Rapper mineiro Matéria Prima lança novo álbum com show em BH

Intitulado 2 atos, projeto fala de amor e das mazelas do país; ouça

por Ângela Faria 18/01/2017 08:00
Pablo Bernardo/divulgação
MC Matéria Prima se apresenta nesta quarta-feira no Galpão Cine Horto (foto: Pablo Bernardo/divulgação)
“Torto como a crase/ No DNA do rap/ Eu faço mutação fonética”, diz Matéria Prima em uma das faixas de 2 atos, disco que será lançado hoje no Galpão Cine Horto. Realmente, o novo trabalho do mineiro tem algo de “mutante” no hip-hop brasileiro: são cinco canções no “lado A” e cinco raps no “lado B” – sem fronteiras. “É um projeto inclassificável. Criei esse filho para o mundo. Ele próprio decide em que prateleira vai se colocar”, diz.


Aos 38 anos, é veterano na cena rap. Na década de 2000, ele integrou o aclamado coletivo Quinto Andar. Atualmente, participa da banda mineira Zimun, que mescla eletrônica, hip-hop, jazz e MPB. Além disso, tem feito parcerias no palco com os atores Alexandre de Senna e Grace Passô.


Para 2 atos, viabilizado por edital da Funarte, o rapper convidou o tarimbado produtor, compositor e instrumentista Gui Amabis. Nome de ponta da MPB contemporânea, o paulista assinou discos que fizeram a fama da cantora Céu. Gui o ajudou a lapidar melodias e formatar canções. A “cozinha” é respeitável: o baixista Regis Damasceno e o guitarrista Dustan Gallas (da banda Cidadão Instigado) e o tecladista e programador Rica Amabis, integrante do selo Instituto, responsável por discos de Sabotage.


O canto e o flow de Matéria Prima se misturam a guitarras, violinos, violões, teclados, clarinetes e programações comandadas pelos irmãos Amabis. A sonoridade, diz ele, é intuitiva, “vem daquela coisa mineira” – de Milton Nascimento a Supertramp, passando por Childish Gambino e sua soul music. Ouça:



PACIÊNCIA O disco, intencionalmente, vai na contramão da ansiedade compulsiva do mundo contemporâneo. “Ele veio para exercitar a paciência, exige atenção. É para quem gosta de ouvir”, explica. Não se trata de trilha sonora para correr, malhar ou extravasar na pista. “Vim para desacelerar. Essa velocidade de hoje em dia tira o foco de todo mundo”, acredita.
Em suas letras, o mineiro fala de coisas prosaicas – que estão virando raridade – como o encontro “presencial” de amigos (Visita onírica), das delicadezas do amor (Sorriso nu) e de sua paixão pela “brincadeira da escrita” (Mutação fonética). Mas também mira na vertiginosa sucessão de mazelas que se sucedem neste Brasil mergulhado em profunda crise política e social.


O ódio que contamina o cidadão está em Feito barro. O culto à meritocracia inspira A dor do outro. E Porque remete à matança de negros pela polícia brasileira: “Os manos virou mania/ Epiderme/ Epidemia/ Mas preto ainda é pretexto/ Para a arte da artilharia”. Para ele, é urgente reagir aos absurdos que se sucedem no Brasil. Caso contrário, “selfie-se quem puder”, como diz a letra de Quente, que encerra 2 atos.

PINCELADA
S Depois de dividir o palco com o ator Alexandre de Sena em O que não vaza é pele, no Festival Cenas Curtas do Galpão, e com a atriz e dramaturga Grace Passô em O berro, em Inhotim, Matéria Prima aprofunda o diálogo com as artes cênicas. Grace, Aline Vila Real (produtora do grupo Espanca!) e o coreógrafo Rui Moreira são parceiros dele no show performático de 2 atos, que já foi apresentado no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro. Matéria explica que marcações, iluminação e movimento corporal sublinham canções e batidas com o propósito de transportar o espectador para outros universos, assim como fazem as peças de teatro.

 

2 ATOS
Com Matéria Prima e banda. Galpão Cine Horto, Rua Pitangui, 3.613, Horto. Hoje, às 20h.
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações: www.galpaocinehorto.com.br.
O disco será disponibilizado na plataforma ONErpm.

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