depoimento de Ana Lontra Jobim, viúva do compositor, e forte material iconográfico. “Tom foi um leitor refinado e atento, capaz de apreciar os matizes das complexas invenções linguísticas rosianas”, acrescenta Bacchini.

Heloísa Starling, que participa desse livro, chama a atenção para a importância não só de Guimarães Rosa, mas de Carlos Drummond de Andrade na obra do maestro. “Drummond é o primeiro. Talvez a bossa nova seja o movimento musical que mais fortemente ‘leu’ os modernistas. Águas de março traz ‘é pau, é pedra, é o fim do caminho’. Nesse momento, Tom escancara a importância de Drummond para ele”, explica Heloísa.

Segundo a historiadora, Matita perê, canção-título do álbum de 1973, reúne não só Drummond como Guimarães Rosa e Mário Palmério. A letra cita o romance Chapadão do Bugre, de Palmério – “lá vinha Matias, cujo nome é Pedro, aliás, Horácio, vulgo Simão” –; e o poema Um chamado João, escrito por Drummond em homenagem a Rosa. “E Matita perê tem uma história que tem ódio, que coloca em cena valores da condição humana”, acrescenta Heloísa. A ligação direta é com o conto Duelo, do livro Sagarana (1946).

Jobim também chega a Minas com Lúcio Cardoso. Sua trilha para cinema mais importante é a de A casa assassinada (1973), adaptação de Paulo Cézar Saraceni para o romance Crônica da casa assassinada (1959), de Cardoso, ambientado no interior do estado. “Tom sempre encontrou na música o que a literatura de Minas apresentou a ele”, resume a historiadora.

CHARUTO

Entre tantos encontros, houve muitos afetos. Lembrar de tudo, quase 36 anos mais tarde, é complicado. Mas o técnico de iluminação do Palácio das Artes Gil Rodrigues, de 59 anos, não consegue se esquecer do aperto que os profissionais que trabalhavam no Grande Teatro passaram naquele domingo 15 de março de 1981.

“No show, Tom Jobim tinha que tocar com piano de cauda. O que tinha no teatro era de cauda curta, então tivemos que ‘locar’ (alugar) um piano maior. E ele não abria mão do charuto. Então, quando deu o terceiro sinal e ele entrou no palco, ele sentou, reverenciou a plateia e acendeu o charuto. Só que não tinha cinzeiro. Ficou aquele corre-corre do que fazer, e ninguém tinha coragem de entrar. Foi uma moça, uma menina que chegou quase tremendo no palco, levando o cinzeiro para colocar no cantinho do piano.”

O recital de março só virou disco – Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo, de 2004, lançado pela Biscoito Fino – graças a uma fita que o próprio Tom havia guardado na estante de sua casa. “Alguém deu a fita para ele. Na época, procurei o Palácio das Artes para ver se eles tinham uma cópia, só que a deles era pior do que a nossa”, comenta Paulo Jobim, filho de Tom e produtor desse álbum. O que ele fez para o registro em disco foi equalizar um pouco o som. Não houve interferências em excesso, já que o material havia sido gravado diretamente da mesa de som.

“DA PESADA”

No show, Tom cantou muito e falou outro tanto. Era a segunda data na curta temporada em BH. Assumiu ter estado “nervoso” na apresentação da noite anterior. Em determinado momento, falou de uma “moçada da pesada” presente no show, citando Lô Borges, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Fernando Brant (que ele pronunciava sem o T) e um tal “Luiz Otávio” (certamente, Tavinho Moura, Paulo acredita).

Bastos e Lô se tornaram parceiros de Tom em Blue train, a versão que ele compôs para O trem azul. A canção do álbum Clube da Esquina (1972) foi gravada por Tom em duas ocasiões: em 1989, para o álbum Cais, de Ronaldo Bastos, que registrou a canção original. Em seu derradeiro trabalho, Antonio Brasileiro, lançado em 11 de dezembro de 1994, três dias depois de sua morte, o clássico foi registrado com a versão em inglês.

“O Bituca conheceu primeiro o Tom. Um dia me levou para a casa dele e fiquei amigo da família. Aliás, sou uma pessoa que foi abduzida por duas famílias: por sorte os Caymmi e os Jobim”, conta Bastos. Ele diz não se lembrar exatamente a época, mas quando Tom conheceu O trem azul, “se apaixonou”. “Teve uma época no Rio em que ele e o João Donato iam para o apartamento da Miúcha e ficavam ensaiando. Tocavam muito O trem azul”, acrescenta Bastos. Para o registro que o maestro fez para o álbum Cais, Bastos relembra, Tom não mudou nada. “Na realidade, ele reproduz o solo do Toninho Horta com vocais.”

HELENA


Única irmã de Tom, a escritora Helena Jobim (1931-2015) viveu seus últimos 15 anos em Belo Horizonte – durante um período, foi cronista do Estado de Minas. Chegou à cidade para fazer companhia à filha, Sônia Albano Feitosa, e aos dois netos, Marcos e Marcela. No início desta década, a jornalista Ana Paula Valois se aproximou da escritora, autora da biografia Antônio Carlos Jobim – Um homem iluminado (1996). Depois de uma série de entrevistas, propôs a ela a realização de um documentário. Helena, dirigido por Ernane Alves e produzido por Ana Paula, reúne entrevistas com a escritora tanto em BH quanto no Rio de Janeiro, ainda não finalizado por falta de recursos. “Com a morte da Helena, o filme, que antes tinha muita coisa misturada com ficção, muda um pouco de cara”, afirma a jornalista.

“Minas Gerais foi decisiva para Tom na medida em que lhe ofereceu uma perspectiva local a partir da qual olhar para o mundo”  - Luca Bacchini, pesquisador da música popular brasileira

“Tom sempre encontrou na música o que a literatura de Minas apresentou a ele” - 
Heloísa Starling, historiadora

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