Álbum póstumo de Sabotage é lançado treze anos após morte do rapper

Disco, com 11 faixas, está disponível no Spotify. Trabalho foi produzido por Daniel Ganjaman e contou com a participação de BNegão, Rappin Hood, Céu e Negra Li

por Ângela Faria 18/10/2016 08:20

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Itamar Miranda/AE - 2002
(foto: Itamar Miranda/AE - 2002 )
“A chave/ O segredo/ Vou viver bem mais”. Na voz de Mauro Mateus dos Santos, o verso poderia soar como réquiem – afinal de contas, foi gravado pouco tempo antes de ele ser assassinado, em 2003, aos 29 anos, na capital paulista. Mas as palavras soam como profecia para quem ouve País da fome: homens animais, uma das 11 faixas inéditas do álbum póstumo Sabotage, divulgado ontem de madrugada pelo Spotify.

Treze anos depois de sua morte, Sabotage é lenda do hip-hop nacional. Gravou apenas um CD solo – Rap é compromisso (2000). Participou de um álbum do coletivo Instituto (2002) e da trilha sonora do filme O invasor (2002), de Beto Brant, chamando a atenção da crítica e do público. Os discos foram poucos, mas a influência é tamanha que Criolo, sensação do rap do país, não se cansa de reverenciá-lo. Em shows do Racionais MCs realizados em BH, garotos exibem camisetas onde está escrito Sabotage. Ele está em bonés, tatuagens e em simplórias cartolinas erguidas pelos fãs.

Um verdadeiro mutirão afetivo produziu o álbum póstumo Sabotage. Vozes gravadas por ele nos anos 2000 ficaram guardadas como tesouro pelo produtor Daniel Ganjaman. O material foi compilado, organizado e finalizado por um batalhão de talentosos amigos, produtores e músicos: Tejo Damasceno, Rica Amabis, DJ Cia, Quincas Moreira, Tropkillaz, DJ Nuts, Mr. Bomba e Duani.

A sonoridade sem fronteiras – como “Sabota” gostava – tem samba, batidas características do hip-hop, rock, um quê de bossa nova, pianos, guitarras, flautas e muitos etceteras. Tudo comandado pelo inconfundível flow de Sabotage. Ainda faz história aquele jeito muito peculiar de encaixar versos e rimas no canto falado. Tudo soa contemporâneo.

As letras falam da favela do Canão, onde Sabotage foi criado; do mundo do crime, do qual se desligara até cair morto no meio da rua; do Brasil de playboys que queimam índios; da miséria e das periferias pobres e violentas. Recheada de gírias, a crônica de Sabotage tem bandido, juiz, promotor, polícia, “vermes que querem o seu voto”, desemprego e gente afundada nas drogas. “Sai da frente/ que o mar não tá pra peixe/ Quem não for do corre/ Entende”, canta ele.

País da fome... já fez muito fã chorar, conforme relatos dos próprios na internet ainda ontem de madrugada. Começa com a repórter anunciando o assassinato do rapper. Cinematograficamente, ele descreve a própria vida: “Vou vivendo pelos cantos/ Desviando dos escombros”. “Senhor, me dê mais fé”, apela.

É triste, mas o astral não cai. Rap-samba de primeira, Maloca é maré celebra a luz da alma que não se apaga. E convoca: “Tenha fé!”. Dessa faixa participa Rapin Hood, o homem que tirou Sabotage do crime para lançá-lo no mundo da arte. Sandrão, do grupo RZO e parceiro de Hood nessa “fita” – também está no disco. Outros convidados se somaram a eles: B Negão, Céu, Funk Buia, Dexter, Negra Li, DBS, Rodrigo Brandão e Shyheim (do coletivo norte-americano Wu Tang Clan). Todos abriram mão dos direitos em favor da família de Sabotage: os três filhos e a viúva, Maria Dalva, vivem humildemente em São Paulo.

“Com paciência você consegue vencer”, canta Sabotage em O gatilho. E ele venceu mesmo: foi astro de cinema, com atuações memoráveis em O invasor (2002), de Beto Brant, e Carandiru (2003), de Hector Babenco. Lançado em 2015, o documentário Sabotage: o maestro do Canão, de Ivan 13P, traz atores, rappers, cineastas e músicos chamando a atenção para a importância dele para a cultura brasileira.

EM BH O jornalista e rapper mineiro Roger Deff diz que Sabotage foi um divisor de águas na história do rap brasileiro. “Ele não se encaixava nas classificações clássicas do gênero, como gangsta, underground, etc. A palavra que o define é liberdade: musical e lírica. Ele soube explorar isso muito bem numa época em que era difícil estabelecer parcerias sem que soasse como tentativa de ser ‘pop’ ou ‘comercial’ – termos que tinham conotação bem pejorativa, principalmente no rap. Sabotage é, até hoje, uma grande influência para os MCs”, diz Roger.

O mineiro se lembra do encontro com Sabotage em 2000, na Galeria da Praça Sete. “Era um cara muito aberto. Falava em colaboração, que quando o meu disco saísse ajudaria a divulgá-lo e vice-versa. Vi que era muito conectado pras articulações em rede, já naquela época”, conta Roger.

Um ano depois, Sabotage virou astro. E deu o “bolo” num show na capital. “As pessoas ficaram muito frustradas. Mas ele era um cara humilde, tanto que veio a BH depois só para se desculpar. Foi a um dos principais bailes da cidade e acabou vaiado lá. Achei muito nobre da parte dele, pois não tinha outro compromisso aqui. Ele veio e fez jus a Respeito é pra quem tem, título de uma de suas músicas”, relembra Deff.

TRÊS PERGUNTAS PARA:

 

TONI C - Autor de Um bom lugar, biografia de Sabotage

Treze anos depois de sua morte, o que Sabotage significa para o rap nacional?
Sabotage era um ícone, assassinado no auge de uma carreira meteórica e se tornou mito. Como ícone, como mito, é vanguarda, está à frente de seu tempo, parece que gravou esse disco ontem. Sabotage narra o Brasil onde a democracia, a Constituição, os direitos básicos e saneamento não chegaram quando homens saqueiam esse país por cinco séculos. Pune-se uma mulher inocente e o castelo construído por mais de uma década desmorona. Neste momento em que vemos o Judiciário anular a condenação dos responsáveis pelo massacre no Carandiru, quando a TV ameaça diariamente prender o melhor presidente que tivemos, enquanto Eduardo Cunha segue solto... Bom, só uma palavra define o ano de 2016: Sabotage. Este álbum não poderia chegar em momento mais pertinente.

O rapper ficou conhecido por não ser radical como os colegas do hip-hop nos anos 2000. Ele gostava da Sandy, do Sepultura...
Está aí a prova de como era antenado e influente. Muito do que vemos hoje é consequência do que Sabotage construiu de maneira pioneira. Essa é uma parte de seu legado. Rap é música e, como arte, deve estar junto e misturado com outras artes ao redor. É tudo nosso!

Sabotage foi ator de cinema, era multimídia. No livro, você lembra que ele vivia ligadíssimo, com pagers e telefones no bolso.
Ele foi um dos primeiros rappers a sacar que música e imagem anda juntas. Gravou o clipe Rap é compromisso e depois, postumamente, foi premiado com Respeito é pra quem tem. Fez os filmes Carandiru e O invasor, estampou história em quadrinhos, está em documentários e na biografia que tive a honra de escrever. Poucos artistas são tão influentes em tantas áreas. Treze anos depois de ser assassinado, ele segue essencial. O Maurinho do Canão foi tragicamente assassinado e deixou seus familiares, mas Sabotage é imortal.

 

 

Ouça o álbum 'Sabotage':

 

 

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