Joyce relança, em box, quatro álbuns da década de 80

'Feminina', 'Água e luz', 'Tardes cariocas' e 'Saudade do futuro' fazem parte do que a cantora considera como a fase de amadurecimento de seu trabalho

por Ana Clara Brant 04/01/2017 08:00
Léo Aversa/Divulgação
'Joyce - Anos 80' celebra carreira da artista, que faz planos para 2017 (foto: Léo Aversa/Divulgação)
O histórico ano de 1968 ficou conhecido como o ano que não terminou e marcado pela revolta estudantil de maio, em Paris; pelo assassinato de Martin Luther King, nos EUA; pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pela edição do AI-5, no Brasil. E foi nesse turbilhão que Joyce, então com 20 anos, fez sua estreia fonográfica.


O primeiro LP solo da cantora contava com texto de apresentação de Vinicius de Moraes. Porém, foi algum tempo depois que ela realmente disse a que veio. “Foi um disco de estreia e com minhas primeiras composições. Na minha opinião, olhando para trás, já eram boas, mas a cantora de hoje melhorou muito... Daí para a frente, gravei outros trabalhos e participei de muitos discos de colegas, mas considero que em 1980, com Feminina, é que dei meu primeiro passo realmente para estar no controle real do meu trabalho”, afirma.

Feminina é a obra dessa fase, que a cantora, compositora e violonista carioca considera como de seu amadurecimento e integra a caixa lançada pelo selo Discobertas. Joyce – Anos 80 reúne quatro álbuns – Feminina (1980), Água e luz (1981), Tardes cariocas (1983) e Saudade do futuro (1985) em CDs remasterizados. O lançamento foi sugestão do produtor e idealizador do selo, Marcelo Fróes.

Com produção executiva de Maurício Gouvêa, o box traz clássicos da artista como Clareana – feita em homenagem às filhas Clara e Ana – Mistérios, Da cor brasileira, Minha gata Rita Lee, Moreno, Nacional Kid, além de composições icônicas que ela gravou, como Ziriguidum 2001 (Gibi, Tiãozinho Mocidade e Arsênio), Três apitos (Noel Rosa) e Velhos no ano 2000 When I’m sixty-four´(John Lennon e Paul McCartney).

“Há muito tempo Marcelo vinha insistindo nessa ideia de uma caixa com meus discos dos anos 1980. Só que, a princípio, ele pretendia lançar a partir do Tardes cariocas – que nunca teve edição brasileira em CD – indo até o final da década. Como agora ele conseguiu liberar com a EMI o Feminina e o Água e luz, a caixa ficou mais completa”, observa. Para a cantora, a grande diferença entre a Joyce dos anos 1980 e a de hoje é que a atual tem muito mais segurança nas decisões, antes tomadas mais apaixonadamente, embora com muitas certezas. “Com o tempo, a gente ganha mais maturidade e menos certezas…”, afirma.

ESTRANHO Joyce avalia o atual momento da nossa música como “estranho” e diz que vê muita gente talentosa por aí, mas que acaba ficando meio esquecida. Segundo ela, não existe o menor interesse midiático por talentos criativos interessantes. Esses artistas, em sua opinião, acabam ficando sem oportunidade de ter o trabalho visto ou reconhecido. “E isso é realmente uma pena. Quando um público jovem tem a chance de conhecer o trabalho de novos compositores, isso incentiva os futuros novos compositores a se interessar por compor e tocar. O que rola na mídia atualmente, na minha opinião, infelizmente é lamentável. Estamos assistindo, e não é de hoje, à destruição de uma cultura, a da música popular brasileira criativa, que é o cartão-postal do Brasil no mundo. É a melhor parte de nós. É a melhor parte da cultura brasileira. Isso tem sido sistematicamente destruído. É realmente lamentável”, desabafa.

Após um ano em que realizou sete turnês internacionais, teve CDs lançados em diferentes partes do mundo e que culminou com a caixa do Discobertas, Joyce tem muitos projetos para 2017. Um deles é o lançamento de um trabalho autoral e inédito, batizado de Palavra e som, que vai sair pela gravadora Biscoito Fino. Além disso, acaba de gravar com sua banda em Oslo, na Noruega, um álbum dedicado à obra de Dorival Caymmi. “Também temos um projeto para comemorar meus 50 anos de carreira, em 2018, que é a regravação do meu primeiro LP, aquele de 1968. Esse eu vou fazer aos poucos, com convidados e amigos”, diz.

Entre seus desejos para este 2017, a cantora anseia, antes de mais nada, pela paz mundial. Ela acredita que estamos perto de entrar num ponto sem retorno da história da humanidade. em que a civilização, como a conhecemos, pode mudar. Para Joyce, “há uma sombra pairando sobre todo o planeta, inclusive sobre o Brasil”. “E ela está trazendo de volta totalitarismos, fascismos, racismos e outros ismos que a gente pensava que tinham sido erradicados na Segunda Guerra Mundial. Machismo, violência contra a mulher, homofobia, tudo sendo praticado sem pudores. A corrupção em níveis inimagináveis. A intolerância comandando este mundo. Eu temo tudo isso, porque tenho netos e netas. E são crianças iluminadas, lindas. Não é esse o mundo que a gente deseja para eles. Temos obrigação de deixar coisa melhor como herança. Por isso mesmo, insisto: precisamos povoar o mundo com beleza. Temos de melhorar a qualidade vibratória do planeta – e a beleza, nas artes em geral, é a nossa contribuição possível para que este mundo se torne mais leve”, defende.

Joyce por Joyce

 

'Feminina' (1980): "É um disco de ocupação de território. Sou eu, como mulher, compositora, cantora, instrumentista, autora dos arranjos de base, letrista na maior parte das canções, ocupando aquele espaço com minhas ideias musicais, estando totalmente no controle do meu próprio trabalho. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Foi também um momento de afirmação feminina, com meu projeto de escrever a partir da primeira pessoa do feminino, que vinha desde o meu primeiro LP, em 1968, e que tinha sido mal compreendido naquela época."

 

'Água e luz' (1981): "Já é um sucedâneo do Feminina, uma versão, talvez um pouco mais light, da mesma ideia. Foi também um CD que teve uma música censurada por eu ter usado palavras como 'grávida' e 'parir', e que teve, na época de sua concepção, um problema com a gravadora, que me levou a me tornar artista independente no disco seguinte. Mas posso dizer rapidamente que, por causa de um problema jurídico com a gravadora, meu nome foi riscado da lista dos artistas contratáveis pelas gravadoras maiores. Era uma retaliação, que tinha por objetivo acabar com a minha carreira, mas não foi o que aconteceu.

 

'Tardes cariocas' (1983): "Foi minha primeira experiência como artista independente. Isso aconteceu em 1983 e, de lá pra cá, decidi que não queria mais contratos de longo termo com gravadoras maiores, o que foi ótimo e continua sendo até hoje. Sou artista independente com muito orgulho, gravo com meus próprios recursos ou, na maior parte das vezes, financiada por gravadoras e selos do exterior. Com isso, consegui preservar a independência artística no meu trabalho. O 'Tardes cariocas' também foi importante porque, através dele, minha música chegou ao Japão, via uma distribuidora local que comprou um lote desses discos. A partir daí, veio o primeiro convite para minha participação no Festival Yamaha e, daí em diante, nunca mais parei de frequentar o Japão anualmente, onde tenho um público grande e fiel."

 

'Saudade do futuro' (1985): "É um disco que foi feito para um pequeno selo chamado Pointer. Das novidades que ele trouxe destaco a canção Tema para Jobim, minha parceria com o grande jazzista Gerry Mulligan, que gravei em dueto com meu velho amigo Bituca. A música utilizada num filme importante de Robert Altman, 'O jogador'.

 

Joyce – Anos 80
Selo Discobertas
Preço sugerido: R$ 89,90

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