Clima natalino contagia Belo Horizonte neste fim de semana

Concertos, show e espetáculo de dança trazem para a capital um clima de festa para lembrar o nascimento de Jesus

por Márcia Maria Cruz 16/12/2016 09:07

A notícia do nascimento do filho do carpinteiro José e da jovem Maria ganha ares de boa-nova ano a ano. Como a “série” de maior sucesso, a cena do menino colocado no coxo destinado aos animais, logo depois de vir ao mundo, numa parada inesperada de seus pais em fuga do Império Romano, emociona há mais de 2 mil anos.

Túlio Santos/E.M/D.A Press
Rui Moreira assina a coreografia de Messias, obra de Händel encenada pela Cia. de Dança do Palácio das Artes (foto: Túlio Santos/E.M/D.A Press)

Mesmo com spoiler, a narrativa se renova pela força e pela inventividade na maneira de ser contada. Uma dessas recriações é o espetáculo Messias, de Händel, montagem da Cia. de Dança do Palácio das Artes, que estreia hoje e faz mais quatro apresentações até o dia 21, no Grande Teatro, sob a direção do bailarino e coreógrafo Rui Moreira.

Além da história do Messias recriada através da dança, Belo Horizonte recebe outros programas para celebrar o Natal. Composições de Vivaldi, Bach e Whitacre ganham a interpretação do coral Ars Nova, com apresentações em duas igrejas da capital. Concertos de música barroca, do Grupo Andarela e da Camerata Rococó são atrações que completam a programação que evoca o espírito natalino.

Em comemoração aos 45 anos da Companhia de Dança do Palácio das Artes, a Fundação Clóvis Salgado convidou Rui para conceber e dirigir Messias. “A dança tem a qualidade de provocar sentimentos de forma universal”, diz. “Ser convidado para conceber e dirigir o espetáculo, por si só, é uma grande responsabilidade”, completa, acrescentando que falar de Jesus é um desafio.

A tarefa iniciou-se com a etimologia do termo Messias, que no hebraico significa ungido e, no grego, Cristo. Outra tarefa de Rui foi refletir sobre a relação dos tempos terreno e o messiânico. Rui pontua que, enquanto o tempo da Terra nos coloca dentro da realidade, o messiânico nos liga ao divino. A proposta é de olhar para a figura de Jesus a partir da necessidade humana de se religar ao divino.

 

“As formas de religar são muitas. Todos os livros sagrados descrevem”, aponta, lembrando que esse deslocamento de compreensão permite afastar o dogmatismo. “Todas as formas levam a um ponto comum: a esperança e a conexão com algo maior”, completa.

Ex-bailarino do Grupo Corpo, fundador da Cia. Será Quê? e curador do Festival de Arte Negra (FAN), Rui dialoga com a cultura negra em seu fazer artístico. Por essa centralidade, ao conceber o espetáculo o coreógrafo estabeleceu paralelos entre Jesus e divindades das religiões afro-brasileiras. Rui faz essa aproximação como forma de valorizar a diversidade ao buscar arquétipos semelhantes a Jesus em outras tradições religiosas.

“Quando falamos da tradição vinda da Nigéria, o arquétipo de Exu faz a ponte entre o divino e os homens. Na tradição das religiões africanas, Exu é o primeiro a se alimentar. Ele se multiplica e faz o processo de antropofagia: ele come e o que come se transforma”, afirma. Do ponto de vista teológico, é possível fazer analogias com a transformação de Cristo em pão e vinho.

O espetáculo é construído em parceria com a Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais. São 32 músicas apresentadas ao longo de oitenta minutos. “O maestro Sílvio Viegas me apresentou um roteiro muito bonito. A sequência de músicas faz referência à concepção e ao nascimento de Jesus. Fiz a opção por seguir a sequência dos salmos.” No processo de criação, Rui contou com a colaboração do poeta Ricardo Aleixo, de quem é parceiro. O amigo lhe trouxe a reflexão sobre o momento do nascimento de Jesus, menino ungido e com poder de transformação. “O nascimento de uma criança sempre apaga o que precedeu. As coisas convergem a partir do novo”, explica o coreógrafo. Ricardo é autor do texto que anuncia o espetáculo.

As coreografias foram concebidas levando em conta a ideia do bailarino como criador. “Busco resgatar o respeito ao gesto. É uma linguagem da dança que acompanha o lirismo musical. Também trago a dança de conjunto, as danças circulares, primitivas. Por isso, os 19 bailarinos ficam todo o tempo no palco.” Rui ressalta que trabalhar com a companhia ratificou a relevância de intérpretes-criadores. “Alimenta a esperança no porvir. Foi muito prazeroso o encontro com esse elenco”, conclui.

PRESÉPIOS
O Circuito Liberdade receberá programação de Natal especial. Todos os equipamentos recebem presépios que poderão ser visitados até 6 de janeiro. O Arquivo Público expõe a obra Presépio em árvore de Natal, de Sebastião José de Castro. A Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa terá O salvador do mundo. No Espaço do Conhecimento, o Presépio de brinquedo e, no Memorial Vale, o Presépio da esperança, de Antonio Jesus de Lima. A apresentação de corais, que teve início na terça-feira, segue nos dias 20, 21 e 22. Veja a programação completa no site circuitoculturalliberdade.com.br.

 

 

MÚSICA DE OUTROS TEMPOS

O Coral Ars Nova, o Grupo Arandela de Música Barroca e Camerata Rococó fazem concertos neste fim de semana, convocando todos para se contagiar com o clima natalino. Arandela apresenta peças de Telemann, Quantz, um especial de Natal de Charpentier e também surpresas vocais natalinas. A apresentação será hoje, às 20h, no Idea Espaço Cultural. O grupo mostra repertório barroco, com a particularidade de ser executado em réplicas de instrumentos do período.

Wolney Garcia/Divulgação
Praça Duque de Caxias recebe o espetáculo 'Aqui Jazz - Especial de Natal Solidário'. (foto: Wolney Garcia/Divulgação)

A instrumentação e a interpretação recriam sonoridade muito próxima à do século 18, criando uma viagem no tempo. O Arandela terá formação mais extensa com André Salles-Coelho no traverso, Eduardo Fonseca na viola da gamba, Marília Nunes na voz e na flauta doce, Acácio Gonçalves na guitarra barroca, João Gabriel Carvalho no alaúde e Artur Mário Jr. e Cristiana Gibson nos violinos.

 

Antonio Vivaldi, Sebastian Bach, Alonso Lobo e Eric Whitacre serão interpretrados pelo coral Ars Nova no concerto Harmonias – Vozes do Natal em sua quarta edição. Com entrada franca, os concertos serão na Igreja de São Sebastião, no Barro Preto, e na Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem. O coral será acompanhado pela orquestra barroca formada por convidados, com o violinista Juliano Buosi e a organista Edite Rocha fazendo os solos na peça de Vivaldi. Destaque para o tenor Rodrigo del Pozo, cantor com carreira internacional e atual professor de canto da Pontifícia Universidade Católica do Chile.

No domingo, o Camerata Rococó faz o último concerto, com execução de música celta, medieval, barroca, além de romântica e contemporânea, no Idea Espaço Cultural. O Camerata se destaca por estabelecer elo entre passado e presente. Apresentará repertório de música alemã do período barroco, que se caracteriza pela polifonia. Fazem parte do programa peças de Bach, Mozart, Telemann e Händel, entre outros.

Jazz solidário
A Praça Duque de Caxias recebe, no domingo, o Aqui Jazz – Especial de Natal Solidário. A atração será a banda Take Five, que se apresenta com os convidados Selmma Carvalho e Sérgio Moreira. Para esse show, as canções natalinas nacionais e internacionais ganharão arranjos jazzísticos, sob a direção artística de Pedrinho Alves Madeira, e a musical de Matteo Ricciardi. Para reiterar a solidariedade implícita na data, os organizadores pedem a doação de fraldas descartáveis para a Casa de Apoio ao Portador de Câncer Bem Viver.

No repertório, The sound of silence, de Simon & Garfunkel, Blowin’ in the wind, de Bob Dylan, Imagine, de John Lennon, e outros clássicos. Das músicas nacionais serão apresentadas A paz, de João Donato e Gilberto Gil, Natal das crianças, de Blecaute, Oração de São Francisco, Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil, e Nossa Senhora, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A banda é formada por Ricardo Penido (trompete), Bernardo Fabris (saxofone), Hugo Silva (contrabaixo), Leo Lana (percussão) e Walner Casitta (piano).

Serviço


Messias, de Händel
Com a Cia. de Dança do Palácio das Artes, coreografia de Rui Moreira. Hoje, amanhã e dias 20 e 21, às 20h30, domingo, às 19h, no Grande Teatro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Harmonias – Vozes do Natal
Com o coral Ars Nova. Domingo, às 20h, na Igreja de São Sebastião (Av. Augusto de Lima, 1.655, Barro Preto). Segunda-feira, às 19h30, na Catedral da Boa Viagem (Rua Sergipe, 175, Funcionários). Entrada franca.

Grupo Arandela de Música Barroca
Hoje, às 20h, no Idea Espaço Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.200, Funcionários, (31) 3309-1518). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda no local ou pelo Sympla (www.sympla.com.br).

Camerata Rococó
Domingo, às 11h, no Idea Espaço Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.200, Funcionários, (31) 3309-1518) Ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda no local
ou pelo Sympla (www.sympla.com.br).

Aqui Jazz Especial de Natal Solidário
Com a banda Take Five e convidados. Domingo, às 11h, na Praça Duque de Caxias, Santa Tereza. Entrada franca.

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